IPBES, o ‘IPCC’ da biodiversidade, será nossa Arca de Noé? artigo de José Penalva Mancini

 

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Prof. Carlos Alfredo Joly, um dos coordenadores dos Grupos de Pesquisa do IPBES – o ‘IPCC’ da Biodiversidade – fez excelente conferência na 67ª SBPC em São Carlos, SP

A Plataforma Intergovernamental para Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos, o IPBES (da sigla em inglês) é um painel intergovernamental que tem por objetivo sistematizar todo conhecimento acumulado sobre biodiversidade em nosso planeta para subsidiar decisões políticas internacionais.

Criada pela ONU – Organização das Nações Unidas, a IPBES, que atualmente já reúne cerca de 124 nações do Planeta, está sendo gestada desde 2007, foi oficialmente criada em 2010 e teve sua primeira reunião plenária em Bonn, Alemanha em 2012.

A criação e implementação da IPBES reflete a preocupação internacional com a dramática e crescente perda de biodiversidade – extinção e diminuição maciças de espécies vegetais e animais que vem, desde os anos 80 do século XX, sendo denunciada por grandes cientistas como Edward Wilson, com consequências para nossas vidas ainda difíceis de mensurar.

Uma das conferências da 67º Reunião Anual da SBPC, que ocorreu em São Carlos entre os dias 12 e 18 de julho de 2015, foi pronunciada pelo Prof. Dr. Carlos Alfredo Joly, biólogo da UNICAMP, filho do emérito botânico Ailton Brandão Joly, que esteve à frente do programa BIOTA-FAPESP que diagnostica a biodiversidade no Estado de São Paulo e que é um dos principais cientistas brasileiros que compõe e dirige a Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos.

Nesta conferência ele basicamente explicou como foi estruturada esta plataforma quais suas metas, como funciona e como cada pessoa no mundo pode participar.

O primeiro ponto importante para entendermos a função da Plataforma é sabermos que ela não faz pesquisa sobre biodiversidade e os serviços que ela presta à vida humana e planetária: ela reúne, sistematiza e avalia os trabalhos científicos e não-científicos (conhecimento dos povos tradicionais) com a finalidade de subsidiar a formulação de políticas públicas governamentais para biodiversidade e serviços ecossistêmicos.

A Plataforma busca integrar dois campos, articulando a interface entre eles: a área do conhecimento (seja cientifico ou não) e o campo político governamental. Dessa forma as decisões são tomadas em plenárias com representantes diplomáticos das nações que compõe a Plataforma. Estas decisões são formuladas e deliberadas de acordo com os consensos acerca dos conhecimentos sobre os temas obtidos internacionalmente através da participação de pesquisadores de todo o planeta.

Já foram realizadas três (03) reuniões plenárias (Malásia, Coréia do Sul, Turquia) nas quais foram definidos os objetivos e metodologias para atuação da Plataforma.

Quatro metas relacionadas diretamente à temática da biodiversidade foram estabelecidas: 1) avaliação sobre polinizadores, polinização e produção de alimentos; 2) avaliação sore degradação e restauração dos solos; 3) avaliação sobre espécies exóticas invasoras e seu controle; 4) avaliação sobre o uso sustentável dos recursos da biodiversidade e seus serviços.

Além destas, outras metas ou objetivos tratam do estabelecimento de metodologias para criação de cenários futuros para divulgação, transparência e confiabilidade das informações e capacitação de pessoas para diagnóstico e monitoramento.

O Prof. Dr. Carlos Alfredo Joly destacou que entre os princípios que orientam as atividades da Plataforma é o do respeito aos conhecimentos dos povos tradicionais, especialmente os indígenas. Segundo ele os principais conceitos formulados pelo IPBES são formulados em três linguagens: a) a linguagem científica; b) a linguagem diplomática; c) a linguagem dos povos tradicional.

Segundo Joly, isso foi necessário para garantir a participação de instituições que não aceitam tratar a natureza como mera fornecedora de recursos. A expressão ‘serviços ecossistêmicos’ denota (pode ser entendida) que os ecossistemas ‘prestam serviços para nós humanos’ serviços estes que podem ser valorados, ou seja, precificados, pagos e comprados, conceitos inconcebíveis no ideário da maioria dos povos indígenas de todo o mundo.

Para demonstrar a importância da participação dos povos tradicionais na Plataforma, Joly exemplificou: no Brasil, muitas espécies de abelhas nativas só tem sua identificação, diminuição de suas populações e (algumas) sua extinção confirmadas através dos conhecimentos indígenas.

O primeiro tema que está sendo avaliado pela Plataforma, considerado o mais urgente pela Plenária de 2012, é o dos ‘polinizadores, polinização e produção de alimentos.

Em todo mundo tem ocorrido uma sensível e, para alguns, intrigante desaparecimento de populações de abelhas polinizadoras. Considerando que cerca de pelo menos 30% dos alimentos que comemos dependem diretamente da polinização por insetos e outros animais e que grande parte dos vegetais que não dependem de animais para polinização, mas se beneficiam – melhorando sua qualidade genética – com a polinização, o impacto da perda de populações e da diversidade pode ser muito grande para a vida humana.

Lenta, mas cada vez de forma mais ampla e contundente, vamos constatando que – como disse o Cacique Seatle em carta dirigida em 1854 ao Presidente americano que queria comprar grande parte das terras onde seu povo vivia –  “…O que é o homem sem os animais? Se todos os animais se fossem, o homem morreria de uma grande solidão de espírito. Pois o que ocorre com os animais, breve acontece com o homem. Há uma ligação em tudo….. Isto sabemos: a terra não pertence ao homem; o homem pertence a terra. …Isto sabemos: todas as coisas estão ligadas como o sangue que une uma família. Há uma ligação em tudo. O que ocorrer com a terra recairá sobre os filhos da terra. O homem não tramou o tecido da vida; ele é simplesmente um de seus fios. Tudo o que fizer ao tecido, fará a si mesmo…..”

Sem dúvida, precisamos de milhões de ‘Noés’ em todo o Planeta, especialmente destes e destas (o IPBES exige paridade de gênero na composição de suas equipes de trabalhos) cientistas, cidadãs e cidadãos que dedicam suas vidas aos estudos de todos os seres vivos que formam a intrincada teia de relações que sustentam a vida em nosso planeta.

É legal saber que o Brasil, país com a maior biodiversidade da Terra, tem tido atuação de protagonismo na criação e implementação do IPBES, e o Prof. Dr. Carlos Alfredo Joly, que em 1988 ajudou a pensar o capítulo de meio ambiente de nossa Constituição Federal, é um dos principais articuladores globais do IPBES.

São Carlos, 18 de julho de 2015
Paulo José Penalva Mancini
p/ Ambiente Central

Paulo José Penalva Mancini é Professor de Biologia formado pela UFSCar; Mestre em Engenharia Civil pela USP; Ex- Coordenador de Meio Ambiente da Prefeitura Municipal de São Carlos (2001 – 2012)

in EcoDebate, 20/07/2015

"IPBES, o ‘IPCC’ da biodiversidade, será nossa Arca de Noé? artigo de José Penalva Mancini," in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 20/07/2015, https://www.ecodebate.com.br/2015/07/20/ipbes-o-ipcc-da-biodiversidade-sera-nossa-arca-de-noe-artigo-de-jose-penalva-mancini/.


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