O impacto global da classe média sobre o meio ambiente, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

[EcoDebate] O impacto das atividades antrópicas sobre o meio ambiente depende do tamanho da população, do volume da produção e consumo de mercadorias e da tecnologia utilizada no processo de desenvolvimento.

Antes da Revolução Industrial e Energética, o impacto demográfico e econômico global era relativamente modesto e estava bem abaixo da capacidade de carga do Planeta. Mas tudo mudou a partir do uso de combustíveis fósseis (carvão mineral, petróleo, gás, etc.) e da aplicação de processos científicos e tecnológicos que possibilitaram um grande salto da produção e do consumo na economia internacional.

Entre 1770 e 2020, a economia global cresceu 135 vezes, a população mundial cresceu 9,2 vezes e a renda per capita cresceu 15 vezes, como mostra o gráfico abaixo com base em dados de Angus Maddison. Este crescimento demoeconômico foi maior do que o de todo o período dos 200 mil anos anteriores, desde o surgimento do Homo sapiens. O enriquecimento humano ocorreu às custas do empobrecimento do meio ambiente e embora este crescimento tenha ocorrido de forma desigual entre as classes sociais, a grande maioria dos habitantes da Terra tiveram um aumento do padrão de consumo.

crescimento da economia, da população e da renda per capita mundial

O sistema de produção e consumo de massa cresceu de tal forma que a maioria da população mundial atualmente tem acesso a bens e serviços que nem as elites mais privilegiadas tinham no século XVIII, tais como iluminação elétrica, geladeira, televisão, carro, moto, ônibus, tratores, transatlânticos e imensos navios cargueiros, viagem de avião, turismo, telefone, celulares, Internet, uma imensa variedade de comida e alimentos processados, etc. Globalmente, a mortalidade na infância caiu de mais de 400 por mil antes da Revolução Industrial e Energética, para menos de 40 por mil atualmente, enquanto a expectativa de vida ao nascer subiu de menos de 25 anos para mais de 70 anos, nos últimos 250 anos.

Em 1848, Marx e Engels escreveram o Manifesto Comunista onde diziam: “Trabalhadores do mundo, uni-vos, vós não tendes nada a perder a não ser vossos grilhões”. Mas esta ideia de empobrecimento absoluto da classe operária e da maioria da população mundial não ocorreu na prática. A maior parte dos habitantes do mundo, mesmo com seus grilhões simbólicos, tem acesso a uma cesta básica de mercadorias, assim como anseiam ampliar seu poder de consumo. Ao contrário da perspectiva de uma “crise final da contradição capital versus trabalho”, o capitalismo se reinventou, se transformou, alterou as relações de injustiça e desigualdade, reduziu a extrema pobreza absoluta no mundo e conseguiu sobreviver, sem ser ameaçado pelas alternativas socialistas que defendiam o fim da grande propriedade privada.

O que ameaça o sistema capitalista global atual não são as lutas de classe e a revolta dos “famélicos da Terra”, mas a crise climática e ambiental provocada pela máquina insana e insone de acumulação de capital e riqueza. O capitalismo (reinventado pela luta de classes e a regulação do Estado) se transformou, alterou as relações de injustiça e desigualdade social e conseguiu reduzir a extrema pobreza absoluta no mundo (embora às custas do empobrecimento absoluto da natureza).

O gráfico abaixo – do sítio “Our World in Data” – mostra o crescimento do poder aquisitivo da população mundial e as estimativas da distribuição da renda anual entre todos os cidadãos do mundo nos últimos dois séculos, utilizando o dólar internacional para tornar os dados comparáveis.

global income distribution

O gráfico mostra que, em 1880, a maioria do mundo vivia na pobreza com uma renda semelhante aos países mais pobres de hoje. Mais de 80% das pessoas viviam em condições materiais que hoje chamaríamos de extrema pobreza. A renda mundial cresceu até o ano de 1975, mas a distribuição de renda tornou-se mais desigual. A distribuição era “bimodal”, com a forma de “duas corcovas” de um camelo: uma corcova abaixo da linha de pobreza internacional e uma segunda corcova com rendimentos consideravelmente mais altos. Em 1975, o mundo estava dividido em um mundo pobre e em desenvolvimento e um mundo desenvolvido que era 10 vezes mais rico.

Segundo o “Our World in Data”, entre 1975 e 2015, a distribuição de renda mundial mudou drasticamente. Houve uma convergência de renda: em muitos países mais pobres, especialmente no Sudeste Asiático, a renda cresceu mais rapidamente do que nos países ricos. Embora permaneçam enormes diferenças de renda, o mundo não se divide mais nos dois grupos de países “desenvolvidos” e “em desenvolvimento”. O mundo passou de duas corcovas para uma corcova. E, ao mesmo tempo, a distribuição também mudou para a direita – a renda de muitos dos cidadãos mais pobres do mundo aumentou e a pobreza extrema caiu mais rapidamente do que nunca na história da humanidade.

A ascensão dos países “emergentes”, especialmente o crescimento econômico da China e da Índia, fez a “classe média” mundial dar um salto. O gráfico abaixo (Caixa Bank Research, set 2019) mostra que a “classe média” (definida como US$ 11 a US$ 110 por pessoa por dia) era menos de 2 bilhões de pessoas em 2009 (27% da população mundial) e passou para 3,6 bilhões de pessoas em 2019 (47% da população total) e deve atingir mais de 5 bilhões de pessoas em 2030 (representando 61% da população mundial). Dados semelhantes são apresentados pelo World Data Lab, com sede em Viena (ALVES, 26/10/2018).

global middle class

Este enorme crescimento da “classe média” global de certa foram contraria a expectativa do eminente economista brasileiro Celso Furtado, que no livro “O mito do desenvolvimento econômico”, considerava que os países da periferia do sistema capitalista seriam incapazes de reproduzir o padrão de consumo dos países ricos, pois o padrão de desenvolvimento afluente não seria generalizável para a maioria da população mundial:

(…) que acontecerá se o desenvolvimento econômico, para o qual estão sendo mobilizados todos os povos da terra, chegar efetivamente a concretizar-se, isto é, se as atuais formas de vida dos povos ricos chegam efetivamente a universalizar-se? A resposta a essa pergunta é clara, sem ambiguidades: se tal acontecesse, a pressão sobre os recursos não renováveis e a poluição do meio ambiente seriam de tal ordem (ou alternativamente, o custo do controle da poluição seria tão elevado) que o sistema econômico mundial entraria necessariamente em colapso (Furtado,1974, p. 19).

Mas Celso furtado tinha razão ao dizer que caso houvesse a generalização do padrão de consumo dos países ricos, o grau de degradação climática e ambiental não garantiria a reprodução do modo de produção hegemônico, pois: “o sistema econômico mundial entraria necessariamente em colapso”.

De fato, todos os indicadores de degradação ambiental se agravaram após o início da década de 1970, quando vários autores alertaram para a insustentabilidade do crescimento econômico desregrado e a Conferência do Meio Ambiente de Estocolmo, em 1972, alertou para a necessidade de um redirecionamento do modelo de exploração ecológico.

Em relação ao aquecimento global, o vetor principal do aumento do efeito estufa é a emissão de CO2 decorrente da queima de combustíveis fósseis e de outras atividades antrópicas que liberam gases de efeito estufa (GEE). As emissões globais de CO2 estavam em 2 bilhões de toneladas em 1900, passaram para 15 bilhões de toneladas em 1970, pularam para 25 bilhões de toneladas no ano 2000 e atingiram 37 bilhões de toneladas em 2018. Nos 70 anos entre 1900 e 1970 o total das emissões de CO2 foi de 381 bilhões de toneladas, mas nos 48 anos entre 1971 e 2018 o total das emissões atingiu o montante de 1.198 bilhões de toneladas de CO2. Em menos tempo o mundo emitiu um montante de 3,2 vezes mais CO2, o que tem a ver com o crescimento da economia internacional e também o crescimento da classe média global.

A concentração de CO2 que permaneceu abaixo de 280 partes por milhão (ppm) durante todo o Holoceno, iniciou uma trajetória de aumento que tem se intensificado nas últimas décadas. A concentração de CO2 na atmosfera chegou a 294 ppm em 1900 e atingiu 326 ppm em 1970, um aumento de 32 ppm em 70 anos. Nas últimas 5 décadas a concentração de CO2 passou para depois 411 ppm em 2019, um aumento de 85 ppm em 49 anos. O mundo caminha para uma situação inusitada e dramática, pois o nível minimamente seguro para evitar um aquecimento global descontrolado é 350 ppm (nível que foi ultrapassado em 1987).

A perda de biodiversidade também se acelerou nas últimas 5 décadas. O Relatório Planeta Vivo (2018) divulgado pelo Fundo Mundial para a Natureza (WWF), mostra que o avanço da produção e consumo da humanidade tem provocado uma degradação generalizada dos ecossistemas globais e gerado uma aniquilação da vida selvagem: as populações de vertebrados silvestres, como mamíferos, pássaros, peixes, répteis e anfíbios, sofreram uma redução de 60% entre 1970 e 2014. Portanto, o mundo está diante da 6ª extinção em massa das espécies, que na verdade é o 1º evento de extermínio em massa provocado por uma espécie que se apropriou dos territórios terrestres de maneira egoísta e antiecológica.

A década de 1970 marcou uma guinada na sustentabilidade do Planeta. O gráfico abaixo, da Global Footprint Network, mostra que o mundo tinha superávit ambiental de 2,6 bilhões de hectares globais (gha) em 1961. Porém, com o crescimento demoeconômico, o superávit se transformou em déficit a partir dos anos de 1970 e, em 2016, a pegada ecológica total (de 20,6 bilhões de gha) superou a biocapacidade total (de 12,2 bilhões de gha). Portanto, o déficit ecológico foi de 8,4 bilhões de gha. A Terra está sobrecarregada em 70%.

pegada ecológica e biocapacidade, total, Mundo

Portanto, a humanidade ultrapassou a capacidade de carga da Terra exatamente quando o crescimento da população e da economia aumentou a demanda por serviços ecossistêmicos e elevou a poluição do ar, da terra e das águas. A população mundial era de 3,7 bilhões de pessoas em 1970, atingiu 4 bilhões em 1974 e deve atingir 8 bilhões em 2023. Nos últimos 50 anos não só a população dobrou de tamanho como o consumo per capita aumentou muito não só entre a população rica, mas principalmente entre a chamada “classe média”, mas também entre os pobres. Mesmo tendo um impacto menor do que os ricos e a “classe média” o consumo da população pobre também pesa sobre o meio ambiente, pois todas as pessoas precisam de moradia, roupa, alimentos e água, sendo que a produção mundial de bens de subsistência contribuiu para a crise climática e ambiental.

O relatório do IPCC de 2019 mostra, de forma inquestionável, que o crescimento da população mundial e o aumento do consumo per capita de alimentos (ração, fibra, madeira e energia) têm causado taxas sem precedentes de uso de terra e água doce, com a agricultura atualmente respondendo por cerca de 70% do uso global de água doce. Adicionalmente, o aumento da produção e consumo de alimentos contribuíram para o aumento das emissões líquidas de gases de efeito estufa (GEE), perda de ecossistemas naturais e diminuição da biodiversidade. O sistema alimentar responde por cerca de 30% de todas as emissões de gases de efeito estufa (GEE) e 80% do desmatamento global.

O relatório “Global Resources Outlook 2019, da UNEP (United Nations Environment Programme), divulgado ano passado, constata: “Desde a década de 1970, a população global dobrou e o Produto Interno Bruto global quadruplicou. Essas tendências exigiram grandes quantidades de recursos naturais para impulsionar o desenvolvimento econômico e as consequentes melhorias no bem-estar humano. No entanto, esses ganhos têm um custo tremendo para o meio ambiente, impactando, em última instância, no padrão de vida da população e exacerbando as desigualdades dentro e entre os países”. O relatório informa que, entre 1970 e 2017, a extração global de materiais cresceu de 27 bilhões de toneladas para 92 bilhões de toneladas, triplicando nesse período e continuando a crescer. Desde 2000, o crescimento das taxas de extração acelerou para 3,2% ao ano, impulsionado em grande parte por grandes investimentos em infraestrutura e padrões de vida materiais mais elevados países em desenvolvimento, especialmente na Ásia. Portanto, a extração per capita de recursos está aumentando e o sonho do desacoplamento entre crescimento econômico e uso de recursos naturais está cada vez mais distante.

Indubitavelmente, o aumento insustentável da produção e do consumo propiciado pela “máquina insana e insone de acumulação de capital e riqueza” é responsável pela atual crise climática e ambiental. Mas seria ingenuidade achar que são somente os ricos que provocam danos ao meio ambiente. A “classe média” mundial – que cresceu enormemente nos últimos 50 anos – tem assumido um peso cada vez maior na degradação ambiental, ao emular o consumo básico em geral e o consumo conspícuo dos ricos. Mesmo as parcelas pobres da população precisam de um nível mínimo de consumo que não é desprezível quando se considera o tamanho desta população (mais de 3 bilhões de habitantes). Não existe população sem consumo e nem consumo sem população, desta forma, não dá para separar o consumo global da população global. População e consumo são dois lados da mesma moeda que prejudica o meio ambiente. Como explicou Herman Daly, em entrevista recente (2018):

O impacto ambiental é o produto do número de pessoas vezes que o uso de recursos per capita. Em outras palavras, você tem dois números multiplicados um pelo outro – qual é o mais importante? Se você mantiver uma constante e deixar a outra variar, você ainda está multiplicando. Não faz sentido para mim dizer que apenas um número é importante. No entanto, ainda é muito comumente dito. Suponho que faria algum sentido se pudéssemos nos diferenciar histórica e geograficamente – para determinar em que ponto da história, ou em que país, qual fator merecia maior atenção. Nesse sentido, eu diria que, certamente, para os Estados Unidos, o consumo per capita é o fator crucial – mas ainda estamos multiplicando pela população, então não podemos esquecer a população”.

Assim, para evitar um colapso ambiental decorrente do superconsumo e da superpopulação, a única solução holística é o decrescimento demoeconômico. Neste momento em que a humanidade já ultrapassou a capacidade de carga da Terra, somente a redução do consumo global e da população global pode evitar um “Armageddon ecológico” e o “Holocausto biológico”.

Como disse Celso Furtado, a generalização do padrão de consumo dos ricos é inviável em um Planeta finito e com recursos naturais limitados. Nas últimas 5 décadas a “classe média” global expandiu significativamente o seu peso no mundo e isto contribuiu para a ultrapassagem dos limites da resiliência do Planeta. Sem dúvida, o padrão de consumo dos ricos é o principal fator de do definhamento ecológico e não dá para jogar toda a culpa da crise climática e ambiental na “classe média” e muito menos na população pobre.

Mas o também não dá para ignorar que o mundo teria déficit ecológico (Pegada ecológica maior do que a biocapacidade) mesmo se “eliminarmos” os ricos da contabilidade ambiental. Ou seja, não basta apenas lutar contra as desigualdades sociais, pois é preciso também reduzir o tamanho e o volume das atividades antrópicas que impactam negativamente a natureza.

José Eustáquio Diniz Alves
Colunista do EcoDebate.
Doutor em demografia, link do CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/2003298427606382

Referências:

ALVES, JED. Antropoceno: a Era do colapso ambiental, Ecodebate, 10/01/2020

https://www.ecodebate.com.br/2020/01/10/antropoceno-a-era-do-colapso-ambiental-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

ALVES, JED. A classe média é maioria no mundo pela primeira vez na história, Ecodebate, 26/10/2018 https://www.ecodebate.com.br/2018/10/26/a-classe-media-e-maioria-no-mundo-pela-primeira-vez-na-historia-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

ALVES, JED. Desenvolvimento econômico: mito ou realidade? Ecodebate, 20/03/2013

http://www.ecodebate.com.br/2013/03/20/desenvolvimento-economico-mito-ou-realidade-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

Claudia Canals. The emergence of the middle class: an emerging-country phenomenon, Caixa Bank Research, set 2019

https://www.caixabankresearch.com/sites/default/files/documents/im_1909_35-36_dossier_4_en_0.pdf

FURTADO, C. O mito do desenvolvimento econômico. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1974

HERMAN DALY. Ecologies of Scale, Interview by Benjamin Kunkel. New Left Review 109, Jan-Feb 2018 https://newleftreview.org/II/109/herman-daly-benjamin-kunkel-ecologies-of-scale

IPCC. Climate Change and Land. An IPCC Special Report on climate change, desertification, land

degradation, sustainable land management, food security, and greenhouse gas fluxes in terrestrial ecosystems, 08/08/2019

https://www.ipcc.ch/site/assets/uploads/2019/08/4.-SPM_Approved_Microsite_FINAL.pdf

Max Roser and Esteban Ortiz-Ospina (2020) – “Income Inequality”. Published online at OurWorldInData.org. Retrieved from: https://ourworldindata.org/income-inequality

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 25/03/2020

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