A América Latina terá mais uma década perdida com o impacto da covid-19

 

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

[EcoDebate] A América Latina e Caribe (ALC) está vivendo mais uma década perdida com estagnação da renda per capita. A primeira aconteceu em 1981-90 e a segunda em 2011-20. A Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) divulgou em 21/04/2020 o estudo “Dimensionar los efectos del COVID-19 para pensar en la reactivación”, onde mostra que a pandemia da covid-19 pegou a ALC em um momento de debilidade macroeconômica, pois, no decênio posterior à crise financeira de 2008/09, o continente apresentou em média o menor crescimento desde a década de 1950.

No dia 15/07 a CEPAL divulgou o relatório “Enfrentar los efectos cada vez mayores del COVID-19 para una reactivación con igualdad: nuevas proyecciones” onde atualiza as projeções e mostra que a situação se agravou. A projeção de abril indicava uma queda do PIB da ALC de 5,3% em 2020 e, agora em julho, a estimativa é de queda de 9,1%.

Segundo o relatório, a economia mundial experimentará sua maior queda desde a Segunda Guerra Mundial e PIB per capita diminuirá em 90% dos países, em um processo sincrônico sem precedentes. Em 2020, o PIB mundial deve diminuir em 5,2%. A queda será 7,0% nas economias desenvolvidas e 1,6% nas economias emergentes.

A forte contração em 2020 se traduzirá em uma queda de 9,9% no PIB per capita da ALC. Depois de praticamente haver uma estagnação entre 2014 e 2019 (quando o crescimento médio anual foi de apenas 0,1%), essa queda no PIB per capita implica um declínio de dez anos: o nível em 2020 será semelhante ao registrado em 2010 (ver gráfico abaixo).

evolução do PIB per capita na América Latina e Caribe

Os países (com mais de um milhão de habitantes) que vão apresentar maior queda do PIB em 2020 são: Venezuela (-26%), Peru (-13%), Argentina (-10,5%), Brasil (-9,2%) e México e Equador (-9%). A Guiana vai ter um grande crescimento devido às descobertas recentes de petróleo.

projeção de crescimento do PIB na América Latina e Caribe

A América Latina e Caribe (ALC) é, preocupantemente, a região mais atingida pela pandemia do novo coronavírus. Com 8,4% da população mundial, responde por 45% das mortes globais da covid-19. No dia 29 de fevereiro de 2020 o mundo registrou 86,6 mil casos e 3 mil mortes, sendo que a China concentrava 80 mil casos (92% do total) e 2,9 mil mortes (96% do total). Do país asiático, o coronavírus se espalhou para o mundo. Entre março e abril a Europa e os Estados Unidos (EUA) passaram a concentrar a maior parte das mortes diárias provocadas pela covid-19, mas a partir do mês de maio o destaque coube à ALC, conforme mostra a figura abaixo, do jornal financial Times que apresenta a média móvel de 7 dias do número diário de mortes no mundo.

A forma da figura reflete o fato de que o número médio de mortes diárias no mundo era de 393 óbitos entre 15 e 21 de março, passou para 6,8 mil morte diárias em meados de abril, caiu para 3,8 mil no final de maio e voltou a subir para 5,6 mil na semana de 17 a 23 de julho. A Europa e os EUA respondiam por apenas 6% das mortes diárias em 29 de fevereiro, mas deram um salto para cerca de 80% em meados de março e para 90% na primeira quinzena de abril. Mas ambos passaram a ter uma menor participação nos meses seguintes e na semana de 23 a 29 de junho a Europa respondia por 10% e os EUA por 15% das mortes diárias.

número médio de mortes diárias no mundo era de 393 óbitos entre 15 e 21 de março, passou para 6,8 mil morte diárias em meados de abril, caiu para 3,8 mil no final de maio e voltou a subir para 5,6 mil na semana de 17 a 23 de julho

O grande destaque nos meses de maio e junho foi a ALC que passou a concentrar mais da metade dos óbitos diários no mês de junho. Entre os dias 02 e 08 de junho, a média diária de mortes foi de 4.700 no mundo e de 2.361 mortes na América Latina (50% do total global). O Brasil, México, Peru e Chile foram os países que tiveram o maior número de mortes diárias na América Latina. Na semana de 17 a 23 de julho a ALC teve 2,5 mil óbitos, 45% do total de 5,6 mil vidas perdidas globalmente. Outros países que estão apresentando números crescentes são a Índia, Paquistão e Bangladesh na Ásia, África do Sul, Egito e Nigéria na África e alguns países do Oriente Médio.

Ou seja, a ALC está vivendo uma pandemia combinado a um pandemônio na economia. No ritmo que as coisas vão a região será incapaz de cumprir com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e com a Agenda 2030 da ONU. O continente mais socialmente desigual do mundo está assistindo ao agravamento das condições de saúde, emprego e pobreza e vendo o futuro de prosperidade cada vez mais distante.

José Eustáquio Diniz Alves
Colunista do EcoDebate.
Doutor em demografia, link do CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/2003298427606382

Referências:

ALVES, JED. A pandemia de Coronavírus e o pandemônio na economia internacional, Ecodebate, 09/03/2020

https://www.ecodebate.com.br/2020/03/09/a-pandemia-de-coronavirus-covid-19-e-o-pandemonio-na-economia-internacional-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

Financial Times. Coronavirus tracked: the latest figures as countries start to reopen. The FT analyses the scale of outbreaks and the number of deaths around the world

https://www.ft.com/content/a26fbf7e-48f8-11ea-aeb3-955839e06441

CEPAL. Enfrentar los efectos cada vez mayores del COVID-19 para una reactivación con igualdad: nuevas proyecciones, 15 de julio de 2020

https://repositorio.cepal.org/bitstream/handle/11362/45782/1/S2000471_es.pdf

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 27/07/2020

 

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