Os limites do nosso imaginário e o bem viver, artigo de Claudio Dourado

OS LIMITES DO NOSSO IMAGINÁRIO E O BEM VIVER

Por Claudio Dourado1

[EcoDebateEstamos vivendo um momento de crise incomparável na história da humanidade. Segundo Leonardo Boff raramente houve tanta acumulação de situações de crise como no atual momento. Algumas são conjunturais e superáveis. Outras são estruturais e exigem mudanças profundas.

O Bem Viver ressurge e insurge como uma mirada relacional entre ser humano – ser humano; ser humano – natureza; os humanos de hoje e a ancestralidade; e a relação entre os seres humanos e a dimensão espiritual – ritual. Na verdade o Bem Viver sempre esteve presente nas comunidades. Está na resistência e no envolvimento do povo, por isso, para acobertar, o des/envolvimento passa a ser um dos maiores mitos da modernidade. Através do mito o ser humano busca orientar sua situação no universo, na realidade, uma resposta sociocultural ao problema da vida e é nela que se reflete todo seu sistema de crenças; pelo mito o ser humano pode explicar além do que se pode observar diretamente; o mito oferece-lhe respostas as inquietações perpétuas de suas origens: de onde venho? Para onde vou? Que significação tem a vida e qual é o papel do ser humano hoje?

Porém, estamos vivendo um excesso da razão e de sua hegemonia sobre a linguagem simbólica do mito. Isso provoca um processo de desencantamento do mundo, que atrofia a dimensão do sagrado, espiritual e transcendente que o ser humano interagia com o cosmo, a natureza e a vida; este acelerado processo desmistificação do mundo, traz como consequência também outra crise de sentido, de vazio existencial; e é talvez por isso mesmo, que nunca antes, o ocidente, a modernidade, necessitam tanto do mito para poder explicar as novas e caóticas realidades que a modernidade instituiu e o profundo déficit simbólico que o acompanha.

A angustia existencial e a profunda crise de sentido que estamos vivendo são reflexos das derrocadas dos mitos, como consequência da hegemonia da razão; depois da derrubada dos mitos, encontramos corações aflitos em todos os lugares, assediados por incessantes remorsos, a mente é incapaz de aliviar-se e nos vemos forçados a desafogar-se, mediante lamentações inconformadas.

A definição errônea do mito como falso, mentiroso, que estamos acostumados e que se transmite através dos textos, da escola, e dos meios massivos é resultado de um longo processo do império da razão, por isso que acostumamos a pensar em termos racionais, a crer que só a versão da razão é sinônimo de verdade. Desta forma também, nos roubaram o poder construtor da imaginação simbólica criadora, como uma estratégia chave do poder, para o exercício da colonialidade do ser, do imaginário e das subjetividades.

O mito nasceu para que os seres humanos encontrassem na linguagem simbólica, o sentido da existência, para explicar a origem das coisas, explicar o fogo sagrado da vida e sua inter-relação (todos/as são parte de um cosmo infinito) onde tudo se encontra entrelaçado (interligado).

O mito exerce o papel de regulador moral das sociedades, condiciona certas práticas sociais – RITUAIS; por isso, é tão importante na cultura humana; ele cria coerência nos padrões de significados, significações e sentidos; ajuda a compreender a “ordem” cósmica do mundo e da vida. Além de compreender e sua relação com os costumes e as crenças contemporâneas e o passado.

COMO O MITO SE RELACIONA COM A CULTURA, A RELIGIOSIDADE, A IDEOLOGIA, A HISTÓRIA

O mito é uma fonte produtora de sentido para a reprodução da cultura que o gerou, é vivido coletivamente e tem uma significação transcendente, vive nela e com ela morre, ajuda a justificar sua presença. Se uma cultura desaparece, desaparece o mito ou vice-versa.

O mito expressa a religiosidade e articula a transcendência, o sobrenatural, o sagrado com o profano, com a realidade, possibilita a sustentação das raízes da religião, nutre e leva a práxis, a ação vital do rito e sistematiza essa visão sacral que o mito lhe oferece. É através do ritual que o ser humano poderá falar e se por em contato com Deus.

O ser humano encontra no mito uma resposta cultural ao problema da vida, em que se expressa todo um sistema de atitudes, sua maneira de pensar e perceber a vida, sua mentalidade, seu sistema de crenças, assim como sua práxis vital para dar ordem e sentido ao mundo e a realidade, e encontrar seu papel dentro destes, em definitiva, no mito se expressará sua ideologia.

Em cada processo histórico os mitos são estruturados para explicar a ordem de seu mundo – mitos distintos; novos mitos surgem para justificar a ordem da realidade presente; isto mostra a existência dessa correspondência estrutural entre mito, sociedade e história. Mas, a história dominante não nos dá elementos que permitem entender nem a ordem do mundo, nem encontrar um sentido dentro dele; a história tem-se a concepção apenas do mundo ocidental.

O PENSAMENTO OCIDENTAL E A MODERNIDADE: A MORTE DO MITO E O ENCOBRIMENTO DAS ALTERIDADES

O pensamento ocidental considera a razão, o pensamento filosófico, o logos = lógica, como única possível explicação da realidade e seus mistérios; o que se contrapõe torna-se antagônico; com o surgimento do pensamento ocidental, a filosofia, a razão substitui o mythos como explicação da ordem do mundo e do universo; a razão se torna a única forma de entender a realidade, a ciência o único discurso de verdade, assim como a democracia, a única ordem social possível de conceber a humanidade; visão dominante vidente até nossos dias.

A dicotomia formulada pelo ocidente entre mythos e logos é uma construção ideológica, para justificar uma forma de exercício de poder, uma contradição real em se mesma. Mythos y logos são somente duas formas distintas de conhecimento, de linguagem, que buscam explicar a ordem do universo, do mundo e da vida, o papel do ser humano como parte integrante dos cosmo.

Esta visão hegemônica da razão, do logos sobre o mito, considerando como algo irracional, como a negação da razão é uma imposição ainda vigente, para que façamos do mito, sinônimo de mentira, de irrealidade, de mera fantasia e superstição. Hoje, quando se diz que algo é um mito, está referindo a algo falso, ilusório, absurdo; roubando-nos assim a nossa força construtora de sentido.

Em nome do logos, da razão a civilização ocidental faz da ciência e da técnica, também novos mitos, que segundo o ocidente resolveriam todos os mistérios do universo e todos os problemas da sociedade. É com o discurso de moderno racional e da técnica que o agro/hidronegócio avançam sobre nossas comunidades, discurso que seduz e convence o acesso nos territórios e em nossas mentes.

A modernidade2 faz referência a uma etapa histórica que surge no mesmo momento em que se impõe a matriz colonial-imperial para o exercício da colonialidade do poder, do saber e do ser. Ainda vigente em nosso imaginário como expressão da colonialidade do saber em que define a razão, a ciência e a técnica como discurso de verdades hegemônicas, que supostamente combateriam a obscuridade e a primitividade do mito. A modernidade tinha a pretensão de matar o mito, mas seu paradoxo fez justamente da razão, da ciência e da técnica, seus mitos fundamentais.

É necessário superar essa visão reducionista e equivocada própria da racionalidade ocidentalista, que restringe a linguagem simbólica dos mitos, no terreno da irracionalidade e da anormalidade, negando possibilidades analíticas para a cientificidade atual, pois os consideram como manifestações da irracionalidade e da fantasia humana, próprias das sociedades “primitivas”. A modernidade tem a função de avançar o “saber” e a “comunicação” sobre as trevas, destino manifesto – marcha para o Oeste.

American Progress (1872), de John Gast, Destino Manifesto
American Progress (1872), de John Gast, Destino Manifesto

 

Além de serem incapazes de liquidar os mitos, ambos necessitaram deles para universalizar, legitimar e naturalizar a ordem social dominante; construindo outros mitos para sua reprodução, por isso mitifica a democracia, como única ordem natural possível de construção da sociedade; mitifica o capitalismo, o desenvolvimento, a modernidade, como únicos projetos para alcançar o progresso e a felicidade, como caminhos a seguir, como espelhos para que sejamos simples reflexos e ecos das imagens e discursos do poder; com a usurpação simbólica do mito, para esvaziar o sentido e construir um sentido instrumental ao poder; mitificar as ordens dominantes é um recurso estratégico, necessário para a legitimação do poder e seu exercício, tornando um discurso de verdade que o legitima.

Diante disso os Movimentos Sociais3, mesmo já tendo superado alguns limites, tem a obrigação de extrapolar as práticas sociais que fragmentam as relações humanas e com a natureza, como o princípio de verdade absoluta da racionalidade cartesiana; a dicotomia (metrópole – colônia) como processo de colonialidade do imaginário; o crescimento linear como única saída para o subdesenvolvimento; a dominação monocultural do Estado; a expansão das fronteiras sobre os territórios e espaços de restrição de uso; a proletarização do camponês; a Lei dos dois passos – (tomar o poder e mudar o mundo); romper com as estruturas epistemológicas que transformam as mulheres, negros, índios, não europeus em objetos de conhecimento – não-sujeitos, em seres incapazes de criar um conhecimento válido; a invisibilidade das essenciais da heterogeneidade cultural e seus modos de vida nas lutas de classes para superar as crises ambientais, sociais, econômicas, trabalhistas, etc., nas relações de alteridade nos meios de produção.

O Bem Viver é esse espaço de rupturas e construção de novos horizontes que questiona as situações de exploração. A natureza não é algo separado de nós. A terra e a água é quem produz a vida, não simplesmente fator de produção; Pensar uma estrutura do “desenvolvimento” sem agressão à natureza (livres da dominação e da cultura do descartável); Repensar as relações capital-trabalho sem os arcabouços da dominação e exploração da vida, em sua plenitude; fortalecer os sentidos de nossa identidade – hoje somos por que ontem fomos (identidade); e sentir-se parte do mesmo processo histórico – na organização comunitária, na relação entre os seres humanos e na dimensão espiritual (práticas ritualísticas que dão sentido a existência e a imaginação simbólica criadora).

BIBLIOGRAFIA:

  • https://leonardoboff.wordpress.com/2015/07/20/para-entender-o-fenomeno-da-crise/
  • https://www.estudopratico.com.br/destino-manifesto-e-marcha-para-o-oeste/
  • Lander, Edgardo. Marxismo, eurocentrismo e colonialismo. En publicacion: A teoria marxista hoje. Problemas e perspectivas Boron, Atilio A.; Amadeo, Javier; Gonzalez, Sabrina. 2007 ISBN 978987118367-8. Disponivel em: http://bibliotecavirtual.clacso.org.ar/ar/libros/campus/marxispt/cap. 8.doc
  • Guerrero A.P. (2011). Los horizontes de sentido del mito, En: Corazonar una antropología comprometida con la vida: Nuevas miradas desde Abya-Yala para la decolonización del poder, del saber y del ser; Abya-Yala / U.P.S. Quito.
  • Martins, J. S. (1996). O tempo da fronteira. Retorno à controvérsia sobre o tempo histórico da frente de expansão e da frente pioneira. Tempo Social; Rev. Sociol. USP, S. Paulo, 8(1): 25-70.
  • Pietrafesa, J. P. (2015). Reforma agrária no Brasil e os novos desafios aos movimentos Sociais. In.: IV Seminário Internacional sobre el conflicto interno armado colombiano: El território y la Reforma Agraria integral em el pos conflicto em Colombia. Neiva –Colombia.
  • DUSSEL, Henrique. Mito de la modernidad. El Encubrimiento del otro hacia el origen de. La Paz Plural: Editores, 1992.

1 Antropólogo pela Universidade Salesiana de Quito – Equador; Pós-graduado em Direito Agrário – Universidade Federal de Goiás – Brasil.

2 Para Enrique Dussel a colonização foi amparada no discurso da modernidade, através de um conceito emancipador racional, mas que sustenta um mito irracional, ao tentar justificar a violência, “um processo de encobrimento do não europeu” (1992).

3 Inicialmente, mobilização coletiva de caráter perene, organizada e que realiza, por meio de suas ações, uma crítica aos fundamentos da sociedade atual, baseado nos processos de acumulação de riquezas e concentração do poder, manifestados na forma de território. Atualmente, com novas configurações do direito agrário, diante do massacre hegemônico sobre a diversidade camponesa:

  • Primeiro: movimentos de luta por melhores condições de vida e de trabalho, no meio urbano e no rural, que demandam acesso e condições para terra, moradia, alimentação, educação, saúde, transportes, lazer, emprego, salário etc.

  • Segundo: movimentos identitários que lutam por direitos sociais, econômicos, políticos e, mais recentemente, culturais. São movimentos de segmentos sociais excluídos, usualmente pertencentes às camadas populares (mas não exclusivamente). Podem-se incluir, nesse formato, as lutas das mulheres, dos afro-descendentes, dos índios, dos grupos geracionais (jovens, idosos), grupos portadores de necessidades especiais, grupos de imigrantes sob a perspectiva de direitos, especialmente dos novos direitos culturais construídos a partir de princípios territoriais (nacionalidade, Estado, local), e de pertencimentos identitários coletivos […](Pietrafesa, 2015).

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 06/12/2017

"Os limites do nosso imaginário e o bem viver, artigo de Claudio Dourado," in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 6/12/2017, https://www.ecodebate.com.br/2017/12/06/os-limites-do-nosso-imaginario-e-o-bem-viver-artigo-de-claudio-dourado/.

 

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