Sobre impeachment e crise moral, artigo de Montserrat Martins

 

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[EcoDebate] Tem se feito ouvir vozes sérias e respeitáveis que justificam o impeachment, enquanto outras vozes sérias e responsáveis o apontam como um golpe que jogaria gasolina na crise política nacional. Uma primeira reflexão a ser feita é a de que, se a justificativa é moral, a substituição de uma presidente eleita pelo vice não resolveria esse problema pois a crise moral afeta os dois grupos da coalizão e só novas eleições – seja as de 2018, ou que fossem antecipadas – seriam uma resposta legítima.

Do ponto jurídico, não há hoje elementos para um impedimento, nada comparável a um Cunha, que só os juristas podem explicar porque não foi preso ainda, do mesmo modo como o Delcídio já foi. Há defensores do impeachment que admitem que a presidente não pode ser responsabilizada juridicamente, mas passam a argumentar a perda de condições morais de governar, os erros políticos do Brasil na política externa e na economia se envolvendo com Venezuela e Cuba, perdendo espaço no mercado europeu, enfim, que a agenda do governo paralisa o país.

A hipótese Temer presidente não é garantia que a economia do país vá se recuperar, que as novas alianças e rumos de política externa e negócios vão reaquecer o mercado interno e elevar o nível de emprego novamente. Tivemos governos deste grupo político que nada acrescentaram em termos de emprego e desenvolvimento econômico, porque agora magicamente eles se tornariam grandes gestores da nossa economia a ponto de gerar novos postos de trabalho?

“Os fins justificam os meios” está por trás da tentativa de convencimento à sociedade para apoiar o impeachment, que seria para “livrar” a sociedade de um governo anacrônico, de um esquerdismo irresponsável e viciado, que montou um esquema de corrupção para se manter no poder. Quem sustenta esse ponto de vista não pode deixar de considerar que as instituições funcionam perfeitamente no país, tanto que a Polícia Federal e o Ministério Público não hesitam em levar à prisão governistas do alto escalão quando flagrados em práticas criminosas (que chegue a hora do Cunha ser preso também, aliás, é o que todos esperamos).

Ninguém pode comparar o Brasil à Venezuela, onde apenas a oposição corre o risco de ser presa e onde o Judiciário não tem a menor autonomia, nem há autonomia comparável à da PF e do MP brasileiros. Apesar dos “desfalques” que veio a sofrer no seu “time”, oficialmente o governo se manteve na linha Constitucional, o que nos distingue do “bolivarianismo”, uma tentação a que resistiram até aqui de embarcar.

O impeachment levaria ao bolivarianismo, a romper a coesão no tecido social brasileiro, no sentido oposto da melhora econômica, social e política apesar das promessas da turma do “anti”, que diz que basta trocar de governo para resolver tudo.

Montserrat Martins, Colunista do Portal EcoDebate, é médico psiquiatra, bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais e presidente do IGS – Instituto Gaúcho da Sustentabilidade.

 

in EcoDebate, 07/12/2015

[cite]

 

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2 comentários em “Sobre impeachment e crise moral, artigo de Montserrat Martins

  1. Excelente a reflexão de Montsserat Martins. Extrema lucidez e muita competência.
    A questão do impeachment é nebulosa porque não existem fatos declarados como os de Cunha e Delcídio. As instituições que ainda funcionam saberão o que fazer com eles. Mas a Justiça não consegue provas contra LUla, que todos sabem que é o mentor de tudo isto. O nosso Ali-Babá consegue driblar as instituições e a nossa Justiça lhe dá o respaldo necessário. Os poderes constituídos e parte de outros poderes (imprensa, grupos sociais) blindaram-no ao extremo, a ponto de reconhecê-lo como líder e intocável. O Lula é um ex que nunca se convenceu de que existe uma nova Presidenta. Ele manda e articula tudo, sob a conivência de todos os demais brasileiros.
    Pior do que a Venezuela e seu bolivariaismo, é o Brasil ser conivente com os mandos e desmandos, que a História saberá julgar e saber fazer justiça.
    Sinto-me indignado com a inércia e o imobilismo da população, frente a uma corrupção descarada junto aos altos escalões, empresas e a uma grande parcela do Parlamento, que se vende muito barato.
    Sou contra o impeachment e o golpismo, mas ouvir o Lula e seus comparsas falar de democracia, causa-me arrepios…

  2. ” Uma primeira reflexão a ser feita é a de que, se a justificativa é moral, a substituição de uma presidente eleita pelo vice não resolveria esse problema pois a crise moral afeta os dois grupos da coalizão e só novas eleições – seja as de 2018, ou que fossem antecipadas – seriam uma resposta legítima.”

    [trecho do 1º § do artigo].

    Prezado Montserrat Martins, parabéns pelo artigo, mas lhe peço permissão para aprsentar meu divergente pondo de vista.

    Os problemas com que nós, seres vivos, nos deparamos atualmente têm origem em passado remoto da nossa espécie, e se apresentam, agora, como produto do regime social, político e econômico predominante na Terra, e que recebe a denominação de CAPITALISMO.
    As eleições para os cargos governamentais dos Estados capitalistas, se não servirem para eleger governos capazes de promoverem a EDUCAÇÃO SOCIALISTA das populações – o que até o presente se mostrou impossível – servem, apenas, para organizarem os Estados-nações para melhor favorecerem o destrutivo desenvolvimento econômico capitalista.
    Portanto, pode-se afirmar que as eleições capitalistas não resolvem crises, sejam elas de qualquer natureza.

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