Filosofia hidrológica – parte II, artigo de Osvaldo Ferreira Valente

 

[EcoDebate] A série ‘Filosofia hidrológica’, que está sendo publicada pelo EcoDebate, não tem a intenção de descrever equipamentos e instalações para aproveitamento de água de chuva e nem detalhes de implantação. A ideia é discutir os fundamentos que foram ou devem ser considerados no desenvolvimento das tecnologias, numa tentativa de fazer com que as pessoas possam analisar o que acontece com as águas de chuvas que caem em suas propriedades e o que é possível fazer com os conhecimentos científicos já disponíveis.

Já vimos no artigo ‘Filosofia hidrológica – Parte I’ que é fácil calcular as quantidades de água que nossas propriedades recebem pelas chuvas. E que tais quantidades, se pudessem ser todas armazenadas, poderiam suprir parte de uma necessidade de consumo. Necessidade de consumo, que no caso discutido no citado artigo, foi sugerida como sendo de 150 L/p.d. E eu insisto nesse valor, apesar de estudo recente do IBGE dizer que a média de consumo dos brasileiros está em 108,4 L/p.d. Mas agora eu pergunto: você, leitor, sabe qual é o consumo per capta de sua família?

Já pensou nisso ou teve a curiosidade de descobrir? Reclama da conta de água sem analisar se o consumo não está muito alto, caracterizando desperdício? Para responder tais perguntas bastaria o hábito de, todo mês, dividir o valor do consumo mostrado na conta pelo número de dias referidos e pelo número de componentes da família. Se tal consumo estiver sendo de 150 L/p.d, ótimo; se estiver até 200 L/p.d, já está preocupante; mas se acima de 200m L/p.d, não resta dúvida que vem predominando forte desperdício. Mas talvez valha a pena você ir mais longe em sua análise: quantos litros são necessários para encher a máquina de lavar roupa? Há o cuidado de programar adequadamente o número de lavagens? Você sabe quantos litros de água saem em cada minuto de chuveiro aberto? De torneira aberta etc.? Você, a esta altura, já deve estar achando que o seu tempo está sendo menosprezado por mim. Talvez, sim, mas pior será se, em algum dia, você tiver que sair de casa para providenciar alguns galões de água para os banhos da família. Terrorismo? Talvez não, só realidade.

Todos sabemos que a lavagem e limpeza de áreas, principalmente em casas, são potenciais gastadoras de bons volumes de água. Você tem ideia de quanto? Vamos supor que o consumo diário de sua residência é de 1.000 L e que você fez uma observação e concluiu que, desse total, 200 L estão sendo usados em cada diária da faxineira e que ela trabalha duas vezes por semana. Se você conseguir diminuir esse consumo para 150 L, isso representaria uma economia mensal 400 L. Se o período crítico de abastecimento de água em sua cidade é de dois meses e com a redução de consumo para 150 L, o armazenamento de 2.400 L dará para o atendimento dessa necessidade pelos tais dois meses. Se o telhado for de 220 m2, chuvas de 11 mm darão para armazenar os 2.400 L.

É muito importante que o leitor faça esses cálculos, pois isso vai criando familiaridade com a interação chuva/abastecimento de água. E também dará mais racionalidade ao assunto, o que ajudará no consumo consciente.

As tecnologias disponíveis para o armazenamento de água de chuva e os manuais de execução das mesmas estão disponíveis em vários sites. É só ir ao Google e procurar por “coleta de água de chuva” ou “aproveitamento de água de chuva”. Atente para as filtragens e os tratamentos com cloro, de acordo com as utilizações programadas. O ‘Sempre Sustentável’ (www.sempresustentavel.com.br) é exemplo de site que pode ser consultado, sendo dele a Figura aqui apresentada. Nele o leitor vai encontrar um manual de montagem de sistemas de coleta, de simples a mais complexos, dependendo do que se pretenda fazer com a água coletada. O Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT) também andou tratando do assunto no trabalho que pode ser consultado em http://www.ipt.br/noticias_interna.php?id_noticia=892

 

 

Como chuvas relativamente fracas são suficientes para o armazenamento necessário, conforme vimos, não há necessidade de manter o recipiente plenamente cheio ao longo de todo o período chuvoso. Se você maneja os volumes, deixando sempre um espaço vazio durante os períodos de chuvas frequentes, você estará contribuindo para diminuir a concentração de enxurradas e isso poderá ajudar na diminuição de inundações e alagamentos. Mas isso ficará mais claro no próximo artigo. Até lá.

Osvaldo Ferreira Valente é engenheiro florestal, especialista em hidrologia e manejo de pequenas bacias hidrográficas, professor titular, aposentado, da Universidade Federal de Viçosa (UFV) e autor de dois livros sobre o assunto: “Conservação de nascentes – Produção de água em pequenas bacias hidrográficas” e “Das chuvas às torneiras – A água nossa de cada dia”; colaborador e articulista do EcoDebate .( valente.osvaldo@gmail.com)

Nota da Redação: Leia, também, o artigo anterior desta série:

Filosofia hidrológica – parte I

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 12/06/2018

Filosofia hidrológica – parte II, artigo de Osvaldo Ferreira Valente, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 12/06/2018, https://www.ecodebate.com.br/2018/06/12/filosofia-hidrologica-parte-ii-artigo-de-osvaldo-ferreira-valente/.

 

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