Desordem na governança global e o caos nas mudanças climáticas, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

 

[EcoDebate] A humanidade tem degradado a biocapacidade da Terra e alterado as condições climáticas do Planeta gerando uma situação, cada vez mais grave, de caos ambiental, sendo que a desordem na governança global agrava a crise ecológica e dificulta a implementação de soluções para retirar o mundo da rota do precipício.

O artigo “Disarray in Global Governance and Climate Change Chaos”, de Martine e Alves, publicado na Revista Brasileira de Estudos de População (REBEP), em agosto de 2019, analisa a trajetória da mudança climática e as limitações dos esforços em andamento para lidar com ela, discute os riscos ambientais decorrentes das fragilidades da globalização e da desgovernança global e, finalmente, considera os caminhos e os descaminhos para a resolução do trilema atual para lidar com os problemas econômicos, sociais e ambientais.

O crescimento das atividades antrópicas (para satisfazer as necessidades de alimentação, educação, saúde, moradia, etc.), aumenta a emissão de gases de efeito estufa (GEE) e aceleram o aquecimento global. A utopia do desenvolvimento sustentável – socialmente justo, economicamente inclusivo e ambientalmente responsável – tem se tornado uma distopia. O enriquecimento humano tem ocorrido às custas do empobrecimento da natureza. Existe uma relação inversa entre o crescimento da produção econômica mundial e o déficit ecológico global, conforme mostra o gráfico abaixo (Martine e Alves, 2019):

 

global gnp and global ecological deficit

 

A década de 1990 pressagiou uma possível fase brilhante na governança global, com a queda do Muro de Berlim servindo de pano de fundo para o surgimento de uma nova ordem global. As Nações Unidas lideraram uma busca por consenso internacional por meio de uma série de Conferências sobre questões vitais que vão desde população e direitos humanos até a sustentabilidade ambiental. Enquanto isso, os princípios liberais, inspirados pelo Consenso de Washington, prometiam elevado crescimento econômico e importantes benefícios sociais para a população mundial. Um quarto de século depois, as perspectivas de prosperidade, democracia e harmonia global diminuíram drasticamente.

De fato, a crise ecológica tem se agravado, enquanto as soluções propostas pela governança global tem fracassado ou tem sido insuficientes para reverter o caos ambiental. A ONU continua a representar a personificação do multilateralismo, mas sua legitimidade tem sido enfraquecida diante do crescimento do nacionalismo e dos interesses corporativos.

A Agenda 2030 da ONU – Acordo de Paris e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável – embora sejam iniciativas meritórias, são insuficientes e ineficazes para resolver os problemas estruturais gerados pelo paradigma hegemônico do desenvolvimento e do crescimento econômico ilimitado, degradador das bases ecológicas do Planeta.

É urgente ir além das iniciativas atuais e realizar discussões sérias sobre as causas estruturais da crise ecológica gerada por nossa civilização e pelo modo de produção e consumo das sociedades em geral, em especial aquelas viciadas no “consumicídio”.

O artigo “Desordem na governança global e o caos nas mudanças climáticas” (em inglês) pode ser acessado no link abaixo:
MARTINE, G. ALVES, JED. “Disarray in Global Governance and Climate Change Chaos”, R. bras. Est. Pop., v.36, 1-30, e0075, 2019 https://www.rebep.org.br/revista/article/view/1317/1001

 

José Eustáquio Diniz Alves
Colunista do EcoDebate.
Doutor em demografia, link do CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/2003298427606382

 

Resumo https://www.rebep.org.br/revista/article/view/1317
Os cientistas alertam para o fato de que a atividade humana no Antropoceno está provocando a transgressão de vários limites planetários. A equação população, meio ambiente e desenvolvimento ficou insolúvel. Este artigo revisa a trajetória das mudanças climáticas, discute as limitações dos esforços atuais para lidar com elas e analisa a atual crise na governança global, além de refletir sobre os riscos que esse imbróglio político apresenta para o nosso futuro ambiental. As respostas globais são ineficazes devido à deterioração do multilaterismo e à promoção generalizada do crescimento econômico insustentável baseado no consumismo. O descontentamento com as consequências da globalização desestabilizou a governança nacional e, no processo, corroeu ainda mais as perspectivas de uma governança global eficaz para enfrentar crises sociais, políticas e ambientais simbióticas. A frustração com a globalização está proporcionando aos populistas uma plataforma para atrair eleitores com esquemas ingênuos que incluem o negacionismo. Ao mesmo tempo, uma nova divisão do poder econômico, político e científico está surgindo com a Belt and Road Initiative da China. Discutem-se caminhos potenciais e obstáculos para o multilaterismo na tentativa de resolver esse dilema. A fé cega na tecnologia, o negacionismo e a difusão da cultura de consumo dificultam os esforços multilaterais contra as ameaças ambientais. Infelizmente, parece que eleitores, instituições e políticas só se ajustarão depois que a intensificação dos desastres climáticos forçar uma mudança radical de mentalidade.

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 30/08/2019

Desordem na governança global e o caos nas mudanças climáticas, artigo de José Eustáquio Diniz Alves, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 30/08/2019, https://www.ecodebate.com.br/2019/08/30/desordem-na-governanca-global-e-o-caos-nas-mudancas-climaticas-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/.

 

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2 comentários em “Desordem na governança global e o caos nas mudanças climáticas, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

  1. O CINISMO DEVE TER ALGUM LIMITE.

    Será que mesmo depois que todas as condições de vida que existiram na Terra forem totalmente destruídas ainda haverá alguém que diga que houve um equívoco, que a interrupção da tentativa de implantação do Socialismo desenvolvida no século XX tinha o objetivo precípuo de implantar a paz e a igualdade entre os povos, a recuperação dos ecossistemas e das relações sociais, culminando no equilíbrio socioambiental e nas melhores condições de vida para todas as espécies animais e vegetais, até então existentes, mas não obteve êxito no empreendimento?
    É evidente que as características das políticas empreendidas pelo capitalismo e os objetivos norteadores dessas políticas não são do conhecimento de vasta parcela senso comum da população, mas, certamente, são familiares a pensadores mais argutos.
    Mesmo para aqueles que são irrecuperavelmente cínicos, o cinismo deve ter algum limite.

  2. Não se trata de desgovernança; trata-se da atividade regular de um regime de destruição: o capitalismo.

Comentários encerrados.

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