Parklets e a reumanização das áreas de convivência urbana, artigo de Roberto Naime

 

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Parklet na Valencia Street, em San Francisco, USA. Foto: Wikimedia

 

[EcoDebate] As cidades vão sofrendo processos de reumanização e de resgate de suas áreas de convivência com a presença de flora. Entre as novas estruturas se destacam os chamados “parklets”. Instalados inicialmente como experiência pioneira na cidade de São Francisco na Califórnia em 2.005, os parklets retiram parcialmente áreas de estacionamento, ampliando as calçadas e implantando estruturas mais amigáveis para convívio das populações.

A idéia é esta mesmo. Substituir áreas de vagas de estacionamento de carros, por ampliações de calçadas que operam como pequenas praças contendo a presença de material arbóreo ou pequenas folhagens e arbustos com forte apelo paisagístico.

Os chamados “parklets” se apresentam com ênfase em formas modulares e móveis, que possam ser deslocadas dentro de áreas urbanas. As dimensões são muito variáveis em função dos espaços disponíveis. São espaços de convívio que podem incluir bancos, mesas, paredes verdes, cestos de coleta seletiva, e, até mesmo, aparelhos para exercícios físicos e carregadores dos cada vez mais indispensáveis e interativos aparelhos de celular.

Estas estruturas públicas patrocinam a criação de novos palcos interativos para as pessoas. Sua instalação permite alterar completamente a paisagem urbana, construindo e implantando novos e diferenciados espaços de convivência e interação social. Isto estimula e muito a ocorrência de procedimentos cada vez mais participativos. O financiamento para a instalação de “parklets” pode ser público ou privado, mas a criação dos ambientes é de mútuo interesse.

As cidades carecem de espaços públicos de qualquer natureza. E que possam ser utilizados para diferentes finalidades, principalmente de lazer. E por último, mas não menos importante, é preciso incrementar os espaços de convivência. O fomento a maior interação social é uma tendência mundial.

Os “parklets” são espaços públicos, instalados temporariamente ou em caráter definitivo, permitindo que a comunidade das grandes cidades, construa os próprios espaços de convívio, resgatando e compartilhando de narrativas locais e incrementando a paisagem urbana com a agregação de espaços de vivência e convivência.

A criação de espaços das calçadas ampliadas que tomam o lugar de veículos estacionados nas ruas, induz à predisposição de sociabilidades crescentes, com a implantação de espaços onde é possível exercer compartilhamentos reais. Estas intervenções urbanas patrocinam grande polêmica em torno das práticas de uso e ocupação dos espaços públicos.

Diagnosticando carências que são a ausência de áreas de convivência institucionalizadas e buscando incrementar soluções que potencializem a qualidade de vida das populações, sem dúvida se estão determinando a criação e a manutenção de novos paradigmas. Aos espaços públicos deve ser atribuída funcionalidade que satisfaça as necessidades e os anseios das pessoas.

Existem constatações muito simples e consensuais. Enquanto carros ficam estacionados e parados a maior parte do tempo, ocupando precioso espaço público, o espaço anteriormente ocupado por veículos pode ser utilizado de forma muito mais dinâmica por pedestres variados e usuários de bicicletas. Basta começar a conceber de forma diferenciada a ocupação dos espaços públicos. Mesmo que inicialmente hajam reações pela retirada ou substituição dos espaços, que antes eram ocupados por veículos e agora passam a ser usados por pessoas, o clamor tende a ser rapidamente absorvido, na medida em que as pessoas começam a valorizar as convivências que passam a se estabelecer de forma natural.

Esta apropriação decorre de uma natural reflexão, que no caso é induzida pelas novas “práxis” que se estabelecem e que em pouco tempo acabam por ter valorização e atingir dimensões existenciais inestimáveis e não imaginadas.

A rua é o primeiro e mais essencial espaço público e deve privilegiar a convivência e o compartilhamento e não instruções estáticas e desprovidas de significado e funcionalidade, como são áreas de estacionamento de veículos. Somente o atendimento de funcionalidade propiciada pelos “parklets”, como convivência, compartilhamento, maior interação social e atendimento de necessidades comunitárias, torna os espaços públicos das grandes cidades, elementos de humanização.

Embora as primeiras e originais experiências e São Francisco na Califórnia estejam completando praticamente 10 anos, é agora que as práticas estão se difundindo no Brasil, e as administrações municipais busquem regulamentar a implantação de “parklets”, democratizando e tornando mais atrativas e convidativas as ruas e induzindo a reflexões sociais indutoras das modificações.

Estes espaços além de tudo, também permitem a ocorrência de manifestações artísticas e ampliam as divulgações e os contornos alcançados pelos eventos. Estas experiências todas são muito recentes no Brasil e têm na cidade de São Paulo suas maiores expressões.

Ao mesmo momento em que ocorrem restrições ao estacionamento de carros, os “parklets” permitem o uso do espaço de forma democrática, incrementando na comunidade a construção de espaços de convivência.

Se saúda esta modificação vivencial e se deseja que seja apenas a primeira de várias mudanças que alterem significativamente as paisagens urbanas das cidades brasileiras, para um novo e mais construtivo patamar.

 

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Aposentado do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

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in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 10/07/2019

Parklets e a reumanização das áreas de convivência urbana, artigo de Roberto Naime

, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 11/07/2019, https://www.ecodebate.com.br/2019/07/11/parklets-e-a-reumanizacao-dos-areas-de-convivencia-urbana-artigo-de-roberto-naime/.

 

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