Sobre o futuro, artigo de Montserrat Martins

 

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[EcoDebate] O que podemos esperar de 2018? O que o futuro nos reserva? O futuro é um seguimento do presente, raramente há saltos bruscos. Então, o que o presente nos indica? “O passado não reconhece seu lugar, ele está sempre presente”, escreveu Mário Quintana. O presente também é um contínuo no tempo, então somos a continuação dessa história.

Você sabe quem é – e quem se encaminha para ser – a partir do que veio fazendo esse tempo todo para chegar lá. Pois com nossa sociedade é a mesma coisa, nossos problemas de hoje eram previsíveis há tempos.

A massificação é o drama das cidades, onde se perde a responsabilidade individual pelo anonimato das ações em grupos. Mas muito antes de sermos uma “sociedade de massas” já tínhamos características do nosso modo de viver em sociedade, que combinam com o que somos hoje.

Somos um povo de aventureiros e individualistas, mais que de trabalhadores disciplinados – e quem disse isso não desprezava o país, ao contrário. Em “Raízes do Brasil, Sérgio Buarque de Holanda chega a dizer que entre portugueses e brasileiros existe “uma só alma” e que nosso jeito de ser vem da península ibérica, das características seculares daquele povo também mestiço, como o nosso.

Dito por um dos nossos maiores historiadores, sabidamente comprometido com valores de desenvolvimento social e econômico do país, parece insuspeito. Nosso caráter então não está sendo “difamado” quando dizem que o brasileiro quer dinheiro fácil, fruto de arroubos, de audácia, ao invés de persistência e trabalho humilde – pois é esse o caráter que o homem “peninsular”, ibérico, já teria há tempos. O próprio fato de sermos “descobertos” por eles, espanhóis e portugueses, já demonstraria o caráter aventureiro daqueles povos, que se destacaram mais pelas epopeias marítimas do que por qualquer outra coisa, em toda história dos seus povos.

Brasileiros, hoje, seriam portugueses do hemisfério sul, em suas principais características. Não somos associativos, somos individualistas. Nos reunimos mais para festas, espetáculos, lazer, ou eventos de cunho emocional (incluindo eventos religiosos), mas não para resolver nossas questões sociais. Não temos paciência para investir no futuro em trabalhos disciplinados que requeiram persistência, queremos resultados rápidos e seguindo a lei do menor esforço. Conclui-se que o nosso modo de ser nos leva à imprevisibilidade do futuro, se tivermos sorte, se fizermos as apostas certas.

Que em 2018 tenhamos a lucidez de fazer boas escolhas, mais racionais, indo um pouco além da nossa tendência a pensar pouco. Pensemos bem e teremos um futuro melhor pois nesse novo ano se decidem os rumos do país.

 

Montserrat Martins, Colunista do Portal EcoDebate, é médico psiquiatra, bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais e ex-presidente do IGS – Instituto Gaúcho da Sustentabilidade

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 03/01/2018

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