Ricos ou pobres: quem mais destrói o meio ambiente? artigo de José Eustáquio Diniz Alves

 

“Estamos em um carro gigante, acelerando na direção de uma parede de tijolos
e todo mundo fica discutindo sobre onde cada um vai sentar”
David Suzuki

 

[EcoDebate] O ministro Paulo Guedes disse na reunião do WEF de Davos, no dia 21/01/2020, que os pobres são os principais responsáveis pela destruição do meio ambiente. Evidentemente, é uma afirmação incorreta e os críticos disseram o contrário, reforçando o maniqueísmo entre “culpabilização” e “vitimização”. Todavia, há erros em ambos os lados.

Vamos considerar a questão das emissões de CO2 que são a causa principal do aquecimento global que é o grande problema existencial do mundo e que pode provocar um Armagedom ecológico nas próximas décadas.

No início do século XIX quase 100% das emissões pela queima de carvão mineral vinham do Reino Unido, depois começaram as emissões dos outros países europeus e dos EUA.  Até aproximadamente 1950 o predomínio da Europa e dos EUA nas emissões globais era indiscutível. Mas já nas últimas décadas do século XX os países em desenvolvimento passaram a ter um peso cada vez maior nas emissões de CO2 (ver gráfico abaixo sobre emissões acumuladas ao longo da história)

 

Emissões globais de CO2 por região

 

Sobre as emissões correntes, a situação já se inverteu. Considerando os 36 países da OCDE como uma proxy dos países ricos se nota que eles respondiam por 2/3 das emissões em meados do século passado e diminuíram para cerca de 1/3 atualmente. No outro lado, os países em desenvolvimento (liderados pelos dois gigantes China e Índia) saíram de cerca de 1/3 para cerca de 2/3 das emissões atualmente (veja como se inverteu as emissões entre países ricos e pobres no gráfico abaixo)

 

emissões de CO2 na OCDE e no resto do mundo

 

Existe um estudo da OXFAM de 2015 (mas com dados de 2008) que diz que os 10% mais ricos do Planeta respondem pela metade das emissões e os 50% mais pobres por apenas 10% das emissões. Se estes dados eram verdadeiros no passado não são mais. Houve uma mudança significativa nas últimas décadas que não pode ser desconsiderada.

O gráfico abaixo, do site Our World in Data, com dados de 2016, mostra como se distribui as emissões globais por nível de renda. Os países ricos, com 1,2 bilhão de pessoas, representando 16% da população total, foram responsáveis por 38% das emissões globais de CO2, emitindo 13,4 bilhões de toneladas no ano (com 11,3 toneladas per capita). Os países de renda média alta, com 2,6 bilhões de pessoas, representando 35% da população total, foram responsáveis por 48% das emissões globais de CO2, emitindo 16,6 bilhões de toneladas de CO2 (com 6,4 toneladas per capita). Estes dois grupos de renda, com 3,8 bilhões de pessoas (51% do total populacional) emitiram 30 bilhões de toneladas de CO2, acumulando 86% das emissões.

 

emissões globais de CO2 por nível de renda

 

Já os 3 bilhões de pessoas de renda média baixa ou pobres (representando 49% da população total) emitiram 4,7 bilhões de toneladas de CO2 (representando 13% das emissões globais) e tendo uma emissão de 1,6 tonelada per capita. Os países de renda média e baixa são os que apresentam as maiores taxas de emissões no século XXI. Portanto, não resta dúvida de que os ricos emitem mais do que os pobres, mas não na proporção do referido estudo da OXFAM.

Tudo isto realça o fato de os países ricos terem emitido muito mais do que os países pobres ao longo da história, sendo os principais responsáveis pela situação atual. Porém, os países de renda média e baixa começaram a emitir muito CO2 nas últimas décadas e o conjunto dos países em desenvolvimento, hoje em dia, emite mais do que os países desenvolvidos.

Em termos de políticas públicas o correto é sair da filosofia do Protocolo de Kyoto e  entrar na filosofia do Acordo de Paris, onde todos os países (ricos e pobres) devem dar as suas contribuições. O corte das emissões deve ocorrer em todas as nações do mundo.

Como disse Greta Thunberg, ontem (21/01/2020), no Fórum de Davos: “Os países ricos necessitam zerar as emissões o mais rápido possível e ajudar os países pobres a fazer o mesmo”. Se a luta para acabar com a pobreza do mundo for justificativa para a ampliação do modelo fóssil de desenvolvimento estaremos todos perdidos.

O mundo precisa reduzir as desigualdades sociais entre os países e internamente dentro das nações. As regiões ricas precisam reduzir o consumo e decrescer a população. Por sua vez, os países pobres, com altas taxas de fecundidade, precisam reduzir até estabilizar o ritmo de crescimento demográfico e abraçar a economia de zero emissão de carbono. Ninguém pode ficar isento das responsabilidades, pois o Planeta não aquenta tantas agreções.

A exploração das riquezas da Terra chegou a 100,6 bilhões de toneladas de materiais, sendo metade do total constituída por areia, argila, cascalho e cimento usados na construção, com outros minerais extraídos para produzir fertilizantes. Cerca de 25% são culturas agrícolas e árvores usadas como alimento e combustível. São 13 toneladas de materiais para cada habitante do globo. E este número continua crescendo, assim como o descarte e a poluição. Segundo o Banco Mundial, o volume global de descarte de lixo e de resíduos sólidos deve aumentar em cerca de 70% até 2050.

Como disse David Barkin, professor de Economia Ecológica e Solidária, existe mesmo uma ameaça à existência da humanidade, que vai afetar pobres, ricos e outras espécies: “A minha previsão em relação à situação atual do mundo é que neste momento estamos seguindo rumo da autodestruição”.

Ou seja, estamos numa EMERGÊNCIA CLIMÁTICA E AMBIENTAL e o corte das emissões tem que ser de todos (ricos, classe média e pobres). A concentração de CO2 na atmosfera ultrapassou 411 partes por milhão (ppm) em 2019 e necessita cair para 350 ppm. Precisamos mudar o modelo hegemônico global de produção e consumo e ZERAR AS EMISSÕES GLOBAIS. Já!

José Eustáquio Diniz Alves
Colunista do EcoDebate.
Doutor em demografia, link do CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/2003298427606382

 

Referências:

ALVES, JED. Antropoceno: a Era do colapso ambiental, Ecodebate, 10/01/2020
https://www.ecodebate.com.br/2020/01/10/antropoceno-a-era-do-colapso-ambiental-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

David Barkin. Mundo está tomando rumo da ‘autodestruição’, Sputnik, 25/01/2020
https://br.sputniknews.com/sociedade/2020012515051372-mundo-esta-tomando-rumo-da-autodestruicao-adverte-economista/

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 31/01/2020

Ricos ou pobres: quem mais destrói o meio ambiente? artigo de José Eustáquio Diniz Alves, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 31/01/2020, https://www.ecodebate.com.br/2020/01/31/ricos-ou-pobres-quem-mais-destroi-o-meio-ambiente-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/.

 

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Um comentário em “Ricos ou pobres: quem mais destrói o meio ambiente? artigo de José Eustáquio Diniz Alves

  1. Lamentavelmente o homem não está a dar atenção, aos inúmeros alertas que o planeta Terra está a dizer e acentuar dia a dia!!!!

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