Attenborough: a humanidade é uma praga que está destruindo o Planeta, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

 

“O crescimento exponencial infinito das atividades econômicas
é um suicídio para a humanidade”
David Suzuki

 

o crescimento da população humana no Holoceno e a 'explosão' no Antropoceno

 

[EcoDebate] David Attenborough, renomado naturalista britânico e apresentador de TV que inovou na defesa do ambientalismo, lançou um alerta pessimista sobre a influência predadora dos seres humanos na redução da biodiversidade da Terra e na destruição dos ecossistemas: “Somos uma praga na Terra” (“We are a plague on Earth”).

Attenborough acredita que o crescimento da população humana, somado ao crescimento da produção e do consumo e do aumento da poluição e dos resíduos sólidos, reduzirá a disponibilidade de solo e água para a produção de alimentos e deve acirrar a disputa por espaço com as demais espécies vivas da Terra.

A humanidade (com seu estilo de vida e a incessante acumulação de capital e riqueza) se tornou uma força implacável de destruição que não respeita o compartilhamento do mundo com outras criaturas. Attenborough diz: “Ou limitamos nosso crescimento populacional ou o mundo natural vai fazer isso por nós, e, de certa forma, a natureza já está fazendo isso para nós agora”.

O rápido crescimento da economia e da população está tornando muito difícil para o mundo conciliar as demandas humanas com os desafios ambientais. Infelizmente, não existe uma discussão real sobre a realidade da superpopulação. Ele diz: “Nós não podemos continuar sustentando altas taxas de crescimento demográfico, porque a Terra é finita e não se pode colocar o infinito em algo que é finito.

Attenborough também adverte que simplesmente reconhecer os problemas não é suficiente, pois é necessário ação. Ele considera que é preciso universalizar os serviços de saúde reprodutiva e investir na educação sexual em todo o mundo, garantindo às mulheres mais controle político sobre seus corpos e acesso aos meios voluntários de regulação da fecundidade, especialmente nos países onde são altas as taxas de gravidez indesejada.

De fato, o futuro da população mundial está em aberto e pode haver um decrescimento demográfico no mundo se houver uma queda relativamente pequena nas taxas de fecundidade. Uma pequena redução do número médio de filhos por mulher pode representar uma diferença de bilhões de pessoas no longo prazo.

Pesquisadores do International Institute for Applied Systems Analysis (IIASA), na Áustria, realizaram projeções de longo prazo (2000 a 2300) da população mundial para os cenários do Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC). As projeções por idade e sexo levaram em consideração um amplo conjunto de hipóteses de fecundidade e três cenários de mortalidade com base em expectativa de vida máxima de 90, 100 e 110 anos. Em artigo publicado na Demographic Research, em 30 de maio de 2013, os demógrafos Stuart Basten, Wolfgang Lutz e Sergei Scherbov apresentam uma síntese do relatório.

Considerando aqui o cenário de expectativa de vida de 90 anos (Eo = 90), a população mundial em 2300, dependendo da Taxa de Fecundidade Total (TFT), pode variar de praticamente zero a 71 bilhões de pessoas, como mostra o gráfico abaixo:

 

tamanho da população mundial: 2000 a 2300 segundo hipóteses de fecundidade

 

A população mundial em 2000 era de 6,05 bilhões de habitantes. Se a TFT permanecer no nível de 2,5 filhos por mulher, o número de habitantes globais chegaria a 71 bilhões de pessoas em 2300.

Se a TFT global cair para 2 filhos por mulher (aproximadamente a taxa de reposição), a população mundial chegaria a 9,0 bilhões de habitantes em 2300. Uma queda da taxa de fecundidade para 1,75 filhos por mulher faria a população mundial chegar a 2,74 bilhões de habitantes em 2300. Uma TFT de 1,5 filho por mulher resultaria em uma população mundial de 720 milhões de habitantes em 2300. Uma TFT abaixo de 1 filho por mulher levaria a uma população inferior a 30 milhões de habitantes.

Como exemplo, o Brasil tem atualmente uma TFT próxima de 1,75 filho por mulher. Diversos países (inclusive a China) possuem taxas de fecundidade ainda menores. Caso a fecundidade média do mundo fique no mesmo nível da TFT atual do Brasil, haveria um decrescimento da população mundial para menos da metade dos 7,5 bilhões de habitantes atuais. Portanto, o ambientalista David Attenborough, tem razão em dar ênfase à discussão do planejamento reprodutivo para reduzir o número de pessoas e a pegada ecológica da humanidade.

Em parte, a fecundidade mundial só não cai mais rápido devido ao alto percentual de gravidez indesejada. O Guttmacher Institute publicou, em junho de 2017, um novo estudo apontando para o não atendimento da demanda por métodos contraceptivos nas regiões em desenvolvimento. O estudo mostra que, nos países em desenvolvimento, 214 milhões de mulheres querem evitar a gravidez, mas, por diversas razões, não tem acesso aos métodos modernos de contracepção. Além disso, dezenas de milhões de mulheres não têm acesso a cuidados básicos durante a gravidez e o parto, necessários para protegerem sua saúde e a saúde dos recém-nascidos. O atendimento aos direitos reprodutivos pode contribuir para desacelerar o incremento demográfico (Darroch, 2017).

As preocupações de David Attenborough são pertinentes, pois o crescimento da presença humana na Terra é insustentável, conforme atestam as últimas notícias. Um terço do solo do Planeta está severamente degradado e o solo fértil está sendo perdido a uma taxa de 24 bilhões de toneladas por ano, de acordo com o estudo “Perspectiva Global de la Tierra (GLO)” da ONU. A insegurança alimentar que vinha se reduzindo no mundo na última década, voltou a crescer e afetou 815 milhões de pessoas em 2016, o que representa 11% da população mundial. Múltiplas formas de má nutrição ameaçam a saúde de milhões de pessoas. O aumento foi de mais 38 milhões de pessoas em relação ao ano anterior, em grande parte, devido à proliferação de conflitos de guerra e mudanças climáticas, segundo o relatório da FAO: “Estado da Segurança Alimentar e da Nutrição no Mundo 2017”.

No dia 13/11/2017, foi publicada uma carta na revista BioScience, assinada por 15.372 cientistas de 184 países, com o título: “Advertência dos Cientistas à Humanidade: Segundo Aviso”. Trata-se de um verdadeiro alerta para a humanidade que segue um rumo de desenvolvimento insustentável. Em relação ao crescimento populacional a carta diz o seguinte:

– reduzir ainda mais as taxas de fecundidade, garantindo que as mulheres e os homens tenham acesso à educação e a serviços de planejamento familiar voluntário, especialmente onde
tais serviços ainda não estão disponíveis.

– estimar um tamanho de população humana cientificamente defensável e sustentável a longo prazo, reunindo nações e líderes para apoiar esse objetivo vital, para evitar miséria generalizada e a perda catastrófica de biodiversidade.

Portanto, os alertas estão dados. Aumentar a escala antropogênica é irracional e arriscado. Para evitar um desastre social, demográfico e ambiental é preciso evitar que cada vez mais pessoas caem no vício do consumismo e caminhar rumo ao decrescimento demoeconômico. A solução passa por uma mudança de paradigma do modelo econômico e pela redução da sobrecarga do Planeta. E como bem mostra o livro “Enough is Enough” (2010), não basta reduzir a pegada ecológica per capita, também é preciso reduzir o número de pés, diminuindo a presença ecúmena e aumentando as áreas anecúmenas.

Referência:

ALVES, JED. Dia mundial de população e as novas projeções demográficas da ONU, Ecodebate, 10/07/2017
https://www.ecodebate.com.br/2017/07/10/dia-mundial-de-populacao-e-as-novas-projecoes-demograficas-da-onu-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

Stuart Basten, Wolfgang Lutz, Sergei Scherbov. Very long range global population scenarios to 2300 and the implications of sustained low fertility. Demographic Research, V. 28, Art 39, 2013, p. 1145-1166
http://www.demographic-research.org/volumes/vol28/39/

DARROCH, J. E. et al. Adding It Up: Investing in Contraception and Maternal and Newborn Health, New York: Guttmacher Institute, 2017.
https://www.guttmacher.org/fact-sheet/adding-it-up-contraception-mnh-2017

O’Neill, D.W., Dietz, R., Jones, N. (Editors), Enough is Enough: Ideas for a sustainable economy in a world of finite resources. The report of the Steady State Economy Conference. Center for the Advancement of the Steady State Economy and Economic Justice for All, UK, 2010.
http://steadystate.org/wp-content/uploads/EnoughIsEnough_FullReport.pdf

Kristin Houser e June Javelosa. David Attenborough: If We Don’t Limit Our Population Growth, the Natural World Will, Futurism, December 19, 2016
https://futurism.com/david-attenborough-if-we-dont-limit-our-population-growth-the-natural-world-will/

Fiona Harvey. “David Attenborough on the scourge of the oceans: I remember being told plastic doesn’t decay, it’s wonderful”, The Guardian, 25 September 2017
https://www.theguardian.com/tv-and-radio/2017/sep/25/david-attenborough-on-the-scourge-of-the-oceans-i-remember-being-told-plastic-doesnt-decay-its-wonderful

Advertência dos Cientistas do Mundo à Humanidade um Segundo Aviso
https://br.sputniknews.com/ciencia_tecnologia/201711149829620-humanidade-ameaca-terrivel/

 

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 08/12/2017

"Attenborough: a humanidade é uma praga que está destruindo o Planeta, artigo de José Eustáquio Diniz Alves," in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 8/12/2017, https://www.ecodebate.com.br/2017/12/08/attenborough-humanidade-e-uma-praga-que-esta-destruindo-o-planeta-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/.

 

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6 comentários em “Attenborough: a humanidade é uma praga que está destruindo o Planeta, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

  1. Os demógrafos, como os economistas, dificilmente se entendem.
    Há alguns anos, antes de se falar em reforma da Previdência, assisti à palestra de um demógrafo. Segundo ele, o Brasil, a partir de 2050, terá um decréscimo preocupante em sua população. Dirigindo-se aos jovens, disse: – Não pensem que vocês gozarão de aposentadoria integral. Quem vai pagar essas aposentadorias?
    Portanto, a meu ver, ao invés de uma campanha maciça para decréscimo da taxa de fecundidade, o que nos transformaria numa população de velhos, é mais urgente rever os velhos métodos de lidar com o meio ambiente.
    Com relação à água, é muito lento o trabalho de se buscar fontes alternativas para seu abastecimento. A ONU recomenda a dessalinização da água do mar e a transformação do esgoto doméstico em água potável, mas isso vem sendo feito a passo de tartaruga.
    Segundo o texto, um terço do solo do Planeta estaria severamente degradado. Ainda bem que a palavra é “severamente” e não “irreversivelmente”. Eventuais problemas alimentares farão com que o solo não somente seja recuperado, mas colocado em melhores condições anteriores a sua degradação.
    A informação de que o solo fértil estaria sendo perdido à taxa de 24 bilhões de toneladas por ano me parece algo fora da realidade, pois a fertilização do solo, inclusive com adubos orgânicos, é algo que vem sendo praticado em praticamente todo o planeta.
    Previsões catastróficas dessa natureza somente fortalecem a opinião de pessoas que se recusam a admitir problemas reais tais como o aquecimento global.

  2. Olá Paulo,
    Não há divergência na demografia sobre estes pontos. O que há é um “fosso demográfico”, ou seja, enquanto alguns países estão com taxas de fecundidade abaixo do nível de reposição (como é o caso do Brasil mostrado no texto) outros países tem fecundidade muito acima da reposição. Na média da população mundial a taxa de fecundidade está em 2,5 filhos por mulher. Neste nível a população global pode chegar a 17 bilhões em 2100. Se a TFT cair para 2 filhos por mulher a população global chega a cerca de 11 bilhões em 2100 e se ficar em 1,75 filho por mulher (nível do Brasil atual), então a população global pode ficar em cerca de 7 bilhões em 2100. A queda da fecundidade pode ajudar a diminuir a pressão antrópica sobre o meio ambiente.
    Mas, evidentemente, precisa também diminuir o padrão de consumo e eliminar as atividades mais degradadoras do meio ambiente. Por isto que eu digo que precisamos de um decrescimento demoeconômico, com aumento do bem-estar humano e ambiental.
    Abs, JE

  3. Paulo, mesmo que a pegada individual de cada humano sobre a Terra diminua (o que é extremamente necessário, concordo), a pegada da humanidade é a multiplicação da pegada individual pela população. Qualquer um dos dois fatores crescendo continuamente resulta na destruição dos ecossistemas do planeta.
    Os economistas podem reclamar, mas o plano deles de crescimento contínuo e exponencial nunca teve chances verdadeiras de dar certo. NADA com crescimento contínuo e exponencial consegue continuar eternamente. E o crescimento exponencial é enganador (https://www.youtube.com/watch?list=PL6A1FD147A45EF50D&v=F-QA2rkpBSY ), tudo parece ótimo até um pouquinho antes da desgraça.
    Nós conseguiremos sobreviver a nos tornar uma população de “velhos”. Não é necessário que não nasçam mais crianças, apenas que elas sejam uma proporção menor da população. Robots já substituem boa parte do trabalho braçal humano hoje, e o trabalho mental pode continuar sendo feito na velhice (inclusive é uma das formas de se evitar demência). Ainda temos uma chance de conseguirmos ficar bem, e ela envolve tanto diminuir a pegada individual de cada humano (o que é mais rápido que diminuir a população, e precisamos de soluções rápidas) quanto diminuir a população.

  4. Necessário sim o controle natalício, entretanto é fundamental o controle e proteção do meio ambiente. Investimentos em saneamento básico, controle de agrotóxicos e fertilizantes químicos para evitar a contaminação das águas superficiais e subterrâneas, proteger e cuidar das terras agricultáveis e conduzir com seriedade a proteção dos biomas do planeta…

Comentários encerrados.

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