Jovens na Adaptação Climática, artigo de Laís Vitória Cunha de Aguiar

 

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[EcoDebate] Jovens trabalhando com meio-ambiente não é novidade. Acredito, porém, que é sempre bom ter esperança, para isso vou apresentá-los a alguns jovens que se dedicam a uma área não tão comentada dentro das ciências climáticas, que é a Adaptação Climática.

Eu mesma, apesar de já ter lido muito sobre IDCs e outros termos técnicos, nunca havia me aprofundado na questão da Adaptação Climática.

O que significa esse termo?

‘Adaptação se refere aos ajustes nos sistemas ecológicos, sociais, ou até em resposta as atuais ou esperadas mudanças (climatic stimuli), assim como aos seus efeitos e impactos. Se refere a mudanças em processos, práticas e estruturas para moderar danos em potencial ou se beneficiar de oportunidades associadas com mudança climática.’- UNFCC (http://unfccc.int/focus/adaptation/items/6999.php )

Quais exemplos?

Adaptar os prédios para caso de terremoto, como no Japão, construir barragens para conter o avanço do mar, como na Holanda (Oosterscheldekering), plantar espécies de árvores menos vulneráveis a tempestades e ao fogo, fazer corredores ecológicos, como temos no Brasil (corredor Capivara-Confusões e Caatinga), e, até usar a água de forma inteligente.

Quais jovens?

A luta contra a mudança climática e em favor de um mundo melhor ocorre diariamente nos mais diversos locais, como no Kenya, Zimbabwe e Indonésia. O que nos traz esperança é a percepção de tantos jovens, dos mais diversos lugares, neste trabalho.

Yabunga Julius (24), no Kenya, é ‘apaixonado por conservação ambiental e ama servir a humanidade através do voluntariado.’ Trabalha em Recursos Humanos, e, como voluntário, com Ecossistema Baseado na Agricultura, com Segurança Alimentar.

Elizabeth Gulugulu, em Zimbabwe, é recém-formada em Ciências Ambientais. Por já ter sido voluntária na área ambiental conseguiu trabalhar com Mudança Climática, mais especificamente com Adaptação Climática. O que mais ama é ver as medidas de adaptação implementadas e observar seus efeitos nas comunidades.

Muhammad Rafi Al-Hariri Nasution (20), da Indonésia, estudante de Meteorologia, é o criador do projeto DCME, que tem como principal motivação reduzir a vulnerabilidade das favelas. Basicamente trabalha com prevenção de desastres. A motivação de Muhammed é o próprio objetivo de seu projeto: redução de riscos nas favelas.

Fikri Rozi (21), também da Indonésia, estudante de Meteorologia, participa do mesmo projeto que Muhammad Rafi no papel de organizador dos eventos. Sua motivação para participar do projeto é ‘aumentar a chance de viver daquelas pessoas através da educação. ’

Maria Paschalia Judith Justiari (21) participa do projeto DCME, é responsável pela divulgação e comunicação, também é estudante de Meteorologia. Sua inspiração para participar do projeto vem de longe: Desde dos seu 13 anos se sentia compelida a auxiliar pessoas em situação de risco. Ela acredita que as perdas por desastres podem ser prevenidas se houver o conhecimento necessário.

Kevin Agustinus Lazarus (21), também participante do projeto DCME, se responsabiliza pela parte de design. Ele diz que sua inspiração provém do fato de que, quando educadas, as pessoas realmente tem chance de sobreviver.

Anna Maria Kusumaningayu (21) quis simplesmente ajudar seus melhores amigos a realizar seu projeto. É responsável pela tesouraria.

Dora Anna Hutajulu (21) faz faculdade de Engenharia Geomatemática, um curso que não temos no Brasil. É responsável por planejar as rotas de evacuação. Sua inspiração é, na verdade, uma necessidade, já que segundo as regras da faculdade (Tri-Dharma Perguruan Tinggi-3 Rules of College) precisam fazer o que chamam de Desenvolvimento Comunitário. Viu no DCME uma chance de fazer seu trabalho.

As respostas as minhas perguntas foram muito similares, mesmo sendo de locais diferentes, por isso resolvi compilá-las em um só artigo.

Tanto Indonésia quanto Kenya e Zimbawe são países vulneráveis as mudanças climáticas, afinal, a situação financeira deles não é boa, a sociedade tem dificuldade em entender as mudanças (adaptações) e os motivos delas, sem contar que a consciência relativa às mudanças climáticas é baixa.

Uma forma que esses jovens trabalham com isso é fazer um mapa de evacuação, ensiná-los a usar e educá-los para os desastres. Eles também tentam criar políticas públicas que podem incentivar países a investir na agricultura (de forma saudável, como a orgânica), conservação do solo e mudança climática (o mais óbvio).

Entender modelos de desenvolvimento agrários em seus países – e compreender quem serão os possíveis agentes de mudanças – é um outro jeito pelo qual estão agindo. Compreender quem pode ser a mudança facilita no momento de realmente colocar a mão na massa.

Sem contar que é mais fácil levar para frente uma agenda de desenvolvimento sustentável sabendo quem são seus agentes e como mobilizá-los. É uma tarefa muito importante, mas infelizmente faltam pessoas no Brasil tentando fazê-la.

Como negócios também são afetados pela mudança climática, uma forma de inclui-los na mudança e tornar mais negócios sustentáveis é identificar os que já existem (como Yabunga Julius faz com a agricultura) e assim criar oportunidades para toda cadeia de valor.

Apesar de toda essa força de vontade as situações não são fáceis, principalmente por falta de apoio governamental e por falta de recursos que simplesmente não existem em países como Zimbabwe, por isso parte do acordo da COP 21 que demanda aos países desenvolvidos um fundo de 100 bilhões de dólares para os subdesenvolvidos é tão importante.

O problema é que nem eles, os agentes locais, sabem como vão receber o dinheiro ou como este será redistribuído, nem se a juventude será beneficiada. Uma das esperanças deles no Fórum Humanitário Mundial é que esses ‘buracos’ no acordo do ano passado sejam resolvidos.

Outro desafio é conscientizar as pessoas: como ensinar para quem não quer aprender? É um problema sério, pois muita gente não acha que os desastres vão ocorrer até que eles aconteçam. Várias pessoas morrem simplesmente por não terem sido precavidas.

Isso sem contar com alterar o paradigma de que não precisamos mais investir na agricultura da forma com que EBA (The European Banking Authority) impulsiona os países mais pobres a fazer. A copiar um modelo que já não é mais útil para um mundo sustentável. Para haver uma boa adaptação às mudanças climáticas é preciso, sim, ter dinheiro, mas mais do que isso, precisamos diminuir a insustentabilidade de nossos atos, o que inclui deixar de investir em fontes de energia como o petróleo.

O projeto do pessoal da Indonésia pode ser pequeno, mas com certeza já está fazendo muita diferença na vida da população de Pulosari, Bandung. Os objetivos do trabalho são: educar 50 pessoas em área de risco sobre desastres e como evitá-los, criar mapas de evacuação, conseguir dez voluntários para organizar o programa, fazer simulações de quando desastres ocorrem.

Na Indonésia ocorrem enchentes severas, secas, fogos nas florestas, etc. Se a população souber o que se deve fazer e o que não se deve fazer nessas situações, muitas vidas podem ser poupadas.

Quando questionei a respeito do que o Fórum Humanitário Mundial (que ocorrerá esse ano) pode contribuir para a Adaptação Climática, eles disseram que pode trazer consciência a próxima geração de líderes, e que, com isso, eles talvez façam algo de bom para a própria sociedade agora, aprendendo com suas experiências e obstáculos que enfrentarão: ‘Eu acredito que questões humanitárias como refugiados, mudança climática, adaptação, mitigação, tolerância, podem ser discutidas e melhoradas se nos comprometermos a trazer a mudança para todos os cantos do mundo. Sim, com certeza somos capazes!’ – Muhammad Rafi Al-Hariri Nasution.

Laís Vitória Cunha de Aguiar, 19, é ativista ambiental, estudante de Ecologia da UFPB e comunicadora popular pela Adopt a Negotiator, uma organização mundial que engloba jovens de diversos países com objetivo de divulgar o que ocorre nas negociações climáticas.

 

in EcoDebate, 29/02/2016

[cite]

 

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