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Artigo

1889 outra vez! artigo de Daniel Clemente

 

opinião

 

[EcoDebate] Após uma semana do anuncio de sua morte, o Ministério da Cultura renasce sob os sopros de vida disparados pela classe artística e intelectual brasileira. A rejeição do apagar das luzes possibilitou enxergar um país atolado no lamaçal patriarcal com a exclusão das mulheres na formação da nova equipe ministerial do “governo gestor em exercício”, e de suas raízes escravocratas fincadas na história na negativa da inclusão social de uma sociedade racializada e preconceituosa.

Aos brados de vitória diversos setores classistas e suas representações aplaudiram o sepulcro do Ministério da Cultura como se fosse um golpe desferido ao oponente já caído ao chão, justificando a ação com rotulagens degenerativas aos acobertados pela atuação do órgão. O sentimento revanchista cegou e anulou conceitos democráticos, assim dizia Millôr Fernandes: “democracia é quando eu mando em você, ditadura é quando você manda em mim”.

A cultura como patrimônio inalienável e pertencente ao povo tornou-se espinha dorsal na formação social do entendimento do “ser brasileiro”, afastando-se da padronização das referências civilizatórias de fins do século XIX para o abrangente multiculturalismo, sendo o resgate das raízes diversas promotoras da riqueza cultural nacional. Antes separados por abismos regionalistas, agora integrados pela valorização da multiplicidade artística, o Ministério da Cultura atua como ponte promovendo o retrato territorial e social do Brasil.

A extinção de ministérios acolhe o apelo das alegações contrárias ao inchaço da máquina pública, cara e ineficiente, burocrática e ineficaz. Porém, o desmonte dos conceitos sobre a atuação do poder público atingiu o Ministério da Saúde sob sua nova face: “o País não conseguirá sustentar mais as obrigações previstas na Constituição e precisa rever o tamanho do Sistema Único de Saúde (SUS)”. A receita é bem simples e didática; é mais fácil eliminar os problemas do que encontrar as soluções.

Sendo o maior financiador de Best Sellers do mundo, o Ministério da Educação concentra os piores índices custo-benefício, com resultados vergonhosos. Porém, sua nova equipe encontrou o vilão: o professor. Muitos Estados clamam pelo fim do piso nacional salarial dos magistrados, alegando altos custos, desproporcionais com os propósitos do investimento. É a morte prematura do futuro considerar a educação como despesa, não há horizonte sem investimento na educação universalizada, sob quaisquer condições econômicas.

Um governo decrépito em seu nascedouro artificial, mascarado de inovador e sagaz, responde novas questões com velhas respostas, saqueia consciências apontando o medo, institucionaliza a desigualdade disfarçando-a de meritocracia. Um retrocesso histórico, posicionamento comparável ao ano de 1889, onde a oligarquia rural modelou a nova república brasileira em defesa de interesses setoriais, um Estado paternalista ao capital e insuficiente aos desprovidos de recursos rentáveis. “A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”.

Daniel Clemente
Professor de História
Colégio Adventista de Santos
Pós Graduando História Sociedade e Cultura PUC-SP

 

in EcoDebate, 25/05/2016

[cite]

 

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2 thoughts on “1889 outra vez! artigo de Daniel Clemente

  • lincoln gambier

    Será que o caos descrito pelo autor é debitado a um governo que tem apenas algumas semanas de vida, ou deve ser devido ao desgoverno que dirigiu este País nos últimos 13 anos?

    Afinal, deste desgoverno tão desacreditado pela imensa maioria da população, foi encimado por uma mulher assesssorada por inúmeras outras Ministras e Secretárias de estado. Deu no que deu. Será machismo anseiar por um governo mais sério e competente?

  • Caro Prof. Daniel Clemente,
    Muito interessante seu artigo. Concordo que o Ministério da Cultura jamais deverá ser extinto. Por outro lado, você faz uma comparação entre o momento atual e o ano de 1889, quando ocorreu a proclamação da República, ou seja, você é a favor da Monarquia.
    A Monarquia Brasileira foi uma solução de compromisso que deu certo. Seu objetivo era o de romper os laços com Portugal sem que o país se fragmentasse. Os republicanos aderiram ao movimento pela independência com uma ressalva: teríamos D. Pedro I sem II.
    Entretanto, a Monarquia durou 67 anos, muito acima do esperado. O golpe militar que depôs D. Pedro II e colocou o país no regime republicano foi um grande avanço. O próprio imperador sabia que, mais cedo ou mais tarde isso teria que acontecer. Conta-se que, em um baile, ele escorregou e inúmeros cortesãos correram para ampará-lo. Ele, que não gostava de salamaleques, teria dito: – Calma, pessoal! A Monarquia escorregou, não caiu.

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