SOS Paraíso, artigo de Montserrat Martins

 

floresta amazônica

 

[EcoDebate] Você tem o seu paraíso preferido, alguma praia, algum lugar na serra, no campo, enfim, cada um tem o seu. A Amazônia tem todos os tipos e ao contrário do que se imagina não é plana, é cheia de montes e vales. Se você amar água encontrará as mais lindas cachoeiras, se preferir a vegetação ou animais encontrará de todos os tipos para apreciar. Não existe forma de calcular o valor do seu patrimônio ambiental, é inestimável, pela diversidade de vidas e tesouros naturais que abriga.

O boto rosa está em risco de extinção e isso é inaceitável para um animal aquático lindo, amigável, que faz a alegria dos turistas, sendo dócil a ponto de aceitar afagos. Temos o hábito de desvalorizar nosso próprio país e nosso povo, mas muitos outros já destruíram seus tesouros naturais, a China por exemplo foi capaz de permitir a extinção do boto cinza daquele país. Então não serve a desculpa que “o brasileiro não cuida” porque outros povos já fizeram pior, a culta Europa dizimou as suas florestas, não é à toa que o mundo inteiro volta os olhos pela preservação da Amazônia por ser o último grande tesouro natural do planeta.

O chamado boto rosa ou vermelho, que não tem exatamente essa coloração evidente mas apenas sutil, faz parte da cultura de toda região mas isso ao invés de ajudar trouxe problemas. Nas lendas populares o boto seria capaz de engravidar virgens e por isso passou a ser usado como justificativa para alguém que ficasse grávida sem pai conhecido. Outra comparação popular que se faz com o boto é com os próprios órgãos genitais femininos, que seriam os mais próximos da espécie humana. O que tudo isso gerou foi a crença nos poderes afrodisíacos do boto, motivo pelo qual pescadores passaram a matá-los para extrair seus genitais e a partir deles fabricar produtos supostamente afrodisíacos.

Pescadores inescrupulosos também usam sua carne como isca que seria excelente para atrair outros peixes. Enfim, cobiçado por predadores humanos, esse verdadeiro tesouro do mar, amigo dos humanos, está em risco de extinção por uma mistura de ignorância com falta de fiscalização. Com certeza não é nosso único tesouro ambiental em risco, é mais um deles, mas chama a atenção pelo fato de ser a maior “estrela” entre todas as atrações turísticas naturais dessa região paradisíaca do país e do planeta.

Você pode tomar banho com golfinhos americanos ou caribenhos nos locais turísticos deles por muito tempo ainda, espera-se, mas está em risco de não conhecer o maravilhoso boto rosa se nosso país não passar a levar a sério a proteção ambiental. Na mentalidade atrasada, imediatista, predadora, o ambiente é visto como um entrave ao desenvolvimento, ao invés de como uma oportunidade. Qual o valor de um bom empreendimento turístico que saiba preservar atrações como essa? Existem alguns locais que compreendem isso, cuidam de pequenas áreas naturais para proporcioná-las aos visitantes, mas não se percebe a presença do Ministério do Turismo na Amazônia. Ao contrário do Nordeste, onde o turismo é bem desenvolvido, em Manaus você percebe que estão na fase de explorar o turista, antes de explorar o turismo. Sendo que há muitos turistas americanos, estes até podem pagar, mas o fato é que há muito pouco turismo nacional na Amazônia.

Seja qual for o seu paraíso preferido, há uma versão dele no norte do seu país, entre florestas, rios, lagos e animais das mais variadas espécies. Cada um de nós pode fazer a sua parte, mesmo que seja simplesmente apoiando campanhas pela internet, para que os governos passem a levar a sério a proteção ambiental. O desmatamento aumentou muito desde que o Código Florestal foi flexibilizado em 2012 e toda uma mentalidade predadora vive hoje no país, sem fiscalização à altura.

O Paraíso pede socorro, emite sinais de SOS, e vale a pena você conhecê-lo logo que puder. Porque se há uma luta que vale a pena, sem dúvida, é lutar para preservar o último grande paraíso do planeta.

Montserrat Martins, Colunista do Portal EcoDebate, é médico psiquiatra, bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais e presidente do IGS – Instituto Gaúcho da Sustentabilidade.

in EcoDebate, 03/08/2015

SOS Paraíso, artigo de Montserrat Martins, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 3/08/2015, https://www.ecodebate.com.br/2015/08/03/sos-paraiso-artigo-de-montserrat-martins/.


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Um comentário em “SOS Paraíso, artigo de Montserrat Martins

  1. Infelizmente, Doutor Montserrat Martins, a luta que deve ser travada para proteger os ecossistemas terrestres já está, teórica e praticamente, derrotada, pois não tem, sequer, condição de ser iniciada.
    As estruturas dos Estados capitalistas são montadas, com respaldo das religiões e da grande maioria dos seres humanos, para obter lucro e, assim, conseguir manter um desenvolvimento econômico contínuo e infinito, sem levar em consideração as limitações físicas e orgânicas do planeta Terra.
    Diante do cenário acima descrito, poderíamos pensar na promoção de um trabalho educacional direcionado para a correção das distorções socioambientais através de milênios acumuladas, pela História da espécie humana, e que nos colocou, a nós seres humanos e a todas as demais espécies, e todo o sistema Terra, na condição de vulnerabilidade em que nos encontramos, e sem dispormos de qualquer alternativa para defender a vida que ainda existe no planeta Terra, a qual, em futuro próximo – duas ou três décadas – não mais existirá.
    Parabenizo-o pelo excelente artigo [devemos lançar nosso grito de revolta até o último instante], e peço desculpas por não conseguir me desvencilhar da realidade e dizer palavras de otimismo.

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