A ‘vacina’ contra outros surtos: proibição dos mercados de fauna silvestre, por Juliana Machado Ferreira e Steve Galster

Descoberta de vírus da zika em macaco sugere ciclo silvestre da doença
Descoberta de vírus da zika em macaco sugere ciclo silvestre da doença. Foto: © Rio de Janeiro/Arquivo/Fábio Massalli

A ‘vacina’ contra outros surtos: proibição dos mercados de fauna silvestre, por Juliana Machado Ferreira e Steve Galster

[EcoDebate] Atualmente o mundo assiste atônito a uma pandemia que fez a Terra parar. Provavelmente muitas pessoas foram pegas de surpresa, já que esse tipo de surto global seria coisa do passado, que nossa incrível tecnologia e medicina – ou nossas poderosas armas de guerra – conseguiriam impedir toda e qualquer ameaça à humanidade. Mas não. E enquanto pessoas ficam doentes e milhares morrem, governos ao redor do mundo correm para tentar conter a pandemia e o pânico, ainda pouco se fala na mídia de grande alcance da causa principal do surto. A boa notícia é que conhecemos a fonte. E se conhecemos a fonte, significa que conhecemos a forma de minimizar as chances de ocorrência de novas pandemias como esta. Porém, se não houver ação efetiva global para lidar com a causa que gerou a pandemia, outras nos acometerão.

Estudos científicos revelaram que é provável que pandemia do novo coronavírus tenha surgido em um mercado onde animais silvestres eram comercializados. Especialistas concluíram que um vírus comum em algum animal, possivelmente um morcego ou mesmo um pangolim (o mamífero mais traficado do mundo), sofreu mutações que permitiram que infectasse seres humanos. Por ser um vírus novo, os seres humanos não tinham ferramentas para combater a infecção, fazendo com que desenvolvessem uma doença, chamada agora de COVID 19 (coronavirus disease 2019). A COVID 19 apresenta uma taxa de transmissão alta, maior por exemplo do que a gripe, e pode evoluir para uma síndrome respiratória grave.

No entanto, nos muitos discursos de diferentes governantes do mundo compartilhados por todo tipo de mídia nos últimos meses, e especialmente nas manifestações do governo brasileiro, praticamente não há menção ao tráfico de animais silvestres e aos mercados de animais. Não se presta atenção ao fato de que a pandemia teve origem em um animal silvestre à venda em um mercado. Qualquer que tenha sido o animal em Wuhan que transmitiu o novo coronavírus para as primeiras vítimas, ou foi traficado ou fornecido por operações de criação em cativeiro, que geralmente esquentam animais traficados.

Mas essa questão é muito maior do que morcegos, pangolins e a China. Surtos de zoonoses já ocorreram antes, e vão continuar ocorrendo se continuarmos a explorar animais domésticos e silvestres da forma como fazemos atualmente. Na África, o HIV (antes SIV) e o Ebola foram transmitidos a pessoas por primatas, muito provavelmente devido ao consumo de carne de caça; camelos domesticados no Oriente Médio transmitiram a mortal MERS; aves aquáticas migrantes infectaram aves de criação nos lotados mercados de Hong Kong, e passaram a transmitir a gripe aviária; civetas oferecidas nos cardápios chineses nos passaram a SARS, entre muitas outras. Todos esses vírus levaram a doenças, mortes e transtornos econômicos.

A resposta da China em 2003 à SARS, outro coronavírus, foi destruir 846.000 animais. Contudo, essa ação não tratou o cerne da questão. Agora, com a COVID-19 a China fechou todos os mercados de fauna silvestre e proibiu todo o comércio de fauna silvestre. Este sim foi um passo extremamente relevante e de grande alcance. Mas quantos brasileiros, em especial legisladores, estão cientes do volume do comércio legal e ilegal, doméstico e transnacional, de fauna silvestre aqui mesmo no Brasil? Quantos veem a ligação profunda e intrínseca entre a pandemia, os mercados de fauna na China, e nosso “hábito cultural” de manter animais silvestres em cativeiro como animais de estimação ou de consumir carne de caça? Quantos percebem a relação entre a pandemia e a forte pressão política pela diminuição da regulamentação das atividades de exploração de fauna silvestre? Conservacionistas da biodiversidade sempre apontaram o risco de transmissão de zoonoses como um dos itens de maior relevância que se deve levar em conta para autorizações de empreendimentos e formas de exploração de fauna silvestre, e a reposta mais comum é de que isso é alarmismo e a ameaça não é séria e nem real. Existem diversas zoonoses contaminando brasileiros neste exato momento, como leishmania, raiva, hanseníase, leptospirose, hantavírus, ornitose, entre muitas outras. Além disso, vírus presentes nos animais mantidos ou consumidos aqui mesmo podem também sofrer mutações e passar a infectar seres humanos. E, no entanto, a indústria de comércio de animais silvestres está mais poderosa do que nunca, inclusive com fortes pressões para a liberação da caça esportiva no Brasil.

Os maiores especialistas em vírus e zoonoses do mundo concordam que surtos zoonóticos como o da COVID-19 podem aumentar e ficar ainda piores à medida que o comércio de fauna silvestre aumenta e os habitats das espécies diminuem.

Por décadas conservacionistas têm tentado desesperadamente chamar a atenção dos líderes globais e legisladores para que priorizem leis e recursos para a proteção das espécies silvestres em seus habitats, e para reduzir a indústria multibilionária de comércio de fauna silvestre, que não apenas tem o potencial para causar surtos, mas que é uma das principais forças motrizes da maior e mais rápida perda de biodiversidade da história.

Recentemente houve alguns progressos no mundo, entre eles a Ordem Executiva Presidencial nos EUA em 2013 que tornou o tráfico de fauna silvestre uma prioridade, e a resolução 69/314 da ONU de 2015, que considerou o tráfico de fauna silvestre como um crime sério. No Brasil os avanços têm sido mais lentos e fruto de comprometimento de alguns servidores públicos, poucos legisladores e algumas organizações da sociedade civil. Entretanto, em nenhum país a disponibilidade de recursos e a implementação efetiva acompanharam os compromissos assumidos. Conservacionistas se acostumaram a portas se fechando aos apelos, assim como aos recursos extremamente limitados para ajudar a derrotar uma crise global. A resposta padrão é que “questões envolvendo animais silvestres não têm a mesma relevância de questões de segurança nacional e crises humanitárias”. A COVID 19 demonstra que a proteção à biodiversidade é uma parte integral da segurança internacional e do bem-estar humano.

No entanto, os conservacionistas da biodiversidade têm planos que podem ajudar a prevenir surtos de zoonoses, programas bem desenhados para combater o tráfico de animais silvestres para que não acabem em mercados ilegais. E há ainda campanhas promissoras que podem reduzir a demanda por espécies silvestres, fazendo também com que pessoas não adoeçam enquanto contribuem para a extinção das espécies. A comunidade conservacionista há muito busca aumentar o alcance desses programas para maior impacto.

Estimativas robustas apontam que com menos de 1% do que está sendo gasto no mundo por conta da COVID 19 em 20201 poderia ser desenvolvido um programa global para proteção e recuperação da fauna silvestre.

Passou da hora dos governos entenderem que o mercado consumidor de fauna silvestre não pode ser usado como curral eleitoral e que a conservação de espécies silvestres e de ecossistemas têm que ser políticas públicas, de governo, independente do partido no poder.

E passou da hora dos governos entenderem que conservação da biodiversidade e de ecossistemas saudáveis são investimentos – não gastos – e mais, são apólices de seguro para a segurança e o bem-estar humanos e para a estabilidade econômica.

Juliana M Ferreira é Bióloga, MSc e PhD em Biologia, fundadora e Diretora Executiva da Freeland Brasil.

Steve Galster é fundador e CEO da Freeland Global.

1 Até a confecção deste artigo os valores divulgados estavam na casa de 2,7 trilhões de dólares americanos

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 02/04/2020

[cite]

 

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