Porque se consome tão poucas plantas comestíveis, artigo de Roberto Naime

 

vegetais

 

[EcoDebate] Formatos estranhos e aromas desconhecidos contribuem para a ação constatação da existência de uma variedade enorme de verduras, frutas e legumes.

Mas, por mais variadas que possam parecer estas espécies, estes produtos representam apenas uma fração mínima das espécies que se pode ingerir.

Não é uma falha dos supermercados e feiras. O fato é que das 400 mil espécies de plantas que existem no mundo, cerca de 300 mil são comestíveis. E destas 300 mil, se consome apenas cerca de 200.

A maioria das proteínas que se consome na alimentação que têm origem nas plantas vem de três cultivos, o milho, o arroz e o trigo. Se as opções são tantas, por que a humanidade se alimenta de apenas 0,06% das plantas comestíveis?

“Até agora, a explicação sugeria que fazemos isto para evitar o consumo de plantas tóxicas”, disse à BBC Mundo John Warrer, professor de botânica na Universidade de Aberystwyth, na Grã-Bretanha, e autor do livro A Natureza dos Cultivos.

Para Warren, o argumento não tem fundamento.“Muitas das plantas que comemos são originalmente tóxicas, mas, com o passar do tempo, nós e outros animais encontramos formas de lidar com estes componentes tóxicos” assevera ele.

O botânico se refere aos processos de domesticação que foram eliminando as substâncias venenosas nas plantas e também aos procedimentos como cozimento, que tornam uma planta digerível.

“Na verdade, se faz isto, pois se escolhe deliberadamente ingerir plantas que têm uma vida sexual muito tediosa”, afirmou. A vida sexual previsível, segundo Warren, é o que garante o sucesso de uma planta como cultivo em larga escala.

E previsível, neste caso, significa uma planta que se reproduz por um mecanismo de polinização muito generalizado, que pode ser o vento ou os serviços de insetos como as abelhas.

As orquídeas são exemplos mais óbvios na hora de explicar a razão de uma planta com vida sexual complexa não ser boa para ser domesticada.

“Elas são as pervertidas do mundo das plantas. Têm flores e hábitos sexuais estranhos”, diz Warren.

Existem cerca de 20 mil espécies de orquídeas, e muitas poderiam ser boas como alimentos. Mas, se cultiva apenas uma para o consumo, a chamada orquídea da baunilha, cuja polinização feita manualmente, é viável somente devido ao seu alto valor de mercado.

A razão pela qual não cultivamos mais orquídeas, segundo o professor, é “que elas têm uma vida sexual esquisita”.

Para se reproduzir, estas orquídeas devem ser polinizadas por uma espécie específica de inseto e, tanto estes, quanto a orquídea, dependem do outro para sobreviver.

Se as orquídeas forem cultivadas longe do habitat deste inseto, não produzirão sementes e fracassarão como cultivo.

Por isso, segundo Warren, acabamos com apenas “dez cultivos mais importantes do planeta, a saber milho, trigo, arroz, batatas, mandioca, soja, batata-doce, sorgo, inhame e banana, que se polinizam com a ajuda do vento, sem necessidade de insetos”.

Se as plantas mais importantes para nossa dieta não dependem de insetos, outra pergunta que surge é qual a razão de tanta preocupação com a queda global nas populações de abelhas, um dos principais agentes polinizadores?

Na opinião de Warren, “o problema é exagerado”.

“É importante, mas as abelhas não participam dos cultivos que nos dão calorias. Nenhum dos dez cultivos já mencionados será afetado pela morte das abelhas.”

Esta frieza da declaração sobre as abelhas causa estranheza. Pode até ser verdadeira e constatada, mas os serviços ecossistêmicos são muito maiores e relevantes. Como se comprova a seguir.

“Mas, se as abelhas morrem, as frutas como as maçãs, peras e morangos, serão afetados. E isto prejudicará a ingestão de vitaminas, a qualidade de vida e piorará a saúde. Mas, não se vai morrer de fome”, acrescentou Warren.

O botânico acredita que é importante aumentar o número de espécies que se cultiva, e dar mais ênfase para os tipos que exigem menos recursos.

“A tendência é domesticar plantas muito nutritivas, mas que necessitam de muitos fertilizantes. Deveríamos cultivar novas plantas com sistemas nutritivos inferiores, porém mais sustentáveis no futuro”, afirmou.

E, ainda de acordo com Warren, diferentemente de nossos ancestrais, entendemos as dificuldades de cultivar plantas de vida sexual complexa e podemos superar estes obstáculos. Curioso, interessante e lógico, embora um pouco frio e insensato.

Referência:

http://www.revistaecologica.com/por-que-so-consumimos-006-das-plantas-comestiveis-do-planeta/

 

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Sugestão de leitura: Civilização Instantânea ou Felicidade Efervescente numa Gôndola ou na Tela de um Tablet [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 08/02/2018

Porque se consome tão poucas plantas comestíveis, artigo de Roberto Naime, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 8/02/2018, https://www.ecodebate.com.br/2018/02/08/porque-se-consome-tao-poucas-plantas-comestiveis-artigo-de-roberto-naime/.

 

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