O crescimento das atividades antrópicas e o fluxo metabólico entrópico, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

 

“As mudanças climáticas não são uma questão a se acrescentar à lista de coisas sobre as
quais devemos nos preocuparmos, ao lado da assistência à saúde e dos impostos.
As mudanças climáticas são um chamado ao despertar civilizacional”.
(Klein, 2014)

“A inteligência voltada para o mal é pior do que a burrice”
Hélio Pellegrino

 

exploração dos recursos naturais

 

[EcoDebate] As atividades antrópicas são todas aquelas decorrentes da ação humana. Desde o início do Holoceno – há cerca de 12 mil anos – a humanidade passou de menos de 5 milhões de habitantes para a casa dos milhares de milhões, podendo chegar a mais de 10 bilhões de pessoas em 2100. Foi e tem sido um crescimento espetacular. Mas o desenvolvimento das atividades ecúmenas foi muitas vezes maior.

O crescimento econômico global se acelerou com o início da modernidade e a expansão europeia, especialmente após as Grandes Navegações e o processo de colonização e exploração dos recursos naturais do novo mundo. Com a Renascença, a humanidade se arvorou sujeita de direitos e transformou a vida na Terra e os recursos naturais em objetos a serem dominados e explorados. O crescimento tornou-se exponencial depois da Revolução Industrial e Energética que teve início no final do século XVIII.

O ano de 1776 foi marcante devido à conjugação de três acontecimentos históricos: a Independência dos Estados Unidos; O lançamento do livro “A riqueza das nações” de Adam Smith e a entrada em funcionamento da máquina a vapor aperfeiçoada por James Watt que deu início à utilização dos combustíveis fósseis em larga escala. Entre 1776 e 2014 o crescimento da população foi de quase 9 vezes (de cerca de 850 milhões para 7,3 bilhões de habitantes), enquanto o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) foi de 120 vezes. O aumento da renda per capita foi superior a 13 vezes. Isto quer dizer que um cidadão médio da atualidade recebe em um mês o que um indivíduo médio do antigo regime, antes da Revolução Francesa, levava mais de um ano para receber.

O sucesso humano ocorrido com o avanço do processo civilizatório poderia continuar indefinidamente se vivêssemos em um planeta infinito com ilimitadas áreas anecúmenas para a sobrevivência e a evolução da vida das espécies não-humanas que formam a rica biodiversidade da Terra. Mas a vitória do Homo Sapiens ocorreu em função da derrota da vida ecossistêmica e um empobrecimento da comunidade biótica. Há 10.000 anos os seres humanos e seus animais representavam menos de um décimo de um por cento da biomassa dos vertebrados da terra. Agora, eles são 97 por cento (Patterson, 2014). Portanto, a geração de riqueza não ocorre no vácuo e, no mundo de acumulação de valor, não existe “almoço grátis”. O crescimento econômico tem preço e os bens gratuitos não fazem parte da contabilidade econômica.

Como mostrou Cavalcanti (2012), a economia, em suas dimensões físicas, é feita de material, coisas e energia fornecida pela natureza, o que gera permanentemente “estruturas dissipativas”. O sistema produtivo (throughput ou transumo) gera um fluxo metabólico do ambiente que leva à entropia. Com base nos princípios da economia ecológica (Georgescu-Roegen, 1971; Daly, 2007), o autor mostra que num sistema físico fechado – caso da natureza – o processo de extração de recursos naturais (exploração da flora e da fauna, minérios, água, energia, biomassa, etc.), seguido da produção de bens e serviços e o posterior descarte (lixo, esgoto e resíduos sólidos) produz um “fluxo metabólico entrópico”, aumentando as externalidades negativas do sistema.

Também de acordo com os ensinamentos da economia ecológica, Checin e Veiga (2010) mostram que a noção de metabolismo tem sido usada para se referir aos processos específicos de regulação que governam essa complexa troca entre organismos e meio ambiente. E o elemento essencial da noção de metabolismo sempre foi a ideia de que ele constitui a base que sustenta a complexa teia de interações necessária à vida. Os autores explicam, com base na segunda lei da termodinâmica, que “a qualidade da energia num sistema isolado, como o universo, tende a se degradar, tornando-se indisponível para a realização de trabalho. Daí a forma embrionária da entropia estar na ideia de que as mudanças no caráter da energia tendem a torná-la inutilizável. A relação entre a energia desperdiçada ou perdida – que não pode mais ser usada para realizar trabalho – e a energia total do sistema é considerada a entropia produzida” (p. 10). Por conta disto, os autores argumentam que é impossível ignorar os custos do processo de transformação do trabalho em valor: “O custo advém do fato de a economia ser um sistema dissipativo sustentado por um fluxo metabólico. Tal fluxo tem início com a utilização e consequente escasseamento dos recursos naturais e termina com o retorno da poluição ao ambiente” (p. 28).

A teoria marxista considera que a principal contradição da contemporalidade se dá pela desigual apropriação dos excedentes econômicos entre o lucro da burguesia (em todas as suas formas) e os salários dos trabalhadores da cidade e do campo. Porém, mesmo que de forma diferenciada, a burguesia e o proletariado (o primeiro com menos gente e mais consumo per capita e o segundo com mais gente e menos consumo per capita) formam um “capital antrópico” que estende e expande suas atividades para a dominação e a exploração do meio ambiente. Ocorre que o capital natural está sendo constantemente depreciado e apropriado como renda (lucro + salário). Assim, enquanto cresce o patrimônio antrópico, o patrimônio natural está permanentemente sendo subtraído. A riqueza humana cresce em função de empobrecimento do meio ambiente, ou como colocado de forma sarcástica por Astore (2013): “A Mãe Terra tem nos dado o seu sangue vital, mas como vampiros que somos, a nossa sede continua insaciada”.

De certa forma, a dinâmica econômica tem se transformado em prática crematística, ou seja, a prática de maximização da rentabilidade financeira, especulação e busca do lucro fácil em detrimento do bem-estar social e da conservação do meio ambiente. O fato é que a partir de certo momento histórico, o crescimento das atividades antrópicas passou a comprometer a biodiversidade e a biocapacidade do Planeta, fazendo com que o fluxo metabólico entrópico coloque em xeque a sustentabilidade do processo produtivo.

De acordo com a metodologia da Global Footprint Network (2015), a Pegada Ecológica global já superou em 50% a biocapacidade da Terra. O mundo já está vivendo um déficit ambiental e este déficit aumenta a cada dia. Para Herman Daly (2014), as atividades humanas já ultrapassaram os seus limites econômicos planetários e entraram em uma fase de “crescimento deseconômico”. Para estabelecer o equilíbrio é preciso haver decrescimento até o ponto de intercessão entre as curvas de utilidade marginal e desutilidade marginal.

A contabilidade nacional apresenta estatísticas parciais, pois confunde a depleção de recursos e o aumento da entropia como criação de riqueza. Uma floresta “virgem” geralmente não entra na contabilidade econômica, mas uma área desmatada e ocupada por pastagem é considerada parte dos fatores produtivos. Mas de acordo com a segunda lei da termodinâmica a quantidade de energia, em um sistema fechado, tende a se degradar, ficando indisponível para a realização de trabalho futuro. Assim, concomitante ao crescimento da riqueza humana, cresce a entropia do sistema produtivo.

A entropia é um indicador que mensura os níveis de irreversibilidade de um sistema, estando associada ao grau de ordem e desordem termodinâmica. A entropia serve para medir a parcela de energia que deixa de ser transformada em trabalho. Ela aumenta com o tempo. Por exemplo, o metabolismo humano (conjunto de reações químicas através das quais se realizam os processos de síntese e degradação das células) é entrópico, pois somente uma fração da energia dos alimentos ingerida é efetivamente utilizada pelas células. A maior parte da energia produzida pelo nosso corpo não fica disponível e é degradada. A entropia cresce ao longo do ciclo de vida, pois ela é pequena na fase ascendente, quando a criança se torna jovem e prossegue até a fase madura. Com a idade, a parte degradada aumenta e – refletindo o caráter entrópico do ser humano – surgem as doenças e a morte. Com certeza, o aumento da entropia pode ser retardado, mas nunca eliminado.

O mesmo vale para as civilizações e para o crescimento das atividades antrópicas. Segundo Enríquez (2008), o custo de oportunidade dos recursos naturais varia conforme o tamanho da presença humana: “Daly utiliza-se da ilustração de ‘mundo vazio’ e ‘mundo cheio’ para contrastar as diferenças entre uma época histórica em que o mundo apresentava baixa densidade populacional e padrões de consumo restritos com a época atual de superpopulação e padrões de consumo incompatíveis com a integridade do meio natural. Nesse mundo cheio, é muito elevado o custo de oportunidade no uso dos recursos naturais e ambientais. A não incorporação do terceiro nível (capital natural) poderia ser até tolerável em um ‘mundo vazio’, porém não tem sentido em um ‘mundo cheio’” (p. 14).

A questão ecológica na alta modernidade desafia as bases estruturantes da teoria social moderna e lança novos fatores de risco, como mostrou Ulrich Bech: “O que estava em jogo no velho conflito industrial do trabalho contra o capital eram positividades: lucros, prosperidade, bens de consumo. No novo conflito ecológico, por outro lado, o que está em jogo são negatividades: perdas, devastação, ameaças” (Beck, 1995, p.3).

O principal risco global da atualidade é a mudança climática provocada pela emissão de gases de efeito estufa liberados na queima de combustíveis fósseis, no desmatamento, na ampliação da pecuária, etc. A encíclica sobre o meio ambiente do Papa Francisco, que será lançada em junho, deverá reforçar o consenso científico de que o aquecimento global está se acelerando e que o fenômeno se deve às atividades humanas em um planeta lotado. A encíclica papal vai reforçar a luta contra o aquecimento global e as mudanças climáticas provocadas pelo crescimento demoeconômico exponencial. Resta saber se o Vaticano vai rever suas posições em relação aos direitos sexuais e reprodutivos e assumir a defesa da biodiversidade feita por Francisco de Assis em defesa real dos irmãos animais e das irmãs plantas.

No estágio atual da civilização, é preciso reduzir as atividades antrópicas globais, pois, para além do velho conflito entre capital e trabalho, o fluxo metabólico entrópico está fazendo com que os custos cresçam e os benefícios da economia decresçam em função da possibilidade de um colapso ambiental. Insistir no caminho do crescimento econômico infinito é o mesmo que avançar rumo ao precipício. Vale a máxima: “Mais é menos”, ou seja, maior bem-estar humano e maior biodiversidade serão possíveis somente em um mundo com decrescimento dos territórios ecúmenos e aumento das áreas anecúmenas.

Referências
CAVALCANTI, Clóvis. Sustentabilidade: mantra ou escolha moral? Uma abordagem ecológico-econômica. SP, Estudos avançados 26 (74), 2012 http://www.scielo.br/pdf/ea/v26n74/a04v26n74.pdf

CECHIN, Andrei e VEIGA, J. Eli. O fundamento central da Economia Ecológica In: MAY, Peter (org) Economia do meio ambiente: teoria e prática, 2ª ed, RJ: Elsevier/Campus, p. 33-48, 2010
http://www.fea.usp.br/feaecon/media/fck/File/Cechin%20eVeiga%20n%20May-org-EMA%202010.pdf

DALY, H. Ecological economics and sustainable development, selected essays of Herman Daly. Cheltenham: s. n., 2007.

BECK, U. Ecological Enlightenment. Essays on the politics of the Risk Society. New York: Humanity Books, 1995

DALY, Herman. Three Limits to Growth. Resilience, 05/09/2014
http://www.resilience.org/stories/2014-09-05/three-limits-to-growth

ENRÍQUEZ, MARS. O custo de oportunidade dos recursos naturais não-renováveis em um mundo cheio, na perspectiva de Herman Daly, Boletim Ecoeco, n. 19, 2008
http://www.ecoeco.org.br/backup/conteudo/publicacoes/boletim_ecoeco/Boletim_Ecoeco_n019.pdf

GEORGESCU-ROEGEN, N. The entropy law and the economic process. Cambridge (EUA): Harvard University Press, 1971.

Global Footprint Network, 2015 http://footprintnetwork.org/en/index.php/GFN/

KLEIN, Naomi. This Changes Everything: Capitalism vs. The Climate Hardcover, Simon & Schuster, 2014

PATTERSON, Ron. Of Fossil Fuels and Human Destiny, Blog, 07/05/2014
http://peakoilbarrel.com/natural-resources-human-destiny/

William Astore. Biocide: A Memorial Day for Planet Earth, Nation of Change, 25 May 2013
http://www.nationofchange.org/biocide-memorial-day-planet-earth-1369490128

 

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

 

Publicado no Portal EcoDebate, 10/06/2015

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6 comentários em “O crescimento das atividades antrópicas e o fluxo metabólico entrópico, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

  1. Espero que algum dia concordem comigo que SUPERPOPULAÇÃO É SIM UM GRANDE PROBLEMA, e não adianta ficar com medidas paliativas enquanto esse problema não for atacado frontalmente.

  2. Ola,

    Obrigado Dione. A ideia é esta mesmo de discutir nas matérias de sociologia ambiental e economia e demografia ecológicas….

    Em relação à questão da superpopulação colocada reiteradamente pelo Bruno, eu tenho buscado tratar desta questão e já escrevi vários artigos tratando do tema do decrescimento demoeconômico. (Veja os artigos nos links abaixo). Mas o mundo tem outros problemas que vão além da questão populacional. Veja o caso da China, que adotou uma política draconiana de filho único e que vai ter um grande descrescimento populacional no atual século (vai perder mais de 400 milhões de chineses), mesmo assim, o impacto ambiental vai continua muito grande, pois o modelo adotado na China é muito danoso para o meio ambiente, mesmo com população menor. É claro que o modelo chinês seria ainda pior com a população crescendo ainda mais. Mas só diminuir a população não resolve o GRANDE PROBLEMA.

    Ou seja, levar em consideração a população é importante, mas temos que questionar todo o modelo de produção e consumo.

    Abs, JE

    ALVES , J. E. D. População, desenvolvimento e sustentabilidade: perspectivas para a CIPD pós-2014. R. bras. Est. Pop., Rio de Janeiro, v. 31, n.1, p. 219-230, jan./jun. 2014
    http://www.rebep.org.br/index.php/revista/article/view/651/pdf_618
    ALVES, JED. Sustentabilidade, Aquecimento Global e o Decrescimento Demo-Econômico, Revista Espinhaço, Diamantina. UFVJM, Revista Espinhaço, v. 3, n. 1, 2014.
    http://www.cantacantos.com.br/revista/index.php/espinhaco/article/view/331/280

  3. Caro Bruno,
    A questão de uma eventual superpopulação da Terra é algo que não vai acontecer. Primeiramente, porque nenhuma espécie (vegetal, animal ou o homem) consegue manter uma população superior àquela que lhe permitem as condições ambientais.
    Em segundo lugar, não podemos nos esquecer de que o controle de natalidade vem diminuindo muito o número de filhos por mulher. Como disse o José Eustáquio, o problema deste século não é a superpopulação, mas o envelhecimento da população. As estatísticas demonstram que as mulheres estão optando por terem filhos cada vez mais tarde e, com isso, muitas vezes, deixam de procriar. A taxa de natalidade mundial só não está abaixo de 2,1 (fator mínimo para conservação da população) porque muitas mulheres com 30 ou mais anos estão sendo mães pela primeira vez.
    Segundo a maioria dos demógrafos, a partir de 2050, a população do planeta vai começar a decrescer.

  4. Olá Paulo Afonso,

    Acho que a questão é um pouco mais complicada. A taxa de fecundidade total (TFT) do mundo era de 2,5 filhos por mulher, segundo a ultima revisão (2012) da Divisão de População da ONU. Na projeção média a população mundial deve chegar a 9,3 bilhões de habitantes em 2050 e a 10,9 bilhões de habitantes em 2100. Ou seja, na projeção média da ONU a população mundial continua crescendo durante todo o século XXI. Além do mais tem regiões, como a África Subssariana em que a TFT é de 5 filhos por mulher. A população da África Subsaariana era de 180 milhões de habitantes em 1950, chegou a 950 milhões em 2015 e deve atingir, na projeção média, 3,8 bilhões de habitantes em 2100. Creio que isto dificulta a redução da pobreza e a sustentabilidade ambiental.

    A ONU vai divulgar novas projeções ainda neste mes de junho. Vamos ver como ficam os dados. A discussão continua!

    Abs, JE

  5. Excelente crônica!
    Será que o Dr. José Eustáquio poderia escrever um artigo de como são processadas estatísticas de desemprego no IBGE? Seria um esclarecimento importantíssimo para a atual taxa de 8%.

    Abraço,
    Joma

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