Água e modelos de desenvolvimento, artigo de Flávio José Rocha da Silva

Água e modelos de desenvolvimento

Flávio José Rocha da Silva1

[EcoDebate] Certa vez fui convidado para uma conversar com um grupo sobre o tema “O que é desenvolvimento?” Comecei perguntando o que cada pessoa presente entendia pela palavra desenvolvimento e aqueles que aceitaram satisfazer a minha curiosidade deram respostas diferentes umas das outras. Ouvi cerca de quinze conceitos distintos sobre esta que é uma das expressões mais pronunciadas em nosso tempo. Então eu chamei a atenção do grupo para o fato de que se ali, onde quase todos pertencíamos a uma mesma corrente ideológica postulávamos visões tão diversas, isso significava que não existia um só modelo de desenvolvimento a seguir. No entanto, cada vez mais as comunidades onde vivíamos sofriam a imposição do agronegócio de larga escala e a perda dos nossos bens naturais como a água. Tudo isso com as bênçãos de governos eleitos “democraticamente” e organismos internacionais como o Banco Mundial e como resultado de uma cartilha que ensina o que é necessário para se tornar um lugar desenvolvido, segundo eles. No entanto, estes mesmos governos e organismos internacionais, os arautos do “desenvolvimento”, nunca divulgam o que o economista Joan Alier (2007) chama de Mochila Ambiental, ou seja, o impacto negativo que vem escondido com este modelo imposto, em especial para as águas.

O que é entendido como desenvolvimento para o mundo urbano, por exemplo, pode perder completamente o sentido no mundo rural e vice-versa Embora para muitos Desenvolvimento é o nome síntese da ideia de dominação da natureza. Afinal, ser desenvolvido é ser urbano, é ser industrializado, enfim, é ser tudo aquilo que nos afaste da natureza e que nos coloque diante de constructos humanos, como a cidade, como a indústria.” (PORTO-GONÇALVES, 2004, p. 24). Mas há uma situação em que todos concordam: se um modelo de desenvolvimento envenena, exaure, polui e destrói os mananciais de água consumidas pelos seres vivos, este não pode ser um bom modelo pelo simples fato que condena a si próprio a morte. Afinal, o que pode ser mais importante do que a preservação do patrimônio hídrico que é o sustentáculo de toda e qualquer vida no nosso planeta? Sem água nenhum modelo de desenvolvimento pode sobreviver por muito tempo porque a ela é essencial para produzir na agricultura e na indústria. Mas por que a exploram até a exaustão e a poluem? Porque os os donos dos empreendimentos não vivem naquelas comunidades e não sofrerão as consequências dos seus atos. A pilhagem do meio natural não os afetará, já que uma vez exaurido o recurso mudarão para outra área geográfica onde repetirão a mesma operação.

A palavra desenvolvimento tem sido praticamente um mantra cantado pelos mais variados atores políticos nas últimas décadas e é uma palavra “sagrada” tanto para os campos políticos da Direita quanto para uma parte da Esquerda.2 No dizer da professora e ativista Marijane Lisboa (2014), “ela é a ideologia no nosso tempo”. A grande maioria dos políticos promete trazer o desenvolvimento caso sejam eleitos em uma afirmação que deixa subentendido que ali onde pedem votos é um lugar não desenvolvido. Até mesmo algumas pessoas que se contrapõe ao modelo neoliberal muitas vezes reproduzem esta fala sem uma maior reflexão sobre o que defendem e a conexão com a política que condenam.

          O geógrafo Carlos Walter Porto-Gonçalves (2004), alerta que para trazer o que definem como desenvolvimento para o nosso meio, seus defensores precisam nos des-envolver e des-sacralizar os nossos valores e a nossa cultura. Isso é possível porque estes modelos impostos causam o não-envolvimento daqueles e daquelas que são por eles afetados com o seu lugar, muitas vezes fazendo com que absorvam uma outra cultura que facilita a sua dominação e assim percam aos poucos as suas terras e as suas águas. O modelo vai se impondo como o único possível e vai tomando o que pode em nossas comunidades, a começar pela água. Quem não conhece uma história de um riacho que secou por casa do desmatamento para as grandes plantações, um rio desviado para alimentar uma hidrelétrica, uma lagoa que secou para irrigar o agronegócio ou um lençol freático que foi contaminado com agrotóxico. Se atentarmos como tudo começou, encontraremos a promessa de desenvolvimento bem lá no início dos megaprojetos governamentais e dos grandes empreendimentos econômicos. Com ela, o sonho dos empregos, da educação formal ausente, do asfalto desejado, etc. Seus “beneficiados” não sabiam que estariam perdendo a longo prazo com a chegada das grandes obras e das grandes plantações de monocultura. Mas engana-se quem imagina este como um processo recente. Leiam o que disse Gilberto Freyre nos idos da década de trinta do século passado sobre a relação entre as usinas de cana de açúcar do seu Pernambuco e os rios da região. Dizia Freyre (1967, 35) que “ Quase não há um rio do Nordeste do canavial que alguma usina de ricaço não tenha degradado em mictório.” Para ele foi a monocultura da cana (agronegócio) e as usinas industriais (algumas de origem estrangeira) que degradaram os rios, modificando a relação que os ribeirinhos tinham com aqueles naquela região.

Cachoeira de Paulo Afonso, E. F. SCHUTE (1850). Acervo do Masp.
Cachoeira de Paulo Afonso, E. F. SCHUTE (1850). Acervo do Masp.

 

Mas justo quando começamos a perceber que muitas das promessas que utilizam a palavra desenvolvimento vestem uma fantasia para nos encantar, eis que surgiu o termo Desenvolvimento Sustentável. Nós nos atemos mais ao adjetivo do que ao substantivo, já nos lembraram alguns ambientalistas. O desenvolvimento pode ser sustentável? De que sustentabilidade e de que desenvolvimento estariam falando os seus propagadores?

É preciso redimensionar a discussão sobre produção no campo e na cidade e começar a incluir a água como elemento para a sustentabilidade. Quando os governos e a indústria da carne enaltecem esta última porque ela alavanca o Produto Interno Bruto – PIB – como entra no cálculo o consumo de água para produzir um quilo de carne para exportação?3

       Hoje devemos, mais do que nunca, falar em Comunidades Sustentáveis. São as comunidades que devem, de forma verdadeiramente democrática e com um modelo de poder circular e não o velho conhecido modelo piramidal hierárquico, ainda tão presentes no modelo de desenvolvimento imperante, discutir o que é melhor para elas. Esta pode ser a solução para os graves problemas que estamos enfrentando neste momento da nossa história.

É preciso voltar ao envolvimento com a terra e a água, sacralizar os nossos espaços e envolve-los em nossas vidas e, mais que tudo, refletir sobre quem está ganhando com este modelo que está destruindo a nossa Casa Comum.

Referências Bibliográficas

ALIER, Joan Martínez. O ecologismo dos pobres. São Paulo: Editora Contexto. 2007.

FREYRE, Gilberto. Nordeste. Rio de Janeiro: José Olympio. 1967.

LISBOA, Marijane. Em nome do desenvolvimento. In ZHOURI, Norma; VALÊNCIO, Norma. Formas de matar, de morrer e de resistir: limites da resolução negociada de conflitos ambientais. Belo Horizonte: Editora UFMG. 2014. pp. 51-78.

MENDES, Armando Dias. Envolvimento e desenvolvimento: introdução à simpatia de todas as coisas. In CAVALCANTI, Clóvis (Org.). Desenvolvimento e Natureza: estudos para uma sociedade sustentável. São Paulo: Cortez. 2009.

PORTO-GONCALVES. Carlos Walter. O desafio ambiental. Rio de Janeiro; Record. 2004.

SILVA, Flávio José Rocha da Silva. Dessacralizar para desenvolver ou desequilibrar?. Revista de Teologia e Ciências da Religião da UNICAP. v. 2. 2010. pp. 131-136.

1 Flávio José Rocha da Silva é Doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP e autor do e-book infantil “A batalha pelas folhas sagradas” com temática ambiental e que pode ser acessado gratuitamente em https://issuu.com/abatalhapelasfolhassagradas/docs/a_batalha_pelas_folhas_sagradas_-_f

2 Porto-Gonçalves (2004, p. 25) alerta que o discurso dos nacionalistas e socialistas ao questionarem o subdesenvolvimento, almejam a chegada do desenvolvimento. Porém, sem uma crítica ao modelo. “Desse modo, os que criticavam a desigualdade do desenvolvimento contribuíam para fomentá-lo, na medida em que a superação da desigualdade, da miséria, se faria com mais desenvolvimento.”

3 Segundo o site do Waterfootprint (Pegada Hídrica) são necessários 15.400 litros de água para produzir um quilo de carne. Confira em http://waterfootprint.org/en/resources/interactive-tools/product-gallery/

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 17/10/2017

"Água e modelos de desenvolvimento, artigo de Flávio José Rocha da Silva," in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 17/10/2017, https://www.ecodebate.com.br/2017/10/17/agua-e-modelos-de-desenvolvimento-artigo-de-flavio-jose-rocha-da-silva/.

 

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3 comentários em “Água e modelos de desenvolvimento, artigo de Flávio José Rocha da Silva

  1. Ninguem esta ganhando com esse modelo.
    As companhias de agua que jogam o esgoto nos rios sem tratamento perdem com isso.
    Os industriais que poluem os mananciais tambem saem perdendo. Quanto a agricultoresce pecuaristas, nem e preciso dizer.
    Quando o reuso da agua sera uma obrigacao e nao uma opcao?

  2. Excelente artigo. Devemos insistir sempre nessa discussão. Devemos mostrar casos de falsos desenvolvimento com perdas na reserva da água ou na sua contaminação. O assunto continua sendo tratado de maneira superficial e sem ações práticas salutares.

Comentários encerrados.

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