‘Botando o Pingo nos is’, artigo de Millos Augusto Stringuini

 

artigo de opinião

 

Botando o Pingo nos is’

Prof. Millos Augusto Stringuini, Dr.Sc.1

[EcoDebate] Dia 15 de agosto de 2018, o Portal EcoDebate (boletim diário 3.035) e a mídia apresentaram para conhecimento nacional a nova pesquisa do Unicef, Fundo das Nações Unidas para a Infância, contendo a impressionante estatística sobre crianças e adolescentes (até 17 anos) no Brasil.

O Estudo demonstra que 6 em cada 10 crianças e adolescentes vivem em condições de pobreza. Cerca de 32,7 milhões de pessoas estão expostas a várias formas de vulnerabilidades (pobreza monetária, falta de saneamento, educação, água) totalizando uma taxa de privação de direitos de 49.7%, com viés racista, pois atinge os negros em 58% contra 38% de brancos.

Na tentativa de entender como esse país chegou a esse assombroso estágio de subdesenvolvimento atual, (emergente é eufemismo político diversionista da realidade) com milhares de passivos, sociais, econômicos e ambientais sem previsibilidade de solução em curto, médio e longo prazo, muitas maneiras de interpretar o fenômeno ocorrem, todavia uma delas explica de forma direta e objetiva o problema. Basta olhar com atenção para o cotidiano.

Existe no Brasil epidemia de uma ‘psicopatologia’ que pode ser denominada a “Síndrome dos Três Is”, formada pela tríade – IGNORÂNCIA, INCOMPETÊNCIA e IRRESPONSABILIDADE.

Essa Síndrome atinge não somente as classes sociais com menor poder econômico, mas também vige fortemente nas pessoas com condições econômicas avantajadas, não sendo, portanto, atribuível a problemas de distribuição de renda.

Também não é um problema ideológico, como os políticos diversionistas gostariam que fosse. Sua ativação/expressão ocorre pela ação conjunta de, pelo menos, dois agentes da tríade que forma o conjunto da síndrome.

IGNORÂNCIA: Conforme as pesquisas que geraram diversas reportagens sobre o Ranking da Ignorância no Mundo2, a população Brasileira, nos anos de 2017 e 2018, ficou classificada como a 2ª mais ignorante do mundo. Essas pesquisas avaliam o nível de conhecimento equivocado da realidade nacional através da identificação de conhecimentos básicos de temas do cotidiano.

Esse é um resultado esperado em um país onde as estatísticas oficiais apresentam alarmantes níveis de analfabetismo e analfabetismo funcional em suas diversas categorias. Além disso, dados do PISA 2015, prova aplicada em 70 países, o Brasil ficou na 63ª posição em ciências, na 59ª em leitura e 66ª em matemática.

O INAI – Indicador do Alfabetismo Funcional (2018) realizado pelo IBOPE Inteligência com a ONG Ação Educativa e o Instituto Paulo Montenegro, indica que 8% dos brasileiros são analfabetos (cerca de 16 milhões de brasileiros) e outros 38 milhões são analfabetos funcionais.

O fator mais impressionante associado a esses dados é que diagnósticos não faltam, todavia, falta um projeto executivo realista para a solução do problema em nível nacional.

O Governo Federal faz os diagnósticos e aloca verbas, mas desloca a responsabilidade pela solução do problema para os Governos Estaduais e Municipais.

Como nesses entes federativos a ignorância gerencial é notória – se não existisse o Brasil seria um país desenvolvido – o enorme problema da educação no Brasil continua sendo administrado com soluções paliativas.

Inegavelmente a ignorância é um fenômeno com resultados negativos, sociais, econômicos e ambientais continuados. Níveis elevados de ignorância em uma nação condicionam ao subdesenvolvimento de forma agravante.

Pelo estudo do Unicef, atualmente, 8,8 milhões de crianças e adolescentes no Brasil estão privados do direito fundamental à educação, ou seja, estão condenadas à ignorância.

INCOMPETÊNCIA: Falar de incompetência é abrir um leque de temas cotidianos onde aparecem os problemas nacionais. Não é à toa que na língua portuguesa falada no Brasil existem expressões que demonstram a incompetência no trato das coisas do cotidiano;

– “Quebrar o Galho”, ou seja, resolver os problemas de forma parcial ou incompleta, postergando uma solução definitiva e adequada.

– “Dar um Jeitinho”, ou seja, arranjar uma solução alternativa fora do regular, com conotações muito variadas, mas sempre com o resultado incompleto e imperfeito em vários sentidos.

– “Fazer uma gambiarra”, realizar algo de forma incompleta para obter um resultado imediato ou temporário, vias de regra fora da norma e ou da lei (clandestino, ex. “furto de eletricidade”).

Esses três pequenos exemplos demonstram aquilo que no cotidiano brasileiro a imensa maioria das pessoas já sofreu ou está sofrendo. Por exemplo: é comum alguém contratar serviços de reparos de algum eletrodoméstico; ou o problema se agrava e/ou o conserto é mal feito. Os PROCONS do Brasil e os Juizados Especiais Cíveis estão lotados de reclamações que corroboram a plena noção de incompetência que cotidianamente que se volta contra a cidadania. Um ciclo vicioso que agrava os problemas gerando custos indiretos crescentes para o país.

O retrabalho é coisa muito comum no país

Na realidade do dia a dia é fácil constatar que a imensa maioria das pessoas faz parte do problema, não contribuindo para qualquer tipo de solução. Acreditam que os políticos e os Governos resolverão seus problemas

Por sua vez, a incompetência governamental, nos seus três níveis, municipal, estadual e federal é amplamente reconhecida e demonstrada todos os dias pela mídia. Os serviços prestados pelos governos são plenos dos “três Is”. Segurança pública, saúde, saneamento e meio ambiente são exemplos, pois essa síndrome altera a capacidade decisional das pessoas.

As centenas de obras públicas inacabadas são o exemplo incontestável da vigência da Síndrome em escala nacional.

O famoso “Custo Brasil” é conhecido há décadas, sendo fruto podre da Síndrome dos Três Is. No país existem raríssimas iniciativas para tentar solucionar os problemas que geram o “Custo Brasil”, mesmo sabendo-se que esse é um importantíssimo fator de redução da competitividade econômica do Brasil, com sérios danos sociais e ao meio ambiente (vias de regra desconsiderados).

Vige no Brasil a “cultura do incompleto e impreciso”; do “puxadinho” e ou “meia boca”! Realidade cotidianamente constatada em todo o país. Diagnósticos não faltam; soluções reais existem; todavia, não são aplicadas.

Onde estão os projetos executivos viáveis para solução dos problemas do Brasil?

Para grupamentos instalados no poder não interessa resolver os problemas do Brasil, pois esses grupos vivem do problema de múltiplas formas, sendo duas delas o clientelismo político e a corrupção.

Projetos técnicos bem elaborados impedem “maracutaias e conchavos espúrios”, por isso não interessam aos detentores de poder. Soluções simplificadas e exequíveis também não.

IRRESPONSABILIDADE: Cada país possui um reconhecimento público mundial. Por exemplo, os Estados Unidos por seu poderio bélico e moeda; a Suíça por sua precisão; a Alemanha pelos produtos de qualidade, cerveja e germanismo. O Brasil é reconhecido mundialmente como o país do carnaval, futebol, sexo e insegurança, impunidade e belezas naturais (praias e Amazônia). Paraíso hedonista, ou seja, onde se faz culto ao prazer.

A realidade é dura. É de domínio público que o inconsciente coletivo nacional deseja “trabalhar pouco e ganhar muito”. Ser jogador de futebol, artista de televisão, rapper ou similares é o sonho profissional de milhares de jovens brasileiros. Desejar ser professor é motivo de pecha, inclusive no contexto das famílias, pois esses trabalham muito e ganham pouco. Raros são aqueles que querem ser industriais, comerciantes ou similares. Um número muito grande de pessoas deseja realizar um concurso para emprego público para ganhar salários elevados e eliminar os riscos aos quais os trabalhadores da iniciativa privada estão sujeitos.

Os jogadores de futebol milionários são idolatrados muito menos por seus talentos, mas muito mais pelo recôndito sonho que representam, ou seja, ganhos estratosféricos com “trabalho hedônico”.

Por exemplo, o país tem hoje muitos “filhos do funk” e “vaporzinhos do tráfico”. Crianças que já nascem fora de um contexto social que lhes permita um desenvolvimento pessoal e social civilizado. Nascem marginalizados e estigmatizados.

Realidade nua e crua, não existindo provas reais e robustas que a contestem.

A irresponsabilidade nacional possui milhares de exemplos de pequena, média e grandes dimensões. O trânsito é exemplo comum. Existe amplo material nas mídias comprovando que os governos não conseguem ser competentes e responsáveis para resolver esse problema e a população não coopera para melhorar.

Estradas antiquadas ou sem condições técnicas adequadas de funcionamento; velocidades de rolamento subdimensionadas para compensar a falta de investimentos, deficiências graves na formação dos motoristas, etc. Além disso, a sociedade espera que os governos resolvam os problemas e os motoristas conduzem seus veículos de forma caótica, em um universo de condutas irresponsavelmente tresloucadas. Motociclistas no trânsito das grandes cidades são responsáveis ou irresponsáveis? O número anual de feridos e mortos no trânsito é a prova inconteste desse quadro de irresponsabilidade.

O mesmo vale para o meio ambiente. A imensa maioria da sociedade brasileira é ignorante, incompetente e irresponsável com o meio ambiente. Temos cerca de 3.000 lixões a céu aberto (sem contar os milhares de pequenos descartes clandestinos), sem nenhum projeto técnico de solução do problema.

O conjunto maior da população não tem o mínimo respeito pela natureza. Basta olhar as ruas e córregos onde diariamente são descartadas incontáveis toneladas de resíduos sólidos.

Essa é a triste realidade do Brasil em 2018 e parece que continuará piorando para as próximas décadas, sem deixar de lembrar que esses problemas têm sido destacados desse o início da segunda metade do século XX. Cerca de 60 anos de existência dos debates sobre problemas sociais, econômicos e ambientais no Brasil e o quadro continua sendo agravado.

Irresponsavelmente, nesses últimos 20 anos, vige a crença que a judicialização dos problemas ambientais irá tudo resolver e reconduzir o Brasil para o desenvolvimento e a higidez da natureza. Ledo engano! Por exemplo: A judicialização do acidente de Mariana está resolvendo os urgentes problemas do Rio Doce? Obviamente que não. Tudo está sendo maquilado pelo manto legal burocrático para que as obras que deveriam solucionar o problema sejam minimizadas ou não realizadas.

A Administração Pública Brasileira é prioritariamente voltada para os interesses pessoais (corrupção), corporativos e ou políticos espúrios, gerando comprovadamente a irresponsabilidade social, econômica e ambiental. Obras inacabadas que se espalham pelo país são a prova.

A enorme ausência de projetos executivos (viáveis) para a solução dos problemas nacionais (inclusive já previstos em lei) é outra prova robusta da ignorância, incompetência e irresponsabilidade que viceja no Brasil.

Qual a solução?

A psique humana determina definitivamente a relação dos humanos com seu território e grau de qualidade social, econômica e ambiental.

Os humanos prevalentes na biosfera, habitantes de cidades, com suas psiques individuais formam e integram os inconscientes coletivos dos países.

O mundo artificial idealizado – dos ambientes controlados (dominados) e climatizados – em detrimento do mundo natural é fruto da negação da realidade pelos humanos. Esses não querem ser considerados como animais, mas sim seres “divinos”; extra natureza.

Os confrontos com a realidade pura e crua são psicologicamente negados e renegados sob rótulos diversos. A esperança é uma das muitas construções psicointelectuais para fugir da realidade, pois posterga para o futuro a solução dos problemas de todos os tipos.

Quando atacados pela Síndrome dos Três Is, o narcisismo impede que os humanos admitam ser ignorantes, incompetentes e irresponsáveis.

Por sua vez, humanos ditos modernos, desejam um mundo artificialmente construído e imaginado/sonhado. Mundo virtual em detrimento da realidade.

É nesse contexto atual de negação que a sociedade brasileira precisa encontrar terapêutica para a epidemia que está acometida.

Enquanto não houver tratamento adequado para a “Síndrome dos Três Is”, a nação continuará sendo subdesenvolvida e as crianças, adolescentes e o meio ambiente seguirão sendo constantemente vilipendiados e degradados.

De nada adiantará tentar psicologicamente negar essa realidade (com a ignorante, incompetente e irresponsável mania nacional de colocar todos os problemas para debaixo do tapete). Muito menos manter o escudo da irresponsabilidade gerado por falsas esperanças cultuadas no viciado assembleísmo populista salvacionista nacional.

É preciso considerar a Síndrome dos três Is” como um problema de saúde pública, pois pessoas portadoras dessa síndrome quando assumem a condição de gestores públicos ou privados, agravam os problemas gerais e específicos. As decisões tomadas são, vias de regra, incompletas e ou equivocadas e muito corruptas. Exemplos não faltam.

Certamente, como primeira medida profilática, existe prescrição urgente para um choque qualificado na educação nacional, vacina eficaz contra essa grave síndrome. Esse é o primeiro passo real para começar a recolocar o país nos trilhos do desenvolvimento social, econômico e ambiental.

É urgente construir um projeto técnico (executivo) nacional de educação, com matriz de financiamento real, não clientelista, destinado a ser implantado independentemente de vontades e decisões políticas. O Brasil não suporta mais o fracasso das “Políticas Nacionais” tais como a de Educação e Resíduos sólidos, que nada mais são do que papéis bem elaborados (o papel aceita tudo), mas que, na prática, geram pífios resultados concretos, ou seja, capazes de resolver adequadamente os problemas nacionais e locais existentes.

Nesse ano de 2018 serão realizadas eleições para Presidente da República (vice também), Governadores, Senadores e Suplentes, Deputados Estaduais e Federais. Muitos dos candidatos são portadores da Síndrome dos Três Is e a sociedade votando deve impedir o acesso dessas pessoas ao poder, pois eleger pessoas comprovadamente competentes é uma necessidade imperiosa. É preciso dar um basta no sucesso de corruptos, demagogos, populistas/salvadores da pátria, hipócritas e assemelhados, independentemente de ideologias de esquerda ou direita.

É preciso lembrar que as ideologias, no Brasil, tentam ocultar a condição sindrômica dos “Três Is” na política nacional e, por isso o país cotidianamente agrava seu subdesenvolvimento.

Educação de qualidade gera conhecimento, competências e atitudes de responsabilidade.

1 Informações profissionais na internet.

2 Pesquisas e Reportagens disponíveis na Internet.

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 22/08/2018

‘Botando o Pingo nos is’, artigo de Millos Augusto Stringuini, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 22/08/2018, https://www.ecodebate.com.br/2018/08/22/botando-o-pingo-nos-is-artigo-de-millos-augusto-stringuini/.

 

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2 comentários em “‘Botando o Pingo nos is’, artigo de Millos Augusto Stringuini

  1. Obrigado pelo artigo comunga com pesar a existência dos “ís”. Infelizmente é nossa realidade.

  2. Caro Anísio. Obrigado pelo comentário. Precisamos mudar essa infeliz realidade. Millos Stringuini

Comentários encerrados.

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