A extinção massiva dos rios brasileiros, artigo de Roberto Malvezzi (Gogó)

 

– Lembrando o 4 de outubro, dia de São Francisco –

 

Desde janeiro deste ano, a vazão mínima da Usina Hidrelétrica de Sobradinho, no Rio São Francisco, está em 800 metros cúbicos por segundo. Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

 

[EcoDebate] O fenômeno da Pororoca, mundialmente conhecido, já não existe mais. Você sabia disso? As águas do rio Araguari, no Amapá, já não têm forças para chegar à foz e sofrer a força reversa das águas, o que gerava as ondas. Construíram barragens em seu leito para gerar energia, que vem para o sul do país, além de pisotear suas margens com manadas de búfalos.

As águas do Araguaia estão cada vez mais escassas. Muitos de seus afluentes, antes perenes, agora também são intermitentes.

O São Francisco agora terá uma vazão de apenas 700 m3/s. Um rio que, segundo o discurso oficial do antigo governo federal, tinha uma vazão “firme” de 1800 m3/s a partir de Sobradinho. E olha que a Transposição sequer começou. Onde Domingos Montagner morreu, na verdade, o que existe é um fiapo de água, em comparação com o que era o Cânion do São Francisco.

O mais emblemático, sem dúvida, é o rio Doce. A tragédia da Samarco não tem precedentes em território nacional, mas está sendo tratada como algo secundário e como se fosse apenas um acidente de percurso.

Se falarmos, então, da qualidade de nossas águas, teremos que lembrar do Tietê e do Pinheiros, a cara, a cor e o cheiro do desenvolvimento de São Paulo.

O que acontece não é fruto apenas de como se trata as calhas principais de nossos rios, mas de todo o desmatamento do território dessas bacias. A destruição do Cerrado – reconhecimento rotineiro nos meios científicos e socioambientais – levará consigo os rios que dependem do Cerrado. Já em 2004 tínhamos a informação que, apenas no Norte de Minas, cerca de 1200 rios menores tinham sido eliminados. Sem o Cerrado, nos dizem os cientistas, não haverá São Francisco, Araguaia e tantas rios que dependem dos aquíferos do Planalto Central. A criação do MATOPIBA – território do agronegócio no Cerrado – levará às profundezas esse modelo predador do bioma.

A curva de decadência de nossos rios coincide exatamente com a expansão das monoculturas, seja de grãos, de gado, ou outra qualquer. É só comparar os gráficos a partir da década de 1970.

Assim, nesse dia de São Francisco, como os profetas dos tempos antigos, que amaldiçoavam o dia que tinham nascido, não nos cansamos de trazer más notícias, ainda que sejam em forma de denúncia (Jeremias 20,14-18).

Toda classe política, todo mundo econômico – exceções de sempre – está a alguns anos-luz distante de enxergar o país por esse ângulo. Então, prosseguimos em linha reta rumo ao abismo.

Roberto Malvezzi (Gogó), Articulista do Portal EcoDebate, possui formação em Filosofia, Teologia e Estudos Sociais. Atua na Equipe CPP/CPT do São Francisco.

 

in EcoDebate, 04/10/2016

A extinção massiva dos rios brasileiros, artigo de Roberto Malvezzi (Gogó), in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 4/10/2016, https://www.ecodebate.com.br/2016/10/04/a-extincao-massiva-dos-rios-brasileiros-artigo-de-roberto-malvezzi-gogo/.

 

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Um comentário em “A extinção massiva dos rios brasileiros, artigo de Roberto Malvezzi (Gogó)

  1. Tomei um susto enorme com o texto do Malvezzi: a pororoca acabou?
    Relendo o texto com atenção, percebi que ele não se refere à pororoca na foz do Rio Amazonas, mas na foz do Rio Araguari. Como se sabe, esse rio tem cerca de 200 quilômetros de extensão e um desnível entre nascente e a foz de 80 metros, enquanto ao longo do Rio Amazonas, o desnível a partir de Manaus ao oceano, no Amapá, é de 16 metros em mais de mil quilômetros de extensão.
    Os lagos das hidrelétricas comprometeram esse enorme desnível ao longo do Rio Araguari.

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