O ano de 2020 está a caminho de ser o mais quente do Antropoceno, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

 

 

O ano de 2020 está a caminho de ser o mais quente do Antropoceno, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

“Nossa casa ainda está pegando fogo e vocês estão jogando gasolina nas chamas!”
Greta Thunberg em discurso no WEF de Davos em 2020

 

[EcoDebate] Não há dúvida. O aquecimento global é para valer. E o ritmo de aumento anual da temperatura está ocorrendo de forma inédita e ultrapassando, de maneira preocupante, as previsões mais pessimistas. Desde a década de 1970, a temperatura do Planeta sobre de forma contínua e com taxas crescentes, sendo que a atual década (2010-20) é não só a mais quente do Antropoceno, como também é aquela que apresenta a maior variação decenal.

O gráfico abaixo da NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA) mostra que até cerca de 1940 as temperaturas anuais (em azul) estavam abaixo da média do século XX e depois de 1970 as temperaturas anuais (em vermelho) ficaram consistentemente maiores do que a média do século XX.

Em meados do século passado, as variações decenais oscilaram. Na década de 1930 houve uma variação positiva de 0,22º C, que foi seguida de uma variação negativa de -0,36º C, na década de 1940. Na década de 1950 houve uma variação positiva de 0,12º C que também foi seguida por uma variação negativa de -0,04º C na década de 1960.

Mas a partir dos anos 70, o aquecimento global iniciou uma subida espetacular. Na década de 1970 a variação decenal da temperatura foi de 0,23º C. Nas três décadas seguintes a variação decenal ficou em torno de 0,15º C. Mas na atual década (2010-19) o aumento decenal saltou para 0,38º C, um ritmo nunca visto no Holoceno (últimos 12 mil anos).

 

temperatura anual entre 1880 e 2019

 

O ano mais quente do século XX foi 1998 com uma anomalia de 0,65º C em relação à média do século XX. Este nível foi aproximadamente igualado em 2005 e superado apenas em 2010 e 2014. Os anos de 2011 e 2012 apresentaram temperaturas inferiores do que as de 1998 e isto gerou muito questionamento sobre o aquecimento global, inclusive com muitos cientistas falando em “hiato climático”.

Porém, a partir de 2014 os aumentos anuais da temperatura extrapolaram todas as tendências, marcando 0,99º C em 2016 e 0,95º C em 2019, em relação à média do século XX (mas que representa cerca de 1,2º C em relação ao período pré-industrial). Os 6 anos entre 2014 e 2019 foram os mais quentes da série histórica.

O ano de 2020 começou batendo todos os recordes para o mês de janeiro, mesmo quando comparados com o mesmo mês de janeiro de 2016, quando houve um forte fenômeno El Niño e se atingiu temperaturas extremamente altas. Janeiro de 2020 é o primeiro mês mais quente da série histórica. O mês de fevereiro, com 1,17º C, foi o segundo mais quente da série, ficando ligeiramente abaixo de fevereiro de 2016 que tinha apresentado 1,26º C.

 

os sete anos mais quentes do antropoceno

 

Os dados acima mostram que o aquecimento global entrou em outro patamar. Isto é confirmado pela média dos dois primeiros meses (janeiro + fevereiro) na série histórica. O gráfico abaixo mostra a média do primeiro bimestre de 2016 foi de 1,19º C. e a média do primeiro bimestre de 2020 ficou em 1,16º C, ambos os números muito acima das demais médias. A tendência bimestral da atual década apresentou um crescimento de 0,70º no aquecimento. Um número impressionante e que indica que o limite de 1,5º C colocado pelo Acordo de Paris deve ser atingido antes de 2030 e o limite de 2º C deve ser atingido antes de 2040.

 

temperatura para os dois primeiros meses do ano - 1880-2020

 

Estas preocupantes tendências do aumento da temperatura global aumentam a urgência de reduzir as emissões de CO2 e de abandonar o uso generalizado de combustíveis fósseis. Até a elite econômica reunida no WEF de Davos, na Suíça, reconheceu a gravidade da situação ecológica. Uma das estrelas dos dois últimos eventos em Davos foi Greta Thunberg tem falado sobre a necessidade de descarbonizar a economia e, em janeiro de 2020 disse: “Nossa casa ainda está pegando fogo e vocês estão jogando gasolina nas chamas!”.

O ano de 2020 começou com um evento inesperado que é a pandemia de coronavírus, que já infectou mais de 160 mil pessoas e matou mais de 6 mil infectados. A pandemia de Covid-19 também está tendo um efeito muito dramático na economia, fazendo com que as atividades econômicas sejam suspensas em todo o mundo. O quadro na saúde pública e na saúde da economia é inédito e tende a se agravar durante o primeiro semestre de 2020.

Um impacto da pandemia na redução das atividades antrópicas é tão forte que reduziu significativamente as emissões de CO2 e até contribuiu para a redução da poluição do ar nas grandes cidades do mundo. A economia internacional tende a entrar em recessão no primeiro semestre de 2020. Para o meio ambiente este quadro vai trazer um certo alívio.

Porém, para quem defende uma redução planejada da pegada ecológica global esta crise não é a solução. Existe uma expressão que retrata as contradições do momento: “Tua recessão não é o meu decrescimento”.

Os teóricos do decrescimento econômico e do decrescimento demoeconômico consideram que deve haver uma redução das atividades antrópicas no longo prazo de maneira planejada. O tem que começar imediatamente pela redução das atividades mais poluidoras, assim é fundamental decrescer a produção e a queima de combustíveis fósseis (mas é fundamental crescer as energias renováveis e de baixo carbono), é preciso decrescer o consumo de carne (e crescer a produção de alimentos orgânicos), é preciso diminuir a circulação de carros particulares com motor à combustão e avançar no transporte coletivo e nos veículos elétricos, é preciso decrescer os gastos militares e de guerra (e crescer os investimentos na restauração ambiental, recuperando solos, plantando árvores, limpando a poluição, etc.), decrescer o consumo conspícuo e aumentar o consumo cidadão (mais educação, mais democracia, mais solidariedade comunitária, etc.) e assim por diante.

O aquecimento global deve ser combatido por meio da mudança do modelo insustentável de produção e consumo e não apenas ser um efeito colateral de uma crise econômica e financeira que vai impactar de maneira mais forte as populações mais pobres do mundo.

Assim como existe uma emergência de saúde pública (por conta do coronavírus), existe também uma emergência climática por conta do aumento da temperatura global.

O mundo precisa acordar para os desafios sociais e ambientais do século XXI.

José Eustáquio Diniz Alves
Colunista do EcoDebate.
Doutor em demografia, link do CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/2003298427606382

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 16/03/2020

[cite]

 

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