Seu cérebro quer emoções, artigo de Montserrat Martins

 

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[EcoDebate] “Meu cérebro quer me destruir”, diz o menino Calvin depois de uma aventura impulsiva, numa das melhores histórias em quadrinhos desse personagem divertido. É verdade que o cérebro “gosta” de emoções, tanto que nossa memória só retém os fatos bons ou ruins, nunca os “neutros”, só lembramos do que nos causou prazer ou dor.

Seu cérebro adora emoções, mas o sistema imunológico detesta, tanto que estresse ou depressão inibem nossas defesas, então não é só nossa mente que é contraditória, nosso próprio organismo “não se entende”, umas partes querem uma coisa, outras querem outra.

Sabe porque as mídias estão cheias de notícias escandalosas, tristes ou revoltantes, negativas? Porque dá Ibope, sem audiência elas fecham. A culpa não é da mídia, é do nosso cérebro mesmo, tanto que as pessoas que protestam contra a mídia o fazem com a mesma negatividade que acusam a mídia de ter. Você já viu alguma crítica afetiva ou bem humorada? Bem raro, né? Tente montar um “jornal das boas notícias”, vai ser difícil conseguir audiência.

Raiva, medo, alegria, tristeza, excitação, tudo isso é motivador para o cérebro humano prestar atenção em algo, seja nos filmes ou na vida real.

Enquanto seu sistema imunológico só quer paz para trabalhar, pois sob intensas emoções o trabalho de dele pode ser prejudicado, já está provado que estresse e depressão afetam as nossas defesas. O sistema cardiovascular é outro que, apesar de se beneficiar com exercícios físicos – quando o sangue circula mais rápido e o corpo gasta energia – pode se prejudicar com estresse ou depressão, que são como “lutas internas” do corpo.

Você acha o mundo um lugar cheio de conflitos? Bem vindo ao seu organismo, seu próprio corpo é assim, parece ser da nossa natureza o contraditório. O desafio da sabedoria, então, é aprender a lidar com isso da melhor forma, conhecendo a nossa natureza, usá-la a nosso favor. Nosso cérebro pode ser “condicionado” a se comportar dentro de certos limites, como reza a sabedoria, para não afetar nosso equilíbrio corporal.

Uma estratégia antiga era o “jogo do contente” baseado numa história da personagem Poliana, que consistia em procurar “o lado bom” das coisas ruins, por piores que fossem. Essa estratégia ainda funciona parcialmente, dá pra ver pelo número de mensagens de whatsapp dizendo que “sairemos melhor” da crise do coronavírus. Mas para “funcionar” o jogo do contente você tem de acreditar nisso – e nem sempre parecem muito verdadeiras essas interpretações benignas, que parecem “forçar a barra” muitas vezes, algo utópico, irreal, fantasioso.

Outra tese antiga, mas mais realista, é que toda frustração é uma experiência, o que faz muitas pessoas dizerem que já tem “experiência demais”, só querem ser felizes. O verdadeiro sentido não é ter experiências, mas aprender com elas.

Só a experiência, afinal, pode “educar” o cérebro e seus impulsos primitivos.

Montserrat Martins, Médico e escritor

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 04/06/2020

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