Solidariedade e consumo, Parte 2/2 (Final), artigo de Roberto Naime

 

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Solidariedade e consumo

[EcoDebate] No mundo coexistem diferentes culturas. Num lugar do mundo, uma ação é compreendida como fundamental, ao mesmo tempo que em outra situação pode ser considerada desnecessária.

O consumismo é uma expressão cultural. Parece natural acordar um dia mais triste e pensar em comprar um objeto para animar.

Mas já se descobriu que não se compram significados existenciais, embora a publicidade se esforce em acoplar significações para bens de consumo, gestos e atitudes.

Existe consciência de que a maneira como nos vestimos produz uma reação nas pessoas, as quais nos situam de imediato mais dentro de um ou outro contexto. Tudo isto resulta de uma aprendizagem de códigos, processo sobre o qual temos maior ou menor consciência, com vista à aceitação social.

A complexidade dos grandes temas contemporâneos, o seu grau de especialização e a sua interdependência, bem como o fato da informação que se procura não estar disponível dificulta a busca de possibilidades alternativas.

Uma pessoa até pode querer avaliar o impacto social e ambiental de um produto para tentar escolher com consciência, mas acaba se sentindo perdida no acesso à informação ou na sua avaliação, ou descobrir que não existe alternativa local, justa e ecológica.

Mais uma vez aqui se vislumbra a dificuldade de se tentar ser “pioneiro cultural”, na medida em que não adquirir pode significar menor conforto ou abdicar que qualquer outra coisa.

A procura de modelos de vida para as comunidades humanas, mais responsáveis social e ambientalmente e com geração de maior sentido de felicidade, tem sido empreendida por diferentes pessoas e movimentos sociais nas últimas décadas.

Novos conceitos foram inventados ou reinventados, constituindo a base para experiências das quais hoje já se promovem ilações.

A reorganização do tempo de trabalho, hoje se trabalha mais horas e menos dias ou menos horas por dia, de forma a libertar horários para fortalecer laços de família e comunidade, a resolver pessoalmente pequenos problemas, centrando nas capacidades pessoais e locais a resposta a diversas necessidades e se adota formas de transporte mais lentas e ecológicas, como transporte partilhado, público ou a bicicleta.

O movimento das eco-aldeias é nascido da vontade de fortalecer laços de comunidade, levar uma vida mais autossuficiente e ecologicamente responsável, oferecendo estas várias possibilidades em várias dimensões.

Ao nível da produção e regime alimentar, da construção sustentável, da geração de energia, da criação de negócios locais alternativos mais verdes ou mesmo da utilização de moedas alternativas dentro da comunidade;

As experiências de “co-housing”, em que as pessoas beneficiam de apoio em tarefas que podem ser realizadas em rotatividade como confecção de refeições e tomar conta de crianças.

Conceitos como a permacultura ou o movimento das cidades em transição, para uma cultura pós-pico de petróleo, inspiram estas experiências e têm em comum, para além dos valores da responsabilidade universal, da tolerância e valorização da diversidade cultural, da promoção da paz e da promoção do equilíbrio ecológico, o reencontro da busca individual da “simplicidade voluntária”.

Quanto e como isto vai influenciar nas concepções de vida e família ainda é uma incógnita. Mas assim como as senzalas influenciaram, isto vai modificar paradigmas.

Porque cada local oferece as suas características físicas, as suas gentes e o seu potencial de sabedoria e de solidariedade.

Porque é ao nível local que a escala se torna mais “humana”, e onde mais facilmente se identifica o que se pode fazer.

E porque a mudança do mundo se faz de dentro para fora, começa com cada passinho que cada pessoa individualmente dá no seu caminho pessoal de transição para uma nova forma de estar no mundo, para um estado de “ser” mais e consumir menos e de forma mais responsável.

Porque num mundo finito não pode existir crescimento contínuo, o que seria necessário para responder às necessidades de uma população mundial crescente a seguir o paradigma consumista. Nem tal crescimento tem hipótese de alguma de ser “sustentável”, como tantos imaginam e defendem, pela simples razão de que a humanidade já vive no “crédito” no que toca à utilização de recursos naturais disponíveis.

Se acredita na humanidade e se espera que os novos padrões absorvam os saberes tradicionais.

Esta mudança deve começar logo, juntando as lutas singulares, os esforços diários, os processos de auto-organização e as reformas para retardar a crise, com uma visão centrada numa mudança de civilização e uma nova sociedade em harmonia com a natureza. Não é preciso esperar catástrofe ecológica ou hecatombe civilizatória para determinar nova autopoiese sistêmica.

O único caminho possível é o da homeostase voluntária e consciente, com geração local de recursos de modo ecológico e socialmente sustentável no que busque suprir as necessidades essenciais.

Se começa a encontrar outras formas de viver em comunidade, de suprir necessidades, de ser feliz, de se criar os filhos, de olhar para o futuro

Se valoriza a autossuficiência e a criação de redes de partilha de conhecimentos na direção de uma redefinição do conceito de qualidade de vida, sempre em sintonia com o exercício de uma cidadania mais informada e consciente.

 

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Sugestão de leitura: Civilização Instantânea ou Felicidade Efervescente numa Gôndola ou na Tela de um Tablet [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.

 

Nota da Redação: Leia, também, a primeira parte desta série de artigos, clicando aqui.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 02/05/2019

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