O prazer está na moda, falar de ódio também, artigo de Montserrat Martins

 

opinião

 

[EcoDebate] O FaceGlória, rede evangélica que não permite fotos de beijos gays, liberou as fotos de biquini. Mário Quintana já disse que “quando dês opinião, não esqueças de anotar a data”, pra você ver como as suas opiniões mudam com o tempo. Tempos atrás seriam impensáveis as fotos de biquini também, assim como não se imaginava que um negro conseguisse se eleger presidente dos Estados Unidos e tendo agora uma mulher indicada para a sua sucessão. O tempo vem derrubando preconceitos e mitos.

‘Matar’ índios era chique nos anos 50, em qualquer filme de faroeste você vê a famosa cena do toque da Cavalaria chegando para te salvar dos selvagens. Lá pelos anos 70 é que começou a mudar a ideologia de Hollywood e os índios viraram vítimas de brancos inescrupulosos que roubavam suas terras e riquezas. Não precisamos ver milênios de história, olhando só os últimos séculos já vemos formas de pensar que eram consideradas normais e hoje nos horrorizam, do genocídio e escravidão ao colonialismo, passando por vários totalitarismos também.

Agora está na moda o papo do “ódio”, como se fosse uma novidade, como se não fosse a história da própria humanidade. Há campanhas “contra o ódio na internet” que podem gerar até mais ódio, por não compreenderem bem do que estão falando. Sim, o ódio traz o perigo da violência e sua simples expressão já é uma forma de violência psicológica também. Mas como lidar com ele, se não entendermos as suas raízes, os seus significados e até os seus tipos? Porque cada um de nós, no seu íntimo, justifica algumas reações como naturais ou compreensíveis ao menos. Cada um de nós odeia algo, alguém, com a mesma força que ama algo e alguém também.

Uma das mais belas descrições de Machado de Assis, no seu clássico conto “Missa do Galo”, é a de uma personagem benévola, recatada, neutra e comedida em seus pontos de vista. Machado observa que “Conceição não sabia odiar, é possível até que não soubesse amar”. Esse conto é uma aula de Psicologia, pois tudo se passa no mundo interior do protagonista e à mercê de suas fantasias. Em Psiquiatria, aprendemos que o ódio não é o oposto do amor, o oposto do amor é a indiferença.

Nos ódios que rolam nas redes sociais, de conflitos de valores e ideológicos, há alguns motivadores que precisam ser reconhecidos. O ódio às injustiças é uma motivação que faz avançar a história da humanidade. Mas o ódio à hipocrisia também, porque às vezes sob o discurso “politicamente correto” se escondem uma série de contradições, incongruências, que irritam aqueles aos quais o discurso se destina.

Os rótulos empobrecem os debates, quando se classificam falas de ‘esquerda’ ou de ‘direita’, deixando de ouvir os conteúdos específicos sobre os quais estão falando, é algo que faz tanto sentido quanto chamar o Obama de “comunista” por seu plano de saúde pública, como ele tem ouvido da oposição mais radical no seu país. Outro problema dos discursos, textos e artigos “contra o ódio na internet” é que são postados por quem está envolvido até a medula nas guerras ideológicas, nas quais o pensamento dos outros é classificado como odioso e o seu, defensor da democracia, como já dizia Millôr: “Ditadura é você mandar em mim, democracia é eu mandar em você”.

Montserrat Martins, Colunista do Portal EcoDebate, é médico psiquiatra, bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais e presidente do IGS – Instituto Gaúcho da Sustentabilidade.

Publicado no Portal EcoDebate, 13/07/2015

O prazer está na moda, falar de ódio também, artigo de Montserrat Martins, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 13/07/2015, https://www.ecodebate.com.br/2015/07/13/o-prazer-esta-na-moda-falar-de-odio-tambem-artigo-de-montserrat-martins/.


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2 comentários em “O prazer está na moda, falar de ódio também, artigo de Montserrat Martins

  1. Oportuno. Está na moda, faz tempo. Tanto tempo que talvez, logo, até caia de moda.

  2. Texto maravilhoso. Muitas dessas campanhas na Internet são desproporcionais, e as pessoas agem como se fosse natural que uma pessoa seja demitida, tenha sua vida arrasada e seja perseguida, online e offline, por causa de uma piada mal-feita. Acho proporcional que se responda o que foi feito com o mesmo (se façam piadas com quem fez a piada, por ex.), mas não o que aconteceu com Rafinha Bastos ou com Tim Hunt… ou até com o Guido Mantega (para falar de uma figura pública de quem não gosto também), que, no caso, merecia perder o emprego (pois estava sendo incompetente) mas não ser atacado quando vai a restaurantes, ou pior, hospitais.

Comentários encerrados.

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