A destruição da Mata Atlântica, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

 

“A floresta precede os povos. E o deserto os segue”
Chateaubriand

 

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[EcoDebate] Na chegada dos Portugueses ao Brasil, a primeira vítima (o pecado original) foi uma árvore derrubada para a construção da cruz que serviu de símbolo para a primeira missa, rezada por Frei Henrique de Coimbra, no dia 26 de abril de 1500, um domingo, na praia da Coroa Vermelha, em Santa Cruz de Cabrália, no litoral sul da Bahia. Muitas outras árvores foram abatidas posteriormente para o comércio do Pau-Brasil, enquanto o bioma como um todo ia definhando e desaparecendo com o progresso da nova civilização luso-brasileira.

Antes da chegada de Pedro Álvares Cabral (ver vídeo do Porta dos Fundos), a Mata Atlântica cobria cerca de 1,3 milhão de quilômetros quadrados (km²) do território nacional, abarcando todo o litoral do país entre o Chuí, no Rio Grande do Sul, ao Piauí, além de se espalhar pelo interior até partes do Mato Grosso do Sul e Goiás.

Nos primeiros séculos da colonização lusitana houve o genocídio da população indígena e, ao longo do período, aconteceu o repetitivo e prolongado “estupro coletivo seguido de morte” da floresta virgem. Atualmente restam apenas cerca de 163 mil km², ou pouco mais de 12%, da floresta original. E esses remanescentes estão espalhados em áreas de difícil acesso e sem a existência de corredores ecológicos para facilitar o intercâmbio da biodiversidade e a mobilidade dos poucos animais sobreviventes. A Mata Atlântica, em sua grandeza, é o bioma mais devastado da História do país.

A Fundação SOS Mata Atlântica e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) divulgaram, na semana passada, os novos dados do Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica, no período de 2014 a 2015. Por incrível que pareça, o desmatamento continua a ferro e fogo. O estudo apontou o desmatamento de 18.433 hectares (ha), ou 184 Km², de remanescentes florestais nos 17 Estados da Mata Atlântica no período de 2014 a 2015, um aumento de 1% em relação ao período anterior (2013-2014).

O relatório mostra que o estado de Minas Gerais, que vinha de dois anos de queda nos níveis de desmatamento, voltou a liderar o desmatamento no país, com decréscimo de 7.702 ha (alta de 37% na perda da floresta). A vice-liderança ficou com a Bahia, com 3.997 ha desmatados, 14% a menos do que o período anterior. Já o Piauí, campeão de desmatamento entre 2013 e 2014, ocupa agora o terceiro lugar, após reduzir o desmatamento em 48%, caindo de 5.626 ha para 2.926 ha.

A Fundação SOS Mata Atlântica mostra que a exemplo dos últimos anos, esses três estados se destacam no ranking por conta do desmatamento identificado nos limites do Cerrado. O Piauí abriga o município Alvorada do Gurguéia, responsável pela maior área desmatada entre todas as cidades do Brasil. Entre 2014 e 2015, foi identificado decremento florestal de 1.972 hectares no local. Os municípios baianos de Baianópolis (824 ha) e Brejolândia (498 ha) vêm logo atrás, seguidos pelas cidades mineiras de Curral de Dentro (492 ha) e Jequitinhonha (370 ha), localizadas na região conhecida como triângulo do desmatamento, que abriga ainda Águas Vermelhas (338 ha), Ponto dos Volantes (208 ha) e Pedra Azul (73).

O gráfico abaixo indica que a taxa de desflorestamento anual da Mata Atlântica está caindo, mas está longe de chegar ao desmatamento zero, sendo que o ideal seria o desmatamento negativo, ou seja, que houvesse um aumento da cobertura florestal. No ritmo atual, o Brasil deve chegar ao desflorestamento zero somente quando todo o bioma for destruído!

 

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O Brasil e o mundo possuem uma grande dívida com a Mata Atlântica e precisam reparar o sofrimento que causaram a milhões de milhões de seres inocentes e indefesos da biodiversidade existentes nos 1,3 milhão de km² da área original. Além dos cortes, a perda de cobertura vegetal está relacionada com a degradação das nascentes dos rios e com o assoreamento e perda dos recursos hídricos. O desastre da Samarco/Vale/BHP que provocou tantos danos em Mariana, Minas Gerais, e em todo o rio Doce é mais um elemento que se soma à catástrofe secular que atinge toda a Mata Atlântica. Os rios São Francisco e Paraíba do Sul são outros grandes rios que sofrem com e conjuntamente à destruição da Mata Atlântica.

Evidentemente existem alternativas para reverter o assassinato em massa da Mata Atlântica. Uma iniciativa interessante ocorre com o projeto Olhos D’água, do Instituto Terra, do fotógrafo Sebastião Salgado, que busca recuperar áreas da Mata Atlântica, concomitantemente à recuperação das nascentes. O trabalho de recuperação hídrico-florestal promovido pelo Instituto começou na fazenda da família do fotógrafo, onde a terra foi arrasada para garantir a sobrevivência e o progresso da família Salgado. Há 16 anos, a mata não existia e no local só tinha pasto.

Numa atitude autocrítica e afinada com os ideais ecocêntricos, Sebastião Salgado conseguiu recuperar 700 hectares de Mata Atlântica. O local fica em Aimorés, em Minas Gerais, perto da divisa do Espírito Santo. Ele havia viajado o mundo inteiro fotografando e, quando voltou ao local de nascimento, comprou a fazenda do pai e junto com a esposa, decidiu reflorestar o local. Agora, o Instituto espalha o conhecimento, fornece materiais e financia o projeto para toda a bacia do Rio Doce. Este é um exemplo que pode ser copiado e ampliado, inclusive como alternativa ao desastre da Samarco/Vale/BHP de 2015.

 

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Uma outra iniciativa é a criação do corredor ecológico Rio das Velhas-Paraopeba, em Nova Lima, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH). A Associação Comunitária Promutuca defende a manutenção e ampliação de uma faixa de mata em torno do Ribeirão do Mutuca ligando os importantes remanescentes florestais separados pelas atividades antrópicas dos dois grandes rios que cortam a RMBH. Isto propiciaria a livre mobilidade e o deslocamento entre as espécies animais e a permuta genética entre a fauna e a flora da região. Seria uma forma de reverter, pelo menos em parte, a perda da biodiversidade e o empobrecimento ambiental desta rica área de montanha e fonte de inúmeras nascentes dos afluentes da bacia do rio São Francisco.

O estado de Minas Gerais, grande explorador de minérios, foi o líder do desmatamento do que restou da Mata Atlântica, no período 2014-2015. Mas os exemplos do Instituto Terra e do Promutuca mostram que o estado pode se tornar o líder do reflorestamento, da recuperação das nascentes e da revitalização dos rios. Quem sabe, em um futuro próximo, o Estado mude de nome e ao invés de Minas Gerais (MG), passe a se chamar Matas Gerais (MG)!

Referências:

ALVES, JED; GRILLO, J. Corredor ecológico Rio das Velhas-Paraopeba em Nova Lima, Ecodebate, RJ, 01/08/2012

Criação de CORREDOR ECOLÓGICO exige participação dos moradores

Porta dos Fundos, Colonizado, 21/04/2016 https://www.youtube.com/watch?v=ViIBcsGdYDM

Sebastião Salgado, O Instituto Terra

SOS Mata Atlântica, MG volta a liderar ranking de desmatamento, 25/05/2016

 

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

 

in EcoDebate, 30/05/2016

A destruição da Mata Atlântica, artigo de José Eustáquio Diniz Alves, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 30/05/2016, https://www.ecodebate.com.br/2016/05/30/a-destruicao-da-mata-atlantica-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/.

 

[CC BY-NC-SA 3.0][ O conteúdo da EcoDebate pode ser copiado, reproduzido e/ou distribuído, desde que seja dado crédito ao autor, à Ecodebate e, se for o caso, à fonte primária da informação ]

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8 comentários em “A destruição da Mata Atlântica, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

  1. Excelente o artigo do José Eustáquio.
    Envergonho-me que a nossa Minas Gerais seja um destaque negativo pelos altos índices de desmatamento. Talvez seja um pouco da política suicida governista de comando/controle. Uma lei que é exemplo para todo mundo, mas não funciona porque o estado está falido, corrompido e tudo vira cinzas.
    Apenas uma correção que o bioma Mata Atlãntica muito pouco colabora com a Bacia do São Francisco, cujas águas são divididas por cadeias de montanhas. O Vale do Paraíba está 100% na Mata Atlântica, mas também sofre as consequências da insensatez das pessoas e governos que teimam em fazer leis absurdas, sem eficácia e sem apoio da sociedade, que é o agente principal de mudança.

  2. Só gostaria de saber é: se Portugal e os Portugueses ainda são os responsaveis pela destruição da mata atlantica no Brasil?!

  3. Olá José de Castro,

    Obrigado. Eu também fico triste com o desmatamento em Minas. Até propus mudar o nome para Matas Gerais (MG).
    Quando falei no São Francisco estava pensando nas bacias do rio das Velhas e do rio Paraopeba que conheço bem e onde vi, desde menino, muita destruição.
    Abs, JE

  4. Olá Artur,

    Claro que Portugal não é responsável pelo que acontece hoje no Brasil. Mas a responsabilidade inicial é bem clara como no famoso livro de Warren Dean que usei como inspiração:
    “A ferro e fogo: a história e a devastação da Mata Atlântica brasileira”. Veja resenha:
    “Um dos primeiros atos dos portugueses que chegaram ao Brasil em 1500 foi abater uma árvore para montar a cruz da primeira missa. Nesse gesto premonitório fez-se a primeira vítima da ocupação européia da Mata Atlântica que cobria boa parte do território brasileiro. Nos cinco séculos que se seguiram, cada novo ciclo econômico de desenvolvimento do país significou mais um passo na destruição de uma floresta de um milhão de quilômetros quadrados, hoje reduzida a vestígios. É esse desdobramento trágico de uma lógica sempre apresentada como inexorável pelos defensores da civilização que Warren Dean conta neste livro pioneiro de história ambiental, trazendo uma visão nova e polêmica da história do Brasil.”
    https://books.google.com.br/books/about/A_ferro_e_fogo.html?hl=pt-BR&id=BUK52RSW8xEC

    Abs, JE

  5. Prezados, boa noite!

    A matéria de José Eustáquio será publicada em nosso site no dia 1 de junho de 2016. Será a primeira notícia que tem tudo a ver com nosso perfil.
    Todos os créditos serão rigorosamente respeitados.

    [CC BY-NC-SA 3.0][ O conteúdo da EcoDebate pode ser copiado, reproduzido e/ou distribuído, desde que seja dado crédito ao autor, à Ecodebate e, se for o caso, à fonte primária da informação ].

  6. “A floresta precede os povos. E o deserto os segue”
    Chateaubriand
    Henrique Cortez e José Eustáquio, muito interessante a matéria. Estamos sediados no Médio Rio Doce e trabalhamos com restauração florestal nestes últimos 10 Anos. Nosso trabalho de recuperação é implantado em APPs de reservatórios de usinas hidrelétricas, a compensação exigida pelo Poder Público. Durante o período mencionado a empresa plantou em torno de 1000.000 de arvores nativas da Mata Atlântica e Cerrado e cumpre a exigência das contratantes de entregar o reflorestamento com o índice de 80% de sobrevivência. Um de nossos fornecedores de mudas é o tão elogiado e competente “Instituto Terra”, iniciativa da festejada família de Sebastião Salgado. Obrigado por nos dar a oportunidade e compartilhar as matérias do ECODEBATE.

  7. Prezado Victor Hugo,

    Nada há que agradecer. O EcoDebate é copyleft exatamente para ser reproduzido. Acreditamos firmemente na socialização da informação e incentivamos que ela circule livremente.

    Henrique Cortez, henriquecortez@ecodebate.com.br
    editor da revista eletrônica EcoDebate, ISSN 2446-9394

  8. E, assim, o capitalismo vai cumprindo sua destruidora missão, enquanto o Presidente da República – em exercício – declara em rede nacional, em 01/06/2016, ter como meta o crescimento econômico sustentável.

    (Será que ele – Presidente, em exercício – tem noção, mesmo que mínima, do que está afirmando?????????????????????????????????????????)

    Sob o domínio do capitalismo, a vida que há no Brasil e em todo o planeta Terra se encontra em contínuo estado de extinção, sem a menor possibilidade de recuperação.

Comentários encerrados.

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