Pedagogia de balcão, artigo de Daniel Clemente

 

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[EcoDebate] Em reuniões pedagógicas os educadores costumam atribuir suas atitudes como exemplos didáticos, uma referência para o aprendizado dos que se colocam a disposição a ouvi-los. Entre as exemplificações detalhadas, um educador em determinada oportunidade faz uma demonstração sobre o valor da educação no comportamento social: “Quem não leva a sério os estudos escolares encontrará locação profissional em subempregos, o destino o conduzirá a ser atendente do McDonalds. O que diferencia as pessoas é o lado do balcão que se encontram”. Uma clara demonstração do papel da educação em massa, a de definir o opressor e o oprimido, senhor e servo, patrício e plebeu.

No florescer de sua adolescência uma garota cursando o ensino médio aspira ser professora, fato curioso em um país sem estímulos para educação ver o nascer de um educador, seria o mesmo que ver germinar uma semente em meio ao asfalto. Mas para corrigir a anormalidade nada melhor do que a repressão do óbvio, a mãe da adolescente preocupada com o futuro da filha logo adverte: “Não estou pagando escola particular para que seja uma professora, estude para ser alguém na vida”. A mãe sem dúvidas ama sua filha, transmitindo valores e conceitos sobre sucesso e felicidade. Porém, ao investir recursos financeiros atribui na escola a missão de conduzir sua filha aos caminhos seguros do sucesso profissional, mas a única situação que o colégio pode oferecer é o convívio diário com os professores, ou seja, aqueles que não deram certo na vida, os fracassados, maus exemplos por excelência, más companhias. Segundo a lógica da mãe, o certo seria retirar sua filha da escola para que as más influências não fossem seguidas. E com a filha diariamente ao seu lado poderia mostrar como viver o obter o esperado e almejado sucesso.

O Brasil é o país dos privilegiados, sendo que todo privilégio é a garantia de acesso aos recursos sociais e econômicos por alguns em detrimento a exclusão de muitos, a base de sustentação do privilégio é a desigualdade na distribuição de direitos e oportunidades. Assim ocorre na área educacional, onde a grande porcentagem de colégios espalhados pelo território nacional apresentam péssimas condições materiais para exercer sua função primordial. A meritocracia escolar difunde o abismo entre as classes econômicas, privilegiando alguns e excluindo todo o restante do processo de aprendizagem.

É a percepção sobre o privilégio que realiza julgamento a partir do lado do balcão que o indivíduo se encontra, que determina o sucesso pelo título profissional e não pela satisfação pessoal, e que faz dos centros educacionais a reprodução das desigualdades a partir da consciência. O opressor injeta no oprimido seu modo de vida, que o reproduz com eficiência e vê na desigualdade social um mérito. George Orwell em seu clássico romance “1984” descreveu o oprimido adorando o opressor: “Ia andando pelo corredor de ladrilhos brancos, com a impressão de andar ao sol. Por fim penetrava-lhe o crânio a bala tão esperada. Mas agora estava tudo em paz, tudo ótimo, acabada a luta. Finalmente lograra a vitória sobre si mesmo. Amava o Grande Irmão”.

Daniel Clemente
Professor de História e Sociologia
Colégio Adventista de Santos
Pós Graduando em História, Sociedade e Cultura PUC-SP

 

in EcoDebate, 24/11/2015

Pedagogia de balcão, artigo de Daniel Clemente, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 24/11/2015, https://www.ecodebate.com.br/2015/11/24/pedagogia-de-balcao-artigo-de-daniel-clemente/.

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2 comentários em “Pedagogia de balcão, artigo de Daniel Clemente

  1. Parabenizo o Educador Daniel Clemente pelo excelente artigo que produziu, cujo conteúdo é altamente CRÍTICO. Por genetileza, Educador Daniel Clemente, veja texto que redigi ha pouco, homenageando um Mestre Educador que tive no Curso de Graduação.

    PROFESSOR X EDUCADOR.

    Há uma pequena e substancial diferença entre os exercícos de Professor e de Educador.
    Quem ensina alguma coisa é Professor.
    Exemplo: muitos animais não humanos ensinam aos seus filhotes alguns comportamentos essenciais à sobrevivência deles. Instintivamente, são ótimos professores, mas eles não podem ser educadores, devido à limitação de suas inteligências.
    EDUCADOR é quem consegue, além de ensinar alguma coisa, ensinar, também, a olhar a sociedade (não considero, nas condições atuais, esse termo apropriado, mas…) de um ponto de vista CRÍTICO, considerando que vivemos em uma “sociedade” que mantém e aprimora uma série de vícios danosos que nos foram legados por nossos ancestrais, não por maldade, mas por ingenuidade.
    E como o EDUCADOR ensina aos educandos a terem uma visão CRÍTICA, a serem CRÍTICOS diante dos vícios que movem a “sociedade” humana?
    Resposta: sendo CRÍTICO na sua prática pedagógica, ou seja, trabalhar, com seus educandos, questões importantes, sempre abordando-as de um ponto de vista CRÍTICO.
    É assim que se pratica EDUCAÇÃO.
    Lamentavelmente, a formação de “Educadores” em países tipo Brasil, onde existem a classe dominante e a classe explorada e oprimida, não os capacita para serem, de fato, EDUCADORES, uma vez que tal formação iria de encontro aos interesses conservadores do Estado.
    Após todos esses esclarecimentos, que considero necesssários, afirmo que o meu Mestre, Leonardo Bittencourt, é uma grande Educador, entre alguns outros que tive no Curso de Arquitetura e Urbanismo da UFAL. Parabéns prezado Mestre Leonardo Bittencourt.

    [Comentário a postagem no Facebook]

    Novembro/2015.
    em Arquitetura e Urbanismo.

  2. Muito obrigado pelas palavras Valdeci Silva, e parabéns pelo texto produzido ao seu professor. Essa integração Professor e Aluno possibilita a multiplicação do conhecimento, e não somente a reprodução do conteúdo oficial.
    Um grande abraço!

Comentários encerrados.

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