Relato do ‘front’, artigo de Montserrat Martins

 

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[EcoDebate] Tempos difíceis vem aí, com ansiedades e depressões no caminho, estamos preparados para enfrentá-los? Precisamos de uma estratégia de saúde pública para isso, que não existe hoje, pelos relatos dos próprios médicos. Jovem colega que atende no SUS me pediu a indicação “daquele livro que falava em todo mundo tomando medicação” que eu havia comentado uma vez. É o clássico Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, onde todos tomam “soma”, a substância que garante a sensação de felicidade.

Ao explicar porque quer o livro, fez um relato assustador sobre a prática atual da medicina no SUS, com os colegas prescrevendo cada vez mais calmantes e antidepressivos, de modo abusivo e massificado, sem que costumem dar qualquer orientação médica que não seja renovar receitas e aumentar as medicações. No contexto de 5 minutos para atender cada paciente, mais prescrevem que conversam.

Na Faculdade de Medicina, aprendemos os efeitos colaterais e riscos da dependência física dos tranquilizantes, os benzodiazepínicos mais comuns são farmacologicamente “primos” do álcool. A indicação correta desses medicamentos seria para o uso agudo, em situações transitórias, de poucos meses, pois a o organismo começa a se “acostumar” com eles após 2 a 3 meses de uso diário. Com o uso crônico, se perde o efeito e se aumentam as doses, além do que se a pessoa parar de usar vai sentir os efeitos da abstinência.

As interações medicamentosas também deveriam ser usadas com cautela, os bons médicos usam o mínimo de remédios possíveis, nas doses mais moderadas que tenham os efeitos clínicos desejados. Mas no SUS, com o atendimento massificado de 5 minutos por paciente, prevalece uma prática contrária à ciência médica. A sabedoria dos livros de Medicina, definitivamente, não passa nem perto do SUS e menos ainda do “Mais Médicos”, onde as prescrições seriam mais massificadas.

Não haveria alternativas, considerando o contexto? Existem, mas são poucos os lugares que as praticam, tais como terapias de grupo. Grande parte desses quadros sintomáticos são comuns a um número considerável de pacientes, tais como os transtornos depressivos, os transtornos ansiosos, as somatizações, enfim, há milhares, milhões de pessoas no Brasil com sintomas muito parecidos entre si – por isso mesmo é muito comum a história das “receitas de vizinhas”, onde identificam sintomas comuns e se “receitam” mutuamente os “Rivotris” da vida.

Há serviços de terapia de grupo para pacientes com sintomas comuns entre si, o que deveria ser a melhor estratégia para enfrentamento desse enorme contingente de brasileiros deprimidos e ansiosos. Falta investir em orientação à saúde, ao invés de só medicar.

Montserrat Martins, Colunista do Portal EcoDebate, é médico psiquiatra, bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais e presidente do IGS – Instituto Gaúcho da Sustentabilidade.

in EcoDebate, 27/07/2015


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