As cinco cidades fluminenses com maior redução das filiações católicas, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

 

[EcoDebate] Por cerca de 500 anos, o Brasil e a América Latina conseguiram resistir ao avanço dos evangélicos, que se espalharam pelo mundo desde o início da Reforma Protestante de 1517. Porém, no século XXI, assim como outros países latino-americanos, o Brasil está passando por uma rápida transição religiosa, com declínio das filiações católicas e aumento das filiações evangélicas, além do aumento do percentual de outras religiões e do percentual de pessoas que se declaram sem religião.

O Estado do Rio de Janeiro é a Unidade da Federação mais avançada na transição religiosa brasileira. É o Estado com menor percentual de católicos em 2010 (45,8%), mas o sexto com maior percentual de evangélicos (com 29,4%), perdendo para o Estado de Rondônia (33,8%), Espírito Santo (33,1%), Acre (32,7%), Amazonas (31,2%) e Roraima (30,3%). Em relação às outras religiões e aos sem religião o Rio de Janeiro apresenta os maiores percentuais do país. Desta forma, o território fluminense é a Unidade da Federação com maior pluralidade religiosa e que mais avançou no processo de desmonopolização de uma única religião. Nota-se que os grupos etários mais jovens estão mais avançados na transição religiosa.

 

O Estado do Rio de Janeiro é a Unidade da Federação mais avançada na transição religiosa brasileira

 

Assim, os católicos que já tiveram o monopólio religioso no Brasil se transformaram em doadores universais. A redução do percentual de católicos no Rio de Janeiro foi de cerca de 1% ao ano na primeira década do século XXI, sendo que cerca de 70% do declínio foi absorvida pelos evangélicos e os demais 30% pelas outras religiões e pelos sem religião. Portanto, a transição religiosa significa desmonopolização e maior pluralidade religiosa.

As cinco cidades fluminenses que apresentaram maior declínio relativo das filiações religiosas na primeira década do século XXI foram Carapebus (queda de 27,8%), Quissamã (-19,7%), Rio das Flores (-16%), Itatiaia (-15,8%) e Iguaba Grande (-15,3%). Enquanto os católicos do Estado do Rio de Janeiro perderam cerca de 1% ao ano entre 2000 e 2010, a perda nestas cinco cidades ficou acima de 1,5% ao ano, sendo que em Carapebus a perda foi de 2,7% ao ano, um recorde impressionante.

A cidade de Carapebus é um município da Mesorregião do Norte Fluminense, e faz divisa com as cidades de Macaé, Conceição de Macabu e Quissamã. O percentual de católicos caiu de 67,8% para 40,1% entre 2000 e 2010 enquanto o percentual de evangélicos subiu de 20,5% para 37,6% no mesmo período. Cresceu muito também as outras religiões e os sem religião. A transição religiosa foi maior nos grupos etários de 0-14 anos e de 15-64 anos. Entre os idosos as mudanças foram mais lentas. Entre a população de 0-14 anos a mudança de hegemonia já ocorreu, pois os católicos tinham 37,7% em 2010 e os evangélicos 40,3%. Isto quer dizer que apenas pela inércia demográfica a transição deve continuar na segunda década do século XXI.

 

 

A cidade de Quissamã é outro município do Norte Fluminense e faz divisa com Carapebus, Conceição de Macabu e Campos dos Goytacazes. A queda dos católicos foi de quase 2% ao ano, passando de 77,9% para 58,2% entre 2000 e 2010. No grupo 0-14 anos a queda dos católicos foi ainda maior, 23% em dez anos. Os evangélicos eram apenas 12,1% em 2000 e passaram para 23,5% em 2010.

 

 

A cidade de Rio das Flores é um município da microrregião de Barra do Piraí e da mesorregião Sul Fluminense. Os municípios limítrofes são Paraíba do Sul, Santa Bárbara do Monte Verde (MG), Valença e Vassouras. A queda dos católicos foi de 16% entre 2000 e 2010, os evangélicos apenas com 17,7%, sendo que as outras religiões alcançaram 13,6% e os sem religião com 10,7% em 2010.

 

 

A cidade de Itatiaia é um município da Mesorregião do Sul Fluminense, quase na divisa com São Paulo e na fronteira das cidades de Bocaina de Minas (MG) e Resende. O percentual de católicos caiu quase 16%, passando de 71,4% em 2000 para 55,6% em 2010. Os evangélicos subiram quase 10%, também subiram, as outras religiões e os sem religião. Assim, como os demais municípios a transição é mais avançada entre as gerações mais novas.

 

 

A cidade de Iguaba Grande é um município da mesorregião dos Lagos, fazendo divisa com os municípios: Araruama, Arraial do Cabo e São Pedro da Aldeia. A queda dos católicos foi de cerca de 15%, passando de 55,5% em 2000 para 40,2% em 2010. Entre o grupo de 0-14 anos a queda foi de 48,1% para 30,9% no mesmo período e os evangélicos já ultrapassaram os católicos em 2010 nesta faixa etária. Ou seja, neste grupo etário os evangélicos já ultrapassaram os católicos. A parcela dos sem religião é também muito elevada para a população total do município (20%) e na faixa 0–14 anos os sem religião (28,7%) quase empatam com os católicos (30,9%).

 

 

Estas cinco cidades fluminenses foram aquelas em que os católicos caíram mais de 1,5% ao ano, sendo que em Carapebus a queda foi de 2,7% ao ano, na última década, muito acima da média de 1% ao ano do Estado do Rio de Janeiro. Apesar disto, eles não são os municípios onde existe a menor presença católica.

No território fluminense existem 14 cidades onde os católicos têm participação abaixo de um terço da população. Em especial, há quatro municípios onde a presença católica está abaixo de 30%, são eles: Queimados (26,3%), Japeri (26,3%), Silva Jardim (26,9%) e Seropédica (27,4%).

Concomitante à queda dos católicos e ao aumento dos evangélicos, cresce também o número de jovens sem religião. Há que se destacar que no município de Japeri o percentual de pessoas que se declaram sem religião, em 2010, foi de 29,8%, portanto, mais do que o percentual de católicos (o percentual de evangélicos foi de 38,2% em 2010).

Segundo Silvia Fernandes, em entrevista no site IHU, na Baixada Fluminense “a desvinculação ou desinstitucionalização religiosa entre os jovens de 15 a 29 anos é maior do que a adesão ao pentecostalismo e isso é muito interessante, especialmente porque sempre se compreendeu que o pentecostalismo nas periferias urbanas seria a alternativa mais plausível, graças a sua oferta pragmática de cura e prosperidade”.

No artigo “Ventos secularizantes: ateus, agnósticos e pessoas sem religião no censo brasileiro de 2010”, publicado no Ecodebate (Alves, 10/04/2015) chamai a atenção para dois fenômenos. Primeiro, é que o percentual de pessoas que se declaram sem religião cresce com o aumento da disputa entre católicos e evangélicos. Ou seja, maior pluralidade religiosa significa maior presença de pessoas sem religião. Segundo, o percentual de sem religião é maior entre os jovens que nasceram depois de 1980. Isto quer dizer que a tendência a uma maior secularização da população brasileira como um todo deve aumentar na medida em que estas gerações mais jovens envelheçam.

Portanto, as indicações são de que a transição religiosa, em todas as suas dimensões, está se aprofundando e se acelerando no Estado do Rio de Janeiro. Evidentemente, ninguém sabe, com certeza, como será o futuro. Mas se o Rio de Janeiro for o “Brasil amanhã”, pode-se esperar um destino menos católico, mais evangélico e com maior pluralidade religiosa (inclusive com maior presença das pessoas que se declaram sem religião). Pesquisa do Instituto Datafolha, de 2016, mostra que a transição religiosa está se acelerando no país. Mas somente o Censo demográfico de 2020 vai poder dar um panorama mais amplo sobre a segunda década do século XXI e o novo desenho religioso do Brasil.

Referências:
ALVES, J. E. D; NOVELLINO, M. S. F. A dinâmica das filiações religiosas no Rio de Janeiro: 1991-2000. Um recorte por Educação, Cor, Geração e Gênero. In: Patarra, Neide; Ajara, Cesar; Souto, Jane. (Org.). A ENCE aos 50 anos, um olhar sobre o Rio de Janeiro. RJ, ENCE/IBGE, 2006, v. 1, p. 275-308
https://pt.scribd.com/doc/249670739/A-dinamica-das-filiacoes-religiosas-no-Rio-de-Janeiro-1991-2000-Um-recorte-por-educacao-cor-geracao-e-genero

ALVES, JED, CAVENGHI, S. BARROS, LFW. A transição religiosa brasileira e o processo de difusão das filiações evangélicas no Rio de Janeiro, PUC/MG, Belo Horizonte, Revista Horizonte – Dossiê: Religião e Demografia, v. 12, n. 36, out./dez. 2014, pp. 1055-1085
http://periodicos.pucminas.br/index.php/horizonte/article/view/P.2175-5841.2014v12n36p1055/7518

ALVES, JED. Ventos secularizantes: ateus, agnósticos e pessoas sem religião no censo brasileiro de 2010, Ecodebate, 10/04/2015
http://www.ecodebate.com.br/2015/04/10/ventos-secularizantes-ateus-agnosticos-e-pessoas-sem-religiao-no-censo-brasileiro-de-2010-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

IHU, Desvinculação religiosa entre os jovens é maior do que a adesão ao pentecostalismo. Entrevista especial com Silvia Fernandes a Patricia Fachin, 25/04/2017
http://www.ihu.unisinos.br/espiritualidade/159-entrevistas/566902-desvinculacao-religiosa-entre-os-jovens-e-maior-do-que-a-adesao-ao-pentecostalismo-entrevista-especial-com-silvia-fernandes

 

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 30/06/2017

As cinco cidades fluminenses com maior redução das filiações católicas, artigo de José Eustáquio Diniz Alves, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 30/06/2017, https://www.ecodebate.com.br/2017/06/30/as-cinco-cidades-fluminenses-com-maior-reducao-das-filiacoes-catolicas-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/.

 

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Um comentário em “As cinco cidades fluminenses com maior redução das filiações católicas, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

  1. O catolicismo continuará a perder adepto. Abraçou o lado errado, ou seja, “o lado escuro da força”, mediante sua integração com o materialismo marxista, que chamam, também, de socialismo. Não dá para ser cristão e marxista politiqueiro como ocorre na Santa Madre Igreja. A tal da CNBB está, com seus posicionamentos, destruindo o catolicismo no Brasil. Vamos à Missa ouvir padres e padrecos fazerem a apologia (sectária) de certo partido que afundou o Brasil e o colocou numa crise econômica, social, moral, ética jamais vista. Triste, muito triste, mesmo.

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