Grandes ameaças à vida na Terra que devemos enfrentar em 2021

 

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Três grandes ameaças à vida na Terra que devemos enfrentar em 2021. Artigo de Noam Chomsky e Vijay Prashad

IHU

“É necessário um internacionalismo robusto para dar uma atenção adequada e imediata aos perigos de extinção: extinção por guerra nuclear, por catástrofe climática e por colapso social. As tarefas pela frente são colossais e não podem ser adiadas”, escrevem Noam Chomsky, linguista e filósofo estudunidense, e Vijay Prashad, jornalista e historiador indiano, em artigo publicado por Ctxt, 19-01-2021. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Grandes partes do mundo – fora a China e alguns outros países – enfrentam um vírus descontrolado, que não foi detido devido à incompetência criminosa dos governos. O fato desses governos em países ricos desconsiderarem hipocritamente os protocolos científicos básicos publicados pela Organização Mundial da Saúde e por organizações científicas revela sua prática maliciosa.

Qualquer coisa que não seja centrar a atenção no gerenciamento do vírus por meio de testes, rastreabilidade de contato e isolamento – e se isso não for suficiente, impor um bloqueio temporário – é imprudente. É igualmente preocupante que esses países ricos tenham adotado uma política de “nacionalismo da vacina“, monopolizando candidatas à vacina em vez de se alinharem a uma política de criação de uma “vacina dos povos“. Para o bem da humanidade, seria sensato suspender as normas de propriedade intelectual e desenvolver um procedimento para criar vacinas universais para todos os povos.

Embora a pandemia seja o principal tema em nossas mentes, existem outras grandes ameaças à longevidade de nossa espécie e do planeta. Essas incluem:

Aniquilação nuclear

Em janeiro de 2020, o Bulletin of the Atomic Scientists (Boletim dos Cientistas Atômicos) fixou o Relógio do Juízo Final de 2020 em 100 segundos para a meia-noite, perto demais para a comodidade. O relógio, criado dois anos após o desenvolvimento das primeiras armas atômicas em 1945, é avaliado anualmente pelo Conselho de Ciência e Segurança do Boletim, em consulta ao seu Conselho de Patrocinadores, que decide se move o ponteiro dos minutos ou deixa no mesmo lugar.

Quando voltarem a fixar a hora, provavelmente estaremos mais perto da aniquilação. Os já limitados tratados de controle de armas estão sendo destruídos, enquanto as principais potências possuem cerca de 13.500 armas nucleares (mais de 90% delas estão apenas nas mãos da Rússia e dos Estados Unidos). O desempenho dessas armas poderia facilmente tornar este planeta ainda mais inabitável. A Marinha dos Estados Unidos já utilizou ogivas nucleares táticas W76-2 de baixo desempenho. O Dia de Hiroshima, comemorado todo dia 6 de agosto, deve se tornar um dia mais importante de reflexão e protesto.

Catástrofe climática

Em 2018, surgiu um artigo científico com um título impactante: “A maioria dos atóis estará inabitável em meados do século XXIpois o aumento do nível do mar aumentará as inundações causadas pelas tempestades“. Os autores concluíram que os atóis das Seychelles às ilhas Marshall correm o risco de desaparecer.

Um relatório da ONU de 2019 estimou que um milhão de espécies de animais e plantas estão em perigo de extinção. A isso se somam os catastróficos incêndios florestais e o grave branqueamento dos recifes de coral e fica claro que não precisamos mais ficar nos clichês de que uma coisa ou outra é o canário na mina da catástrofe climática: o perigo não está no futuro, mas no presente.

É fundamental que as grandes potências – que continuam falhando em deixar de usar combustíveis fósseis – se comprometam com o enfoque de “responsabilidades comuns, mas diferenciadas” da Declaração do Rio de Janeiro sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento de 1992. É significativo que países como a Jamaica e a Mongólia tenham atualizado seus planos climáticos perante as Nações Unidas antes do final de 2020, conforme exigido pelo Acordo de Paris, apesar desses países produzirem uma fração minúscula das emissões globais de carbono.

Os fundos que foram prometidos aos países em desenvolvimento para a sua participação no processo praticamente evaporaram, enquanto a dívida externa aumentou exponencialmente. Isso mostra uma falta básica de seriedade por parte da “comunidade internacional”.

Destruição neoliberal do contrato social

Os países da América do Norte e da Europa destruíram sua função pública na medida em que o Estado foi sendo entregue aos especuladores e a sociedade civil foi mercantilizada por meio de fundações privadas. Isso significa que os caminhos de transformação social nessas partes do mundo têm sido grotescamente obstaculizados. A terrível desigualdade social é o resultado da relativa fragilidade política da classe trabalhadora. É essa fragilidade que permite aos bilionários definir políticas que aumentam as taxas de fome.

Os países não devem ser julgados pelas palavras escritas em suas constituições, mas por seus orçamentos anuais. Os Estados Unidos, por exemplo, gastam quase um trilhão de dólares (caso o orçamento estimado para inteligência seja somado) em sua máquina de guerra, enquanto gastam apenas uma fração em bens e serviços públicos (como saúde, algo evidente durante a pandemia). A política externa dos países ocidentais parece ser bem lubrificada por negócios de armas: os Emirados Árabes e Marrocos concordaram em reconhecer Israel com a condição de que possam comprar 23 bilhões de dólares e 1 bilhão em armas feitas nos Estados Unidos, respectivamente. Os direitos do povo palestino, saharauis e iemenitas não importaram para estes acordos.

O uso de sanções ilegais pelos Estados Unidos contra trinta países, entre eles Cuba, Irã e Venezuela, tornou-se parte da vida normal, mesmo durante esta crise de saúde pública global desencadeada pela pandemia. É um fracasso do sistema político que as populações do bloco capitalista sejam incapazes de obrigar seus governos – que em muitos casos são democracias apenas no papel – a adotarem uma perspectiva global diante dessa emergência.

O aumento das taxas de fome revela que a luta pela sobrevivência é o horizonte para bilhões de pessoas no planeta (tudo isso enquanto a China consegue erradicar a pobreza absoluta e eliminar, em grande parte, a fome).

aniquilação nuclear e a extinção devido à catástrofe climática são ameaças gêmeas para o planeta. Enquanto isso, para as vítimas do ataque neoliberal, que foi uma praga para a última geração, os problemas de curto prazo para sustentar sua própria existência deslocam questões fundamentais sobre o destino de nossos filhos e netos.

Os problemas globais nesta escala requerem a cooperação global. Pressionadas por países do Terceiro Mundo, nos anos 1960, as grandes potências aceitaram o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (1968), embora tenham rejeitado a profundamente importante Declaração sobre o Estabelecimento de uma Nova Ordem Econômica Internacional (1974). Já não existe a correlação de forças para promover esse tipo de agenda de classe no cenário internacional.

Certas dinâmicas políticas nos países ocidentais, em particular, mas também em grandes estados do mundo em desenvolvimento (como Brasil, Índia, Indonésia e África do Sul), são necessárias para mudar o caráter de seus governos. É necessário um internacionalismo robusto para dar uma atenção adequada e imediata aos perigos de extinção: extinção por guerra nuclear, por catástrofe climática e por colapso social. As tarefas pela frente são colossais e não podem ser adiadas.

(EcoDebate, 21/01/2021) publicado pela IHU On-line, parceira editorial da revista eletrônica EcoDebate na socialização da informação.

[IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos Unisinos, em São Leopoldo, RS.]

 

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