Percepção do risco de carrapaticidas, artigo de Roberto Naime

 

carrapato
Carrapato-estrela. Foto: Adelcio Barbosa/Prefeitura de Contagem

 

[EcoDebate] SILVA et al (2012) caracterizam os riscos relacionados ao uso de agrotóxicos na pecuária leiteira, em relação a questões de legislação, de saúde e da percepção dos riscos desta atividade.

Estudos apontam uma situação de especial interesse para o campo da Saúde Coletiva. No que diz respeito aos trabalhadores da pecuária leiteira, a invisibilidade de riscos associados ao manejo de agrotóxicos de uso veterinário aumenta sua exposição e está relacionada a diversos problemas de saúde, em especial nas mulheres.

Esta mesma invisibilidade leva a um neglicenciamento do respeito ao período de carência do leite para consumo. Parte dos problemas pode estar associada à não classificação dos inseticidas de uso veterinários como agrotóxicos, o que torna necessária e urgente a discussão do tema.

A pecuária é uma das mais importantes e tradicionais atividades econômicas em nosso país, destacando-se em estados como Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Mato Grosso, Goiás e São Paulo, onde apresenta um papel relevante na composição do Produto Interno Bruto (PIB).

Segundo dados do Censo Agropecuário de 2006, dos 5.175.489 estabelecimentos agropecuários existentes no país, 2.277.214 (aproximadamente 44%) são destinados à pecuária, particularmente para a criação de bovinos, que concentra 1.572.301 estabelecimentos.

O crescimento da demanda por leite e derivados e o consequente aumento da produção de gado leiteiro têm levado à intensificação dos processos de produção, fato este observado pelo decréscimo do número de vacas ordenhadas no período (de 13,7 milhões de cabeças em 1996 para 12,6 milhões em 2006) e pelo maior consumo de produtos de uso veterinário.

Atualmente, existem 7.222 produtos de uso veterinário, autorizados para comercialização no país, com destaque para os antibióticos e os produtos de combate aos ectoparasitas, em particular, os carrapaticidas. Esses produtos são regulados exclusivamente pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA).

Com relação aos carrapaticidas e a outros produtos de controle de ectoparasitas, uma importante questão se coloca como tema de grande relevância para a Saúde Coletiva no país. Estes produtos são formulados à base de princípios ativos considerados agrotóxicos ou pesticidas, tal qual registrado no conceito de produtos de uso veterinário descrito pela legislação, agentes químicos reconhecidamente prejudiciais para a saúde humana e para o ambiente.

No Brasil, a legislação pertinente (Lei 7.802 de 11 de Julho de 1989) prevê que o registro de agrotóxicos deve se dar mediante aprovação por comitê que inclui os Ministérios da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (que avalia a eficiência agronômica dos produtos), da Saúde (que avalia o potencial tóxico dos produtos à saúde humana) e do Meio Ambiente (que avalia o potencial tóxico dos produtos para o ambiente e a biota).

Isto leva a uma análise mais abrangente dos riscos relacionados ao uso desses agentes químicos nas diversas atividades a que se destinam.

Já os agrotóxicos de uso veterinário são analisados exclusivamente pelo MAPA. Assim, produtos formulados com o mesmo princípio ativo, numa mesma concentração, podem ter avaliações distintas, para fins de registro, dependendo de sua utilização na agricultura ou na pecuária.

Como visto anteriormente, a dificuldade de compreender o processo de metabolização dos agrotóxicos pelo gado leiteiro, associada à crença de que os agrotóxicos de uso veterinário são menos tóxicos do que os de uso agrícola, ou mesmo não tóxicos, é amplificada pela carência de informações e de orientação técnica, leva os produtores de leite a minimizarem os riscos associados à contaminação do leite por estes agentes químicos.

Esta complexa relação acaba por comprometer a qualidade desse leite, colocando em risco a população consumidora desses produtos, uma vez que o período de carência acaba não sendo respeitado:

Mesmo aqueles trabalhadores que acreditam ter algum problema tirar o leite imediatamente após a utilização de agrotóxicos de uso veterinário, deixando uma vaca sem tratamento apenas para alimentar a família:

SILVA et al (2012) destacam que não apenas a percepção de risco tem influência nessa decisão, mas também outros determinantes, de ordem econômica, que praticamente tornam impossível o respeito, por parte desses produtores, ao período de carência.

A análise dos dados aqui apresentados e discutidos mostrou uma situação de especial interesse para o campo da Saúde Coletiva, relacionada à utilização de agrotóxicos de uso veterinário nos processos de produção de leite. Uma série de determinantes inter-relacionados acaba por conformar tal situação, colocando diferentes grupos populacionais em situação de vulnerabilidade.

No que diz respeito aos trabalhadores da pecuária leiteira, a invisibilidade de riscos associados ao manejo de agrotóxicos de uso veterinário aumenta sua exposição a esses agentes químicos, e pode acarretar em graves problemas de saúde, muitos dos quais com sintomas tardios e consequências sérias.

Esta mesma invisibilidade de riscos acaba por levar a um neglicenciamento, nem sempre intencional do respeito ao período de carência entre a aplicação de agrotóxicos de uso veterinário no gado e a retirada do leite para consumo humano. E assim, acaba por colocar em situação de risco outro grupo populacional, representado pela população consumidora de leite.

As mulheres que atuam na pecuária leiteira também se apresentam como grupo de especial interesse, dado o potencial de parte desses agentes químicos de interferirem nos sistemas endócrino e reprodutivo, levando a problemas na gestação, no parto e na saúde dos recém-nascidos.

SILVA et al (2012) registram que grande parte dos problemas aqui apresentados e discutidos pode estar associada à não classificação dos inseticidas de uso veterinários como agrotóxicos, o que levaria a um maior controle sobre a autorização de comercialização e as práticas de uso desses agentes químicos.

Por este motivo, produtos formulados a partir de princípios ativos não mais autorizados para uso agrícola continuam a ser utilizados livre e amplamente na pecuária leiteira, colocando não apenas um grande contingente de trabalhadores em situação de vulnerabilidade, como grande parcela da população brasileira consumidora de leite.

 

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Aposentado do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Sugestão de leitura: Civilização Instantânea ou Felicidade Efervescente numa Gôndola ou na Tela de um Tablet [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.

 

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