A árvore, conto de de Laís Vitória Cunha de Aguiar

 

árvore
Imagem: EBC

 

[EcoDebate] Para qualquer transeunte presente naquela rua, ele parecia perdido. A verdade, porém, estava longe disso.

O único local em que se perdia era no passado das suas próprias memórias.

A movimentada rua, cheia de pessoas usando máscaras para respirar, atolada de carros e máquinas, transparecia ao senhor, através do singelo véu do tempo, diferente.

Em sua memória a quantidade de carros e gente era drasticamente menor, e já a de árvores, maior.

Algo inédito no presente, porém comum no passado, o fazia sorrir: crianças brincando na rua.

Primeiramente via a si mesmo correndo atrás de uma bola, tentando alcançar um gol.

Depois, observava os jovens enquanto passava pela rua, que já não era mais a mesma, a quantidade de árvores diminuíra e a qualidade do ar era bem pior.

Ele olhava com especial carinho por duas memórias.

A primeira era de si mesmo experimentando a água da chuva, a cabeça para trás, os olhos fechados para sentir as gotas. Felicidade momentânea, porém infinita.

A outra era de sua melhor amiga de infância se balançando em uma árvore, rindo para o ar.

‘Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, diriam.’- Os jovens não eram mais os mesmos, pensava o senhor.

Mas a verdade resta solene nos sentimentos humanos, os quais são imutáveis. Se as crianças não mais sentiam o gosto da chuva, era porque esta estava tóxica, se não se balançavam nas árvores, era porque não havia mais árvores.

Ele andou lentamente pela rápida multidão, sendo que os apressados esbarraram nele diversas vezes.

Não ligava. A pressa pertence ao presente, e a calma ao passado.

Carregava um regador vermelho pela movimentada rua vestida de cinza.

Uma única árvore restara em toda rua. Sua árvore. Cuidaria dela pelo resto da vida, assim como cuidou da própria vida.

Por trás da máscara de oxigênio havia um sorriso. Sentia-se feliz como se fosse criança, afinal estava cuidando do último símbolo de sua infância. O último fio vivo que o ligava ao passado.
Com seu regador vermelho regou a árvore lentamente, com uma paciência pertencente somente aos que amam.

Regava também sua esperança, esperança de que um dia as pessoas se erguessem e lutassem contra o cinza que sua vida estava se tornando, o que incluía sua saúde, pois lera recentemente que o mundo gastou 7.3 bilhões de dólares só em 2015 com doenças respiratórias causadas por poluição atmosférica (estudo da AWEA).

De onde vem essa poluição atmosférica? Dos combustíveis que poluem, do petróleo que mata.

Esse senhor passara a vida procurando por soluções tecnológicas para poluição, alternativas sustentáveis.

Muitas vezes fora bem sucedido em sua empreitada, porém quem gostaria de mudar algumas práticas? Poucas pessoas.

Seus esforços perderam-se entre um novo carro da moda e um novo celular. A árvore, para ele, representava vida e esperança na renovação, que sempre ocorre, assim como as folhas da árvore sempre se renovam, e, apesar de todas serem verdes, são sempre diferentes.

A questão é que devemos mudar hoje, pois se não mudarmos a raiz da nossa árvore pode se exaurir, e como todos sabem isso significa o fim.

Laís Vitória Cunha de Aguiar, 19, é ativista ambiental, estudante de Ecologia da UFPB e comunicadora popular pela Adopt a Negotiator, uma organização mundial que engloba jovens de diversos países com objetivo de divulgar o que ocorre nas negociações climáticas.

 

in EcoDebate, 19/04/2016

[cite]

 

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Um comentário em “A árvore, conto de de Laís Vitória Cunha de Aguiar

  1. Parabéns, fiquei muito emocionado com seu conto, sua sensibilidade também está se tornando rara nos dias atuais. Reportei à minha infância e senti na pele a poseia de seu conto.

    Obrigado Lais.

Comentários encerrados.

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