Não podemos continuar pensando na natureza como uma fonte infinita de recursos

 

“Não podemos continuar pensando na natureza como uma fonte infinita de recursos”. Entrevista com Inger Andersen

IHU

A economista dinamarquesa Inger Andersen assumiu a direção do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), em junho do ano passado, após a renúncia por um escândalo de seu antecessor, o ex-ministro norueguês do meio ambiente, Erik Solheim. Uma auditoria interna revelou que ele havia viajado em 529 dos 668 dias auditados, nos quais gastou quase 490.000 dólares, em descompasso com as regras internas da organização.

No último dia 18 de outubro, Andersen participou da cúpula anual do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional. Por questões de agenda, a entrevista não pôde ser realizada pessoalmente na capital estadunidense, mas Andersen concordou em receber um questionário e respondê-lo por escrito. “Não poderemos enfrentar um aumento das temperaturas acima desse 1,5 grau”, alerta.

A entrevista é de Manuel Ruiz Rico, publicada por Público, 29-10-2019. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Em junho passado, você assumiu oficialmente o cargo de diretora executiva do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. Substituiu Erik Solheim, que teve que renunciar em 20 de novembro de 2018. Em que situação encontrou o Programa em sua chegada?

Assumi o cargo e encontrei uma organização com uma equipe comprometida com um futuro sustentável, junto a alguns sócios colaboradores, alguns Estados-membro e doadores dispostos a colaborar para o futuro do planeta. Vivemos um tempo sem precedentes na história. Ao mesmo tempo em que a tríplice crise de degradação da terra, mudança climática e perda de biodiversidade se mostra esmagadora e quase insuperável, também vivemos uma época em que a agenda ambiental está mais presente publicamente do que nunca. Junto a isto, os jovens estão fazendo com que minha geração preste contas sobre esses assuntos.

Quais são os desafios de curto prazo para o PNUMA e seus principais objetivos como diretora do Programa?

Das salas de reunião dos acionistas às urnas, o meio ambiente e o futuro da humanidade está sendo votado todos os dias, em todas as partes do mundo. Dessa forma, os desafios centrais do PNUMA se concentram em como apoiar essa maior conscientização dos problemas ambientais e em como garantir que essa maior conscientização esteja informada e baseada na ciência, para que conduza a decisões políticas acertadas. Finalmente, em como essa maior conscientização pode levar a mudanças significativas em direção a um futuro mais sustentável.

O atual sistema econômico globalizado, baseado no crescimento e consumo infinitos, bem como na mercantilização sempre maior da natureza, é compatível com o futuro do planeta? Ou, dito de outra forma, precisamos de outro modo de crescimento e de medir o progresso econômico?

O relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) soou todos os alarmes quanto aos impactos do aquecimento global acima de 1,5 grau em relação aos níveis pré-industriais. Não poderemos enfrentar um aumento das temperaturas acima desse 1,5 grau. E para alcançar essa transformação, precisamos descarbonizar nossas economias, apostar na economia circular e valorizar a natureza.

Não podemos continuar pensando na natureza como uma fonte infinita de recursos. Ao contrário, é preciso se dirigir a modelos que valorizem os recursos naturais, incluindo nossos ecossistemas, nossa atmosfera, nossas bacias hidrográficas, etc. A Plataforma Intergovernamental Político-Científica sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos nos diz que o valor econômico da natureza terrestre para as pessoas nas Américas é de 24,3 trilhões de dólares, o que equivale ao PIB de toda a região.

No entanto, dois terços desses ecossistemas estão em declínio. Em nossa tendência ao crescimento e desenvolvimento, não valorizamos adequadamente o papel que a natureza desempenha em regular a água, fertilizar nossos campos, polinizar nossas colheitas e reabastecer nossos aquíferos. Ao contrário, degradamos nosso recurso mais precioso: os sistemas naturais que nos dão o ar que respiramos, os alimentos que ingerimos e a água que bebemos.

Qual é, portanto, a consequência direta dessa degradação?

A severidade crescente das inundações, das tempestades com uma intensidade cada vez maior, ondas de calor mais extremas e secas mais frequentes e incêndios florestais mais ferozes. Em certo sentido, estamos tributando os bens, nossa produção, e externalizando o mau (Andersen faz, aqui, um trocadilho em inglês intraduzível entre goods, que significa tanto bens como bons, e bads, literalmente, maus), a degradação dos recursos, a poluição, etc., deixando que as sociedades em geral o abordem. Sendo assim, para reverter isso, precisamos entender o valor do nosso capital natural.

Em resumo, é necessário reconhecer os limites planetários e avançar em direção ao consumo e produção sustentáveis. Essas mudanças têm o potencial de nos afastar da sobrepesca, do uso insustentável da terra e de uma economia caracterizada pelos resíduos, para nos levar a soluções baseadas no mercado, mas que contribuam para a sustentabilidade e a conservação.

Os Estados Unidos de Trump anunciaram, em 2017, que deixariam o Acordo do Clima de Paris, que pode ser uma realidade em novembro do próximo ano. Mesmo assim, há razões para ser otimistas? Você é otimista?

Sou otimista porque quando se trabalha dedicado à natureza, quando se vê o enorme potencial da natureza e se enxerga a intrincada rede de vida na Terra, percebe-se que a natureza se recuperará, se a dermos a oportunidade. Recentemente (em setembro), estive em Nova York para participar da Cúpula da Ação Climática e da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas. Os dois eventos deixaram claro que o mandato ambiental é o mandato mais importante neste momento da história. Na Assembleia Geral, 179 chefes de delegação mencionaram a mudança climática em suas declarações no debate geral. E o bom é que o setor privado, os governos locais, os jovens, a sociedade civil, os grupos indígenas, todos, estão pressionando pela ação climática. Vimos isso claramente em Nova York e estamos vendo nos Estados Unidos e em todo o mundo.

A luta contra a crise climática e a preservação da natureza também poderá ser uma oportunidade para reduzir as desigualdades e a pobreza e ampliar o progresso no mundo todo ou serão criadas novas desigualdades?

Tomemos um desafio ambiental como a degradação da terra. Segundo o IPCC, a degradação da terra atingirá até 3,2 bilhões de pessoas em todo o mundo, muitas delas pessoas mais pobres e vulneráveis. Portanto, se conseguirmos que essa terra prospere, o resultado será também a redução da desigualdade e da pobreza.

A gestão racional da terra é fundamental para os objetivos de desenvolvimento sustentável, a prosperidade e a inclusão. Ao abordar a degradação da terra e restaurar a mesma, veremos como se conseguirá mitigar a pobreza, os efeitos da mudança climática e um retorno da biodiversidade e o bem-estar geral. Nesse contexto, é importante reconhecer o papel fundamental que as comunidades indígenas e locais desempenham na preservação e proteção de nossas terras e de nossa natureza. Por exemplo, de acordo com a IPBES (Plataforma Intergovernamental Político-Científica sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos), a degradação da terra é mais lenta em áreas administradas ou pertencentes a comunidades indígenas.

Para restaurar os ecossistemas e as terras degradadas, precisamos adotar um horizonte de longo prazo que vá além dos ciclos políticos e eleitorais. A boa notícia é que, quando fazemos isso, os benefícios são imediatos. Adotar soluções baseadas na natureza para ação climática, por exemplo, pode reduzir até 12 gigatoneladas de CO2 (uma gigatonela equivale a um bilhão de toneladas métricas), aproximadamente igual ao que todas as usinas de carvão do mundo emitem. Restaurar 350 milhões de hectares de paisagens degradadas até 2030, por exemplo, pode gerar 9 bilhões de dólares em serviços ecossistêmicos.

Para além de nomes específicos, como avalia o movimento de jovens pelo clima em geral?

Os jovens continuam sendo um espelho para o mundo e nos lembram o que deve ser feito para reverter a crise climática global. Como disse o secretário-geral da ONUAntónio Guterres, em inícios deste ano, sobre as fortes mensagens que jovens de todo o mundo estão enviando: “Essas crianças em idade escolar captaram algo que parece escapar de muitos dos mais velhos: estamos em uma corrida pelas nossas vidas, e estamos perdendo”. Essa onda de conscientização sobre questões ambientais é um fato positivo e na Organização das Nações Unidas estamos aproveitando os aspectos positivos desse movimento.

De que maneira?

A partir do multilateralismo, que deve desempenhar seu papel se adaptando às novas realidades mundiais. Nesse sentido, é a ONU que une o mundo em estruturas globais para a ação, como os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e o Acordo do Clima de Paris. É através de tais mecanismos que o mundo oferecerá o melhor futuro pelo qual todos nós estamos nos esforçando.

 

(EcoDebate, 31/10/2019) publicado pela IHU On-line, parceira editorial da revista eletrônica EcoDebate na socialização da informação.

[IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos Unisinos, em São Leopoldo, RS.]

 

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