Cresce o número de jovens brasileiros que não pretendem ter filhos, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

 

“Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria”
Machado de Assis (Memórias póstumas de Brás Cubas)

 

razão de progressão de parturição

 

[EcoDebate] O Brasil, na maior parte de sua história, sempre teve taxas médias de fecundidade muito altas (acima de 6 filhos por mulher). Mas isto começou a mudar na segunda metade da década de 1960, quando o número médio de filhos por mulher começou a diminuir.

A percentagem de mulheres que não tinham filhos era muito baixa e, geralmente, estava relacionada a problemas de infertilidade ou em função da dificuldade de encontrar um parceiro adequado. O exemplo de Brás Cubas, imortalizado na obra de Machado de Assis, é um caso raro de uma pessoa que não teve filho e assumiu sua postura de maneira irônica: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria”.

Em 2005, o Brasil atingiu o nível de reposição da fecundidade (2,1 filhos por mulher) e o censo 2010 apontou uma taxa de fecundidade total (TFT) de 1,9 filhos. Mas, evidentemente, qualquer taxa de fecundidade representa diferentes níveis de parturição.

O gráfico acima (Cavenaghi e Alves, 2013) mostra que a percentagem de mulheres, no final do período reprodutivo, tendo 3 filhos ou mais tem diminuído para todas as coortes nascidas após 1956-1960. O percentual de mulheres tendo 2 filhos subiu, para a parturição observada, ficando em torno de 33% para as coortes nascidas entre 1960 e 1970. Contudo, os valores projetados mostram que as mulheres nascidas no início da década de 1970 e com parturição de 2 filhos representava 29% do total.

Já as mulheres com um filho cresceu de 10% para mais de 17% e deve chegar a 25% do total. As mulheres que não se tornam mães (zero filho) deve passar de pouco mais de 10% para cerca de 20% do total, conforme mostra o gráfico.

De fato, o Brasil mantém não somente taxas de fecundidade abaixo do nível de reposição, como também cresce o número de mulheres nulíparas (zero filho). Esta é a nova realidade do século XXI.

Pesquisa recente (16 e 27 de julho de 2018) do Nube – Núcleo Brasileiro de Estágios – perguntou para 41.389 pessoas, na faixa etária de 15 a 26 anos, em todo território nacional: “você pretende ter filhos?”. Embora, 57,97% das pessoas entrevistadas afirmarem a vontade de ter descendentes, mas uma grande parcela pretende ter apenas um filho.

Confirmando o estudo de Cavenaghi e Alves (2013), a pesquisa mostrou um montante significativo de 28,3% das pessoas entrevistadas que revelaram não considerar a ideia de ter filhos. Desses, 25,47% (10.543) afirmaram: “não quero ter filhos, tenho outras prioridades” e 2,82% (1.166) constataram: “o mundo já tem gente demais”.

Ou seja, o Brasil não será uma sociedade sem filhos (childless), mas tudo indica que a proporção de pessoas que escolherão “parturição zero” ou “parturição um” deve crescer de forma consistente no século XXI. Famílias pequenas será a norma e a TFT deve continuar abaixo do nível de reposição ao longo do século XXI.

 

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

 

Referências:

ALVES, JED. GINK: Pessoas com inclinação verde e sem filhos, Ecodebate, 13/02/2015
http://www.ecodebate.com.br/2015/02/13/gink-pessoas-com-inclinacao-verde-e-sem-filhos-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

ALVES, JED. PANK: Professional Aunt No Kids (Tia profissional sem filhos) , Ecodebate, 18/02/2015
http://www.ecodebate.com.br/2015/02/18/pank-professional-aunt-no-kids-tia-profissional-sem-filhos-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

ALVES, JED. O mito do amor materno e as políticas pronatalistas, Ecodebate, 13/05/2015
http://www.ecodebate.com.br/2015/05/13/o-mito-do-amor-materno-e-as-politicas-pronatalistas-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

CAVENAGHI, Suzana; ALVES, José Eustáquio D. Childlessness in Brazil: socioeconomic and regional diversity. In: XXVII IUSSP International Population Conference, 2013, Bussan. Proceedings of XXVII IUSSP International Population Conference. IUSSP, 2013. v. 1. p. 1-25.
https://iussp.org/sites/default/files/event_call_for_papers/ChildlessNessBrazil_Final.pdf

Nicole Tavares, analista de treinamento do Nube (Núcleo Brasileiro de Estágios) https://www.nube.com.br/blog/2018/08/30/os-jovens-querem-ter-filhos

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 30/11/2018

"Cresce o número de jovens brasileiros que não pretendem ter filhos, artigo de José Eustáquio Diniz Alves," in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 30/11/2018, https://www.ecodebate.com.br/2018/11/30/cresce-o-numero-de-jovens-brasileiros-que-nao-pretendem-ter-filhos-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/.

 

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2 comentários em “Cresce o número de jovens brasileiros que não pretendem ter filhos, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

  1. Acho ótimo e o planeta agradece. Achei um grande tiro no pé da China em liberar para 2 filhos cada casal….mais gente pra comer aff…..mais poluição, difícil…!!!

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