Onda de calor extremo mata 4,5 mil raposas-voadoras na Austrália, por Marina Bhering

 

Raposa gigante voadora - Foto: Wikipedia

 

A Austrália vive o verão mais quente e seco de sua história. Desde setembro do ano passado, os incêndios florestais destruíram cerca de 10 milhões de hectares. Cientistas apontam que mais de 1 bilhão de animais foram mortos ou feridos pelas chamas. Entre as vítimas estão espécies endêmicas – ou seja, que só ocorrem naquele local, como coalas, cangurus e alguns marsupiais. Segundo dados da organização internacional World Wildlife Fund (WWF), um terço da população de coalas foi dizimada pelos incêndios apenas em Nova Gales do Sul. Tão letal quanto o fogo, as ondas de calor provocaram efeitos avassaladores para a raposa-voadora-de-cabeça-cinza.

Entre 1994 e 2007, um estudo constatou que aproximadamente 30 mil raposas-voadoras morreram devido ao calor extremo na Austrália. A morte de alguns animais no verão é considerada normal, mas desta vez o impacto foi devastador. O mês de dezembro do ano passado registrou uma sequência de dias quentes que culminou com um fenômeno mortal de três dias, com pico de cerca de 43°C em 20 de dezembro. Foi quando o Parque Yarra Bend, próximo ao centro de Melbourne, registrou o ecocídio de 4,5 mil raposas-voadoras. O caso foi divulgado pela National Geographic.

A elevada taxa de mortalidade tem relação direta com filhotes. O calor veio com toda força logo após o nascimento de centenas de animais. Os morcegos jovens ainda estavam em fase de amamentação, o que os deixou ainda mais vulneráveis às altas temperaturas, bem como suas mães.

Um dia de calor é extremamente complicado para a raposa-voadora. Ao amanhecer, elas retornam às árvores depois de seu banquete noturno. Às 8h, os ninhos se aquecem. Elas batem as asas para se refrescar, mas logo se cansam. Debaixo do sol do meio dia, os animais já estão exaustos e começam a ficar ofegantes, acelerando a desidratação. Nessas condições, voar até um rio para se refrescar não é uma opção, por falta de energia.

As mães então carregam seus filhotes para um galho isolado e se afastam em busca de um local fresco. Ao encontrar um porto seguro, instintivamente outros morcegos seguem o mesmo caminho. É quando a situação fica incontrolável. Os que chegaram primeiro já não têm ar fresco e são “esmagados” pelos outros, criando uma confusão generalizada. Neste momento, equipes do parque disparam jatos de água para refrescar os animais e tentar desfazer os aglomerados. Mas no ano passado, o calor não deu trégua.

Embora não sejam tão carismáticas quanto os coalas, as raposas-voadoras-de-cabeça-cinza exercem um papel fundamental no ecossistema. Elas transportam sementes e polinizam árvores, desempenhando uma função vital para o nascimento de novas árvores que, por sua vez, proverão abrigo e alimento para outras dezenas de espécies. É extremamente importante compreender que cada animal e planta desempenham um papel no ciclo da natureza, que está diretamente ligado à nossa existência. Prova disso são os efeitos diretos e indiretos dos incêndios da Austrália em outros países.

Queimadas dessas proporções lançam na atmosfera quantidades massivas de gases de efeito estufa, que aumentam a temperatura média da Terra e aceleram os efeitos das mudanças climáticas. Segundo reportagem da revista Galileu, a neve das geleiras da Nova Zelândia ficou marrom graças às cinzas trazidas pelo vento do país vizinho. Isso acelera o derretimento do gelo, pois impede que os raios solares sejam refletidos e, como resultado, a neve absorve mais luz e calor. Na América do Sul, a fumaça chegou no Chile, Argentina e, aqui no Brasil, no Rio Grande do Sul.

Tudo está interligado. É urgente que todos os cidadãos entendam essa conexão e lutem para que ela seja saudável, pelo bem de todos nós.

Marina Bhering é jornalista. Especialista em comunicação e marketing digital e ativista ambiental.

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 14/02/2020

[cite]

 

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