O perfil demográfico do Brasil até 2100 e os desafios da covid-19, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

 

A transição demográfica é o fenômeno de comportamento de massa

mais importante da história da humanidade” (ALVES, 1994)

[EcoDebate] A pandemia da covid-19 vai ter um impacto profundo no mundo, tanto em termos de morbimortalidade, quanto em termos econômicos. Contudo, por maior que seja o impacto em número de vítimas fatais, o surto pandêmico será incapaz de alterar a transição demográfica brasileira de longo prazo. Ou seja, a queda nas taxas brutas de natalidade e mortalidade vão continuar e a estrutura etária vai manter o ritmo de envelhecimento.

Todavia, a pandemia pode jogar a pá de cal na possibilidade de aproveitamento do bônus demográfico e, desta forma, pode inviabilizar a decolagem do desenvolvimento humano do país e o Brasil pode ter que abandonar o sonho de se tornar uma nação próspera e feliz.

O Brasil passou pelo fenômeno da transição demográfica (queda das altas taxas de mortalidade e natalidade), fundamentalmente, no século XX, e, em consequência, vai ter uma grande transição da estrutura etária no século XXI. A configuração demográfica do país no atual século será totalmente diferente dos primeiros 500 anos de história do país.

A Divisão de População da ONU divulgou, em junho de 2019, as novas projeções populacionais para todos os países, para as regiões e para o total mundial. E no final do ano divulgou os novos gráficos sobre o perfil demográfico dos países. As figuras abaixo mostram as pirâmides populacionais do Brasil em três momentos.

Em 1950, a população brasileira era de 53,9 milhões de habitantes, sendo 26,7 milhões de homens e 27,2 milhões de mulheres (meio milhão a mais de mulheres). A estrutura etária era jovem (alta proporção de crianças e adolescentes e baixíssima proporção de idosos) e a idade mediana era de apenas 19,2 anos (metade da população estava abaixo de 19,2 anos). Este tipo de pirâmide refletia a realidade dos primeiros 450 anos da demografia brasileira.

pirâmide populacional

Em 1985 foi o último ano em que a pirâmide brasileira teve um “formato egípcio” (cada grupo etário mais jovem era maior do que o grupo imediatamente anterior). A população brasileira era de 135,3 milhões de habitantes, sendo 67,3 milhões de homens e 68 milhões de mulheres (700 mil mulheres a mais). A idade mediana subiu ligeiramente para 21,4 anos, marcando o começo muito inicial do processo de envelhecimento.

Em 2020 a pirâmide brasileira já apresentou uma redução da base e um encorpamento do meio da estrutura etária. A população brasileira foi estimada em 212,6 milhões de habitantes, sendo 104,4 milhões de homens e 108,2 milhões de mulheres (3,8 milhões de mulheres a mais). A idade mediana subiu para 33,5 anos, mostrando a rapidez do processo de envelhecimento do Brasil.

Normalmente, a ONU apresenta para o restante do século três cenários de projeções, conforme mostra o gráfico abaixo para o caso do Brasil. No cenário de projeção alta, a estimativa indica uma população de 272,7 milhões de brasileiros em 2100. No cenário de projeção média, a população brasileira seria de 180,7 milhões de habitantes em 2100. E no cenário de projeção baixa, o número ficaria em 114,4 milhões de habitantes em 2100. Nos três cenários o número de mulheres continua superando o número de homens e o processo de envelhecimento é acentuado. A idade media na projeção alta em 2100 está estimada em 42,3 anos. Na projeção baixa a idade mediana ficaria em impressionantes 62,6 anos. E na projeção média (a mais provável) a idade mediana ficaria em 51,4 anos (ou seja, metade da população ficaria abaixo de 51,4 anos e a outra metade acima desta idade). O século XXI vai ser o século do envelhecimento demográfico do Brasil.

população do Brasil em 2100

Os gráficos abaixo detalham o perfil demográfico do Brasil entre 1950 e 2100. Nota-se que a população que era de 53,9 milhões em 1950 deve atingiu um pico de 229,6 milhões de habitantes em 2045 e depois iniciar uma trajetória de queda (a depender das taxas de fecundidade a queda pode ser menor ou maior). A população de 0-14 anos já está caindo desde o final do século XX. A população de 15-24 anos (idade de segundo grau e de universidade) já começou a cair desde o início do atual século. A população de 25-64 anos (potencialmente em idade de trabalhar) vai continuar crescendo até meados do atual século, mas vai cair na segunda metade do século. E a população idosa vai aumentar constantemente sua proporção na população total.

As taxas brutas de mortalidade (TBM) e de natalidade (TBN) vão se encontrar em 2045 e a partir desta data o crescimento vegetativo se torna negativo. A taxa de fecundidade total (TFT) ficou ao nível de reposição (2,1 filhos por mulher) em 2005 e deve ficar abaixo do nível de reposição no restante do século. As taxas de mortalidade caíram significativamente e a esperança de vida ao nascer aumentou expressivamente, sendo que as mulheres mantém uma vantagem sobre os homens em termos de anos médios de vida.

perfil demográfico do Brasil até 2100

Todos os dados acima mostram que o Brasil terá uma mudança completa no seu perfil demográfico entre 1950 e 2100. Em meados do século XX, o Brasil tinha altas taxas de mortalidade e natalidade, uma estrutura etária muito rejuvenescida e altas taxas de crescimento natural. No final do século XXI, o Brasil terá baixas taxas de mortalidade e natalidade, uma estrutura etária muito envelhecida e decrescimento populacional.

Atualmente, em 2020, o Brasil tem a melhor configuração demográfica de sua estrutura etária, pois tem as razões de dependência mais baixas da história (passada e futura). Ou seja, a proporção de pessoas dependentes (crianças e idosos) é menor dos 520 anos da história brasileira e será menor em relação ao futuro, pois ela já começou a subir e vai se elevar bastante com o processo de envelhecimento. Isto quer dizer que o Brasil está no melhor momento do bônus demográfico.

Esta nova configuração demográfica exigiria que as políticas econômicas e sociais se adaptem à nova realidade populacional, fortalecendo as políticas de educação e emprego. Infelizmente a crise econômica que começou em 2014 já estava fazendo o Brasil desperdiçar este momento histórico e que é fundamental para qualquer nação que queira dar um salto de qualidade de vida para a sua população. Só é possível um país enriquecer (ter alto IDH) antes de envelhecer.

Mas com toda a crise econômica e no mercado de trabalho que acontece depois da eclosão do coronavírus, o desafio de aproveitar os momentos favoráveis da estrutura etária parece um sonho cada vez mais distante. O FMI, no relatório divulgado em abril, estimou que o mundo vai ter a maior depressão econômica da história do capitalismo e o Brasil vai ter a sua pior recessão anual da história em 2020.

Assim, neste quadro econômico que já era muito complexo, a covid-19 chegou ao país em um momento de muita instabilidade política e, tudo indica, terá um impacto mortal sobre a economia brasileira, fazendo com que o Brasil desperdice de vez a sua chance de aproveitar o bônus demográfico e de dar um salto na qualidade de vida da população brasileira.

José Eustáquio Diniz Alves
Colunista do EcoDebate.
Doutor em demografia, link do CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/2003298427606382

Referências:

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https://repositorio.ufmg.br/bitstream/1843/MCCR-7UWH66/1/jos__eustaquio_diniz_alves_tese_demografia_1994.pdf

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https://www.ecodebate.com.br/2010/06/01/o-planejamento-familiar-no-brasil-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 29/04/2020

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