Entre a noção de espaço material e a virtualidade espacial em uma geografia da existência pandêmica

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Entre a noção de espaço material e a virtualidade espacial em uma geografia da existência pandêmica

Artigo de Elissandro Santana

[EcoDebate] A COVID-19 alterou não somente nossa rotina de vida, de trabalho, de lazer, mas, também, e, principalmente, a nossa existência, obrigando-nos ao distanciamento e ao isolamento e, com isso, fomos forçados a repensar a ideia de espaço. De repente, a liberdade de trânsito pelos espaços urbanos ou até mesmo rurais se limitou às nossas moradias e com a impossibilidade de transitar materialmente, ampliamos o trânsito nos espaços virtuais.

Não que o virtual já não fosse uma realidade antes da pandemia, mas, no contexto atual, o existir virtual se intensificou em várias frentes. Da diversão, ao afeto, ao trabalho, a existência se reconfigurou. Tal reconfiguração nos leva à metamorfose do espaço habitável e acerca deste ponto é possível calcar-se no fato de que as novas realidades são, ao mesmo tempo, causa e consequência de uma multiplicação de possibilidades, potenciais ou concretizadas, cuja multiplicidade de arranjos é fator de complexidade e de diferenciação crescentes. Não se trata aqui de adaptação do passado, mas de subversão das concepções fundamentais, das formas de abordagem, dos temas de análise. Isso equivale a dizer que mudam ao mesmo tempo o conteúdo, o método, as categorias de estudo e as palavras-chave. Enquanto promessa, o crescimento das possibilidades diz respeito ao mundo inteiro e a toda a humanidade, mas a historização e a geografização das possibilidades estão sujeitas à lei das necessidades. A divisão dos domínios nem sempre é nítida, mas se pode pensar que num mundo assim construído são as ciências do homem que ganham em alcance. Ademais, inúmeras combinações doravante possíveis não são desejáveis; outras, igualmente numerosas, não convêm a todos os países ou regiões (SANTOS, 1988).

Diante de um espaço material reduzido de circulação, em diversas ocasiões, fora do espaço virtual, amplo por natureza, para muitos, o lar se transformou no maior espaço material, em especial para aqueles em sintonia com o respeito à própria vida e a do outro, diante do risco de contaminação pelo coronavírus. Acerca disso, é oportuno fazer uma intersecção com o fato de que o segundo caminho pode ser aquele do questionamento da volta ao indivíduo e sua escala do cotidiano, como formas de apreensão das dimensões territoriais e da capacidade de projetar a liberdade como meio de satisfação das necessidades individuais. A casa, a rua, o ambiente de trabalho, os grupos de pessoas circundantes e tudo aquilo que faz parte do cotidiano torna-se elemento referencial para estudos dessa natureza. Nessa dimensão, o indivíduo pode ganhar em termos de inventividade e de solidariedades novas, tornando-a revolucionária porque é nesse nível que a liberdade se projeta, que a desregulamentação passa pela decisão da pessoa. (SPOSITO, 2004)

Com base no que se afirma acima, também é viável pensar que a Pandemia pelo coronavírus nos fez perder a ideia de lugar e repensar fronteiras entre o material e o virtual. E para sustentar esta premissa, cabe trazer o que Sposito (2004) nos apresenta na construção do conceito de território – que o estabelecimento de redes de informação com o rápido desenvolvimento tecnológico permite a disseminação de informações em frações de tempo, tornando-se significativas por romperem com a barreira da distância, elemento fundamental para a apreensão do território em sua escala individual. Dessa maneira, os territórios perdem fronteiras, mudam de tamanho dependendo do domínio tecnológico de um grupo ou de uma nação, e mudam, consequentemente, sua configuração geográfica.

A casa como ponto de partida para a conexão com o mundo externo despontou na pandemia como o espaço inicial para ativação das transformações no espaço virtual e sobre esta questão é possível fazer relação com o que afirma Sposito – que o território é fonte de recursos e só assim pode ser compreendido quando enfocado em sua relação com a sociedade e suas relações de produção, o que pode ser identificado pela indústria, pela agricultura, pela mineração, pela circulação de mercadorias etc., ou seja, pelas diferentes maneiras que a sociedade se utiliza para se apropriar e transformar a natureza (SPOSITO, 2004, p. 112-113).

Essa mudança de espaço, forçada, exige a mudança de valores, de conceitos, de ideias, de sentidos e isso está em consonância com o que afirma Carvalho (2004, p.42): “[…] mudar valores requer o alto conhecimento do indivíduo-sujeito”.

A COVID-19 e o estado pandêmico no qual nos encontramos parece que nos fizeram escolher aquilo que Santos e Silveira no capítulo II “Do meio natural ao meio técnico-científico-informacional”, no livro “O Brasil: território e sociedade no século XXI” colocam: a questão é escolher as variáveis-chave que, em cada pedaço do tempo, irão comandar o sistema de variáveis, esse sistema de eventos que denominamos período. Eis o princípio a partir do qual podemos valorizar os processos e reconhecer as novidades da história do território.” (SANTOS e SILVEIRA, 2006, p.22)

Fazendo-se uma interlocução entre o que Santos e Silveira (2006) discutem no livro “O Brasil: território e sociedade no início do Século XXI”, quando, logo no início da obra, os aurores conceituam território, territorialidade e afirmam que território usado é sinônimo de espaço geográfico e que os usos são diferentes nos diversos momentos históricos com a nossa noção atual de espaço no contexto da pandemia, pode-se perceber que o virtual deixou de ser complemento para nossa existência no plano físico e material para se transformar no novo real diante das necessidades impostas e forçadas.

Como a noção de espaço em Geografia muda, dependendo do tempo, dos contextos e recortes de pesquisa, o estudo das semânticas atuais sobre este objeto esboça e apresenta novas percepções e conceitos que podem ampliar o estado da arte em torno desse fenômeno tão importante para aprofundar a compreensão acerca do que vem a ser o lugar material e o lugar virtual, principalmente, em um contexto pandêmico em decorrência da COVID-19, em que o Brasil e o mundo precisaram repensar o existir social a partir da espacialidade virtual.

A Pandemia pela COVID-19 obriga-nos a pensar a ideia do existir em um espaço entre o físico e o virtual e, nesse sentido, a própria percepção de ser, de estar e de trabalhar se remodela e seguirá se transformando. Desta forma, tem-se que os conceitos, sejam na Geografia ou em qualquer área do conhecimento, mudam e podem seguir mudando. Desta forma, é oportuno trazer o que Suertegaray (2001) discute – que entender a construção do conceito de espaço geográfico implica trabalharmos outras duas categorias: tempo e espaço e que estas também se apresentam a partir de concepções diferenciadas. Segundo a autora mencionada, para construirmos o conceito de tempo que perpassou e perpassa a análise geográfica através de seu conceito balizador – o espaço geográfico – utilizaremos as seguintes representações: seta, ciclo e espiral. A Geografia, em seu início, assumiu uma concepção de tempo à maneira de Kant, concebendo-o de forma sequencial, linear, como sucessão de fatos no espaço. Neste sentido, construiu suas análises numa perspectiva histórica sequencial, onde buscava explicar as relações da comunidade (grupo particularizado) com o meio (natureza) ao longo do tempo. Trata-se de uma visão de tempo como seta-evolução. Sob outra ótica, o espaço geográfico foi analisado numa visão de tempo como ciclo, onde a compreensão era de fatos sucessivos que voltam ao ponto inicial. O tempo, nesta perspectiva, evoca a ideia de uma dinâmica estável, um movimento que se repete.

Com base no que se apresentou até aqui, cabe colocar em debate a noção de que o espaço é um objeto de estudo da Geografia há anos, mas foi a partir de pensadores e pesquisadores como Milton Santos que o conceito de espacialidade atingiu um novo patamar em uma perspectiva social e política.

A partir de Milton Santos, avançamos em torno da ideia de que o espaço não pode ser compreendido apenas como algo material e/ou físico. Para ele: quanto ao espaço virtual, devemos nos lembrar de que a realidade do espaço supõe trabalho, por isso ele não é apenas material ou físico e está sempre ganhando novas definições substantivas com as mudanças históricas. Aliás, o espaço supõe um trabalho que é sempre multidimensional1.

Com base nas noções apresentadas acima, é possível perceber intersecções semânticas entre o que Milton Santos afirma sobre espaço real (entenda-se, neste trabalho, como físico ou material) e virtual, mas, acerca disso, é importante, mais uma vez, recorrer à ideia do grande geógrafo baiano de que o espaço virtual em si mesmo não é trabalho, mas pode ser uma condição. O espaço virtual apenas permite comunicar o resultado de um trabalho real, multidimensional. Condição imutável do trabalho, portanto unidimensional, apenas autoriza o trabalho, mas não o constitui. Sem dúvida, ele se apoia no espaço real, genuíno, de nossa definição como geógrafo, mas ele próprio não é espaço. Levando a discussão a um extremo, e como os adjetivos não sobrevivem sem os substantivos que modificam, nem mesmo é virtual. Mas não queremos ser extremistas. Não há como recusar a utilização de um vocábulo já antigo para exprimir uma nova situação, mas é sempre prudente distinguir conceito de metáfora. O uso da metáfora, da imagem, não pode ser vetado. Será bom, todavia, no mundo que é movido por tantos enganos e percepções fragmentadas, que isto seja claramente entendido. Uma coisa é a importância dessas formas de ser da informação, tão úteis à construção cotidiana da história, cuja aceleração autoriza como é o caso do espaço virtual. Outra coisa são suas denominações2.

* Elissandro Santana é Professor da Faculdade Nossa Senhora de Lourdes, membro do Grupo de Estudos da Teoria da Dependência – GETD, revisor da Revista Latinoamérica, colunista da área socioambiental, latino-americanicista e tradutor do Portal Desacato.

Referências

SANTOS, Milton; SILVEIRA, Maria Laura. O Brasil: território e sociedade no início do século XXI. 9. Ed. Rio de Janeiro: Record, 2006.

SPÓSITO, Eliseu S. Geografia e Filosofia: Contribuição para o ensino do pensamento geográfico. São Paulo: Editora UNESP, 2004.

SUERTEGARAY, Dirce Maria Antunes. Scripta Nova REVISTA ELECTRÓNICA DE GEOGRAFÍA Y CIENCIAS SOCIALES
Universidad de Barcelona
ISSN: 1138-9788.
Depósito Legal: B. 21.741-98
Nº 93, 2001. Acesso em 04 de setembro de 2020.

SANTOS, Milton. Metamorfoses do Espaço Habitado. 4. ed. São Paulo: Ed. Hucitec, 1988.

CARVALHO, Maria Bernadete Sarti da Silva. Meio Ambiente e Cidadania: A interface Educacional, 2004. 224f. Tese (Doutorado em Geografia) – Instituto de Geociências e Ciências Exatas, Universidade Estadual Paulista, Rio Claro, 2004.

1 http://www2.fct.unesp.br/docentes/geo/bernardo/BIBLIOGRAFIA%20DISCIPLINAS%20POS-GRADUACAO/MILTON%20SANTOS/H%C3%A1_mesmo_um_espa%C3%A7o_virtual__Milton_Santos.pdf

2 http://www2.fct.unesp.br/docentes/geo/bernardo/BIBLIOGRAFIA%20DISCIPLINAS%20POS-GRADUACAO/MILTON%20SANTOS/H%C3%A1_mesmo_um_espa%C3%A7o_virtual__Milton_Santos.pdf

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 16/09/2020

 

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