Sedimentos de fundo e contaminação de rios. Exemplo do Rio Pitimbu, RN, artigo de Carlos Augusto de Medeiros Filho

 

Sedimentos de fundo e contaminação de rios. Exemplo do Rio Pitimbu, RN, artigo de Carlos Augusto de Medeiros Filho

[EcoDebate]

Os sedimentos de fundo de rio ou sedimentos de corrente são meios amostrais aplicados na avaliação das condições ambientais de um rio e, consequentemente, de águas fluviais.

Os sedimentos de corrente têm sido sugeridos como um consistente meio de amostragem para rastrear fontes de metal, podendo ser um forte indicativo do comportamento geoquímico de águas fluviais (Owens et al., 2001). Assim, sedimentos de corrente têm sido cada vez mais empregados na avaliação da contaminação de sistemas fluviais também nas áreas urbanas e suburbanas (De Carlo e Anthony, 2002; Rentz et al., 2011; Sebakira et al., 2010; Sutherland, 2000).

A tendência dos metais pesados e outras substâncias (organoclorados, hidrocarbonetos) de adsorção ao sedimentos finos e óxidos de Fe e Mn, caracterizados em resultados de análises geoquímicas, faz dos sedimentos uma importante fonte de avaliação de impactos de origem industrial, mineração e urbanização no ambiente fluvial ( Murray, 1996; Sarmani et al., 1992; Oliveira et al., 2013).

Uma consistente metodologia aplicada em uma área é a seleção e coleta de amostras em locais preservados ou com muito baixa taxa de atividade humana. Os resultados geoquímicos desses sítios de forte preservação ambiental servem de parâmetro de comparação com amostras coletadas em locais com maior atuação antropogênica, desde que mantidas a maioria das características geológicas e geomorfológicas.

A ideia desse método é que as amostras sejam coletadas em áreas intactas, como as florestas naturais ou maduras que representam ecologicamente os ecossistemas mais estáveis moldados por vazões equilibradas e entrada de matéria e energia e que são as mais promissoras para estudos geoquímicos detalhados e nas determinações de background e baseline (Galuska, 2007; Oliveira et al., 2013; Medeiros Filho & Rocha, 2016).

Estudos da extensão dos impactos decorrentes do uso e ocupação do solo no sistema fluvial Pitimbu – RN a partir da análise da concentração de metais pesados no sedimento e na água foram reportados em Oliveira et al (2013) e Oliveira (2012). Para a análise da qualidade do sedimento e da água foram realizadas coletas de amostras em 08 pontos distribuídos desde próximo a nascente até o baixo curso do rio (Oliveira, 2012)

A Bacia Hidrográfica do Rio Pitimbu Incorpora três municípios da região metropolitana de Natal: Macaíba (47%), Parnamirim (43%) e Natal (10%). Está assentada sobre sedimentos arenosos, sobrepostos a uma cobertura sedimentar de origem cenozoica da Formação Barreiras.

concentrações em ppm de metais em sedimentos no Rio Pitmbu

Tabela 1 – concentrações em ppm de metais em sedimentos no Rio Pitmbu.

Oliveira (2012) definiu que os valores de referência em condições pré-antropogênicas na bacia do Rio Pitimbu corresponderiam aos observados na seção de amostragem situada em área de nascente (seção A8). A área situada a montante da seção 8 se encontrava razoavelmente preservada, apesar de alguma atividade antrópica, o que permite considerar que as concentrações observadas na água e sedimento sejam de origem natural ou geológica. As demais seções de amostragem no trabalho de Oliveira (2012) se posicionavam a jusante da A8 e em situações mais antropogenizadas.

A tabela 1 apresenta os resultados geoquímicos para Al, Pb, Fe e Zn nas seções amostradas por Oliveira (2012). É possível observar, na maioria dos casos, um enriquecimento de Pb, Fe e Zn no sedimento para jusante. Segundo Oliveira et al. (2013), os altos valores do Fe e Pb no sedimento nas seções A6 e A7 indicam entrada de metais por fonte antrópica. Altas concentrações de Fe foram observadas na água (1,08 e 0,91 mg/L) para as mesmas seções.

Oliveira et al. (2013) concluem que as altas concentrações de Pb, Zn e Fe observadas no sedimento para jusante da seção A8 reflete a severidade dos impactos no ecossistema fluvial e na água. Os autores sugerem que um novo arranjo institucional capaz de conjugar demandas ambientais com interesses econômicos pode ser uma possível solução e reportam que o controle do uso e ocupação do solo por meio de políticas efetivas de longo prazo ainda representa um desafio para toda a sociedade.

Carlos Augusto de Medeiros Filho, geoquímico, graduado na faculdade de geologia da UFRN e com mestrado na UFPA. Trabalha há mais de 35 anos em Geoquímica em Pesquisa Mineral e Ambiental.

Referências Bibliográficas

De Carlo EH, Anthony SS. 2002. Spatial and temporal variability of trace element concentrations in an urban subtropical watershed, Honolulu, Hawaii. Appl Geochem 2002;17: 475–92.

Galuska, A. 2007. A review of geochemical background concepts and an example using data from Poland. Environ Geol, 52:861–870.

Medeiros Filho, C.A. & Rocha, D. 2016. Limites do Background Natural para Latossolos de Vulcânicas Básicas do Grupo Grão Pará – Carajás. 14° Simpósio de Geologia da Amazônia.

Murray, K. S. 1996. Statistical comparisons of heavy-metal concentrations in river sediments. Environmental Geology, 27, 54.

Oliveira, A.S. 2012. Uso e ocupação do solo e concentração de metais pesados no sedimento e água: bacia do Rio Pitimbu. Dissertação de Mestrado. UFRN.

Oliveira, A.S.; Oliveira, K.H.N.; Lima, R.C.A.; Moreira, L.F.F. 2013 Metais pesados, urbanização e os desafios de gestão. Bacia do Rio Pitimbu, Natal-RN. XX Simpósio Brasileiro de Recursos Hídricos.

Owens PN, Walling DE, Carton J, Meharg AA,Wright J, Leeks GJL. 2001. Downstream changes in the transport and storage of sediment-associated contaminants (P, Cr and PCBs) in agricultural and industrialized drainage basins. Sci Total Environ;266(1–3): 177–86.

Rentz R,Widerlund A, ViklanderM, Öhlander B. 2011. Impact of urban stormwater on sediment quality in an enclosed bay of the Lule River, Northern Sweden. Water Air Soil Pollut; 218:651–66.

Sarmani, S., Abdullah, M. P., Baba, I. & Majid, A. A. (1992). The Source of Anthropogenic Heavy Metals in Fluvial Sediments of a Rural Catchment: Coxs River, Australia. Hydrobiologia, 235, 661.

Sebakira K, Origa HO, Basamba TA, Mutumba G, Kakudidi E. 2010. Assessment of heavy metal pollution in the urban stream sediments and its tributaries. Int J Environ Sci Technol; 7:435–46.

Sutherland RA. 2000. Bed sediment-associated trace metals in an urban stream, Oahu, Hawaii. Environ Geol.; 39:611–27.

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 19/03/2020

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