A sociedade precisa de desenvolvimento! artigo de Junior Ruiz Garcia

 

desenvolvimento predatório x desenvolvimento sustentável

 

As projeções indicam que a economia brasileira reduzirá pelo menos 3% em 2015. A partir dessas projeções, análises têm sido publicadas na mídia de massa e em cadernos especializados de economia sobre a importância do ajuste fiscal e da produtividade para reverter esse quadro. Embora essas análises sugiram que há um debate heterogêneo em curso no país, a realidade não é bem assim. O objetivo central e comum nelas é o mesmo, a retomada do crescimento, o aumento do Produto Interno Bruto (PIB). Em resumo, a solução para a crise política, social e econômica, e mesmo ambiental, é o crescimento.

Nesse sentido, a única diferença nas propostas está apenas no meio pelo qual a economia brasileira retomará seu crescimento ou reverterá o quadro recessivo. Essa solução comum é suportada pelo pressuposto comum a todas, de que crescimento é sinônimo de desenvolvimento, e de que o PIB é o indicador adequado para acompanhar o desempenho de uma sociedade. Se o PIB cresce, a sociedade está bem. O crescimento é a solução para todos os problemas que afligem a sociedade. Veja-se a política da ONU sobre Economia Verde ou Crescimento Verde.

Nossos analistas não conseguem atualizar seu mundo teórico para o século 21

O que todos estão esquecendo é que o crescimento do PIB requer um fluxo contínuo de matéria e energia do ambiente natural. Em um contexto de escassez de recursos naturais e de degradação dos ambientes naturais, os custos do crescimento são enormes, em muitos casos incomensuráveis. Veja-se o desastre em Mariana, resultado da ânsia por mais minério barato para sustentar o crescimento. Como se já não tivéssemos muito ferro disponível ou qualquer minério para reaproveitamento! Em 2014 literalmente enterramos 79 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos. Já imaginou o risco potencial à saúde e ao ambiente natural? Os custos sociais e ecológicos da disposição inadequada desses resíduos são enormes. Quantas Marianas e Rios Doces são perdidos todos os anos no Brasil?

Isso tem ocorrido porque nossos analistas não conseguem atualizar seu mundo teórico para o século 21, para fornecer instrumentos mais adequados à tomada de decisão dos agentes públicos e privados. As análises apresentadas adotam pressupostos construídos ainda nos séculos 18 e 19, quando a situação predominante era a escassez de capital econômico. Nesse contexto, os custos do crescimento eram infinitamente menores do que no século 21, portanto qualquer crescimento aumentaria o bem-estar. Entretanto, no século 21 o fator escasso é o capital natural; portanto, o custo do crescimento agora é enorme, e não será qualquer crescimento a fonte de bem-estar coletivo. Além disso, o principal indicador usado para medir o bem-estar de uma sociedade é o PIB per capita ou apenas o PIB.

O PIB não foi criado pelo economista Simon Kuznets para medir o bem-estar, fenômeno qualitativo, mas para medir o produto econômico de uma região em determinado período, um fenômeno quantitativo. Para ilustrar a distorção gerada pelo uso incorreto do PIB como medida de bem-estar, o desastre de Mariana contribuirá positivamente para o aumento do PIB de Minas Gerais, e, claro, do Brasil. Os gastos necessários para a tentativa de recuperação dos estragos causados pelo rompimento da barragem de rejeitos minerais, como a construção de novas moradias e infraestrutura, limpeza do ambiente natural e construído, resgate de vítimas etc., são considerados como produto no PIB.

Isso significa que o desastre contribuirá para o crescimento ou para amenizar a queda do PIB! Na perspectiva incorreta de uso do PIB, destruir a natureza e gerar perdas sociais e materiais é bom para o PIB! Mas será que é bom para a sociedade? Desse modo, o que precisamos discutir para o enfrentamento da crise política, social e econômica não é como retomar o crescimento, mas promover o desenvolvimento.

A sociedade precisa de desenvolvimento no século 21!

Junior Ruiz Garcia, doutor em Desenvolvimento Econômico, Espaço e Meio Ambiente, é professor do Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Econômico do Departamento de Economia da UFPR.

Artigo enviado pelo Autor e originalmente publicado no jornal Gazeta do Povo, Curitiba, Paraná.

 

in EcoDebate, 17/12/2015

A sociedade precisa de desenvolvimento! artigo de Junior Ruiz Garcia, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 17/12/2015, https://www.ecodebate.com.br/2015/12/17/a-sociedade-precisa-de-desenvolvimento-artigo-de-junior-ruiz-garcia/.

 

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2 comentários em “A sociedade precisa de desenvolvimento! artigo de Junior Ruiz Garcia

  1. Gostaria que o autor fora a crítica no meu entender “vazia” ao modelo real atual de crescimento existente….. apresentasse uma alternativa de desenvolvimento…… sem ser utópica ! Como matar a fome, fazer escolas, hospitais, gerar energia e bem estar sem fluxo de matéria decorrente ? como mover organizadamente homens e materiais sem mover a economia ? pela religião ? pela fé ? pelo ideais de sociedade justa ? pela ideologia ? as pessoas trabalhariam de graça ? como faríamos as trocas ? Existe esta outra forma de criar bem estar sem a troca material ? qual é ela ? Não conheço ! Não é mais necessário criar riqueza ? já temos o suficiente para todos ? acho que não !! e de fato …. criar riqueza é diferente de criar bem estar … mas sabemos fazer o bem-estar sem a criar riqueza ? …. sem crescimento ? e sem o fluxo de matéria e recursos naturais decorrentes ? acredito que não … pois exigiria a redistribuição da riqueza existente a força …. e isto geraria muitas guerras e um prejuízo enorme ambiental … ou seja não concordo com o texto pois prega a utopia como possível …. e é como fosse presumido que tudo que foi e é produzido e toda a riqueza e a criação de bem-estar atual pudesse…. ser repartida para toda humanidade de forma pacífica e que houvesse o suficiente para todos ? será ? não acredito ! O modelo atual de crescimento não funciona, concordo ! mas existe outro ?

  2. Prezados Junior Ruiz Garcia e Marcelo de Oliveira Fonseca:

    É necessário que compreendamos que o planeta Terra não dispõe de condições físicas e psicológicas para fornecer suporte para esse tão almejado desenvolvimento econômico infinito.

    Detalhando e exemplificando:

    Condições físicas: Dimensão da Terra e quantidade e “qualidade” dos solos, das águas, do ar, da incidência da luz solar. Em suma, o conjunto de fatores do meio ambiente que não têm vida e que é chamado de Biótopo, já se encontra mais de 50% deteriorado e, em breve, não mais terá condições de fornecer os meios necessários à manutenção da vida, que já se encontram escassos.

    Condições psicológicas: reações dos seres vivos de todas as espécies, constituintes da fauna e da flora, especialmente da espécie humana, que já iniciou um processo irreversível de guerras, que tende a se alastrar em breve espaço de tempo. Quanto à Política e às crenças religiosas, em nada contribuirão para cessar ou amenizar esse processo. Muito ao contrário, funcionarão como detonadores, nas diversas partes do planeta. Todo o conjunto dos seres vivos constituem a Biocenose, que entrará em choque de proporções planetárias, e se autodestruirá.

    Devemos lembrar que toda a destruição da Biocenose – conjunto de seres vivos – é motivada e reforçada pela incapacidade total do Biótopo de fornecer os meios de subsistência.

    É por essa ótica que devemos analisar o desenvolvimento econômico, que se apresenta, para seus defensores, como necessário.

    Solução: se até o presente momento a espécie humana seguiu o caminho do desenvolvimento econômico, talvez ainda haja tempo para seguir, agora, o caminho da regressão, e fazer isto será uma tarefa árdua, sob múltiplos aspectos.

Comentários encerrados.

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