Negócio da China de ‘obrar’ aqui é um risco desgraçado, artigo de Beatriz Carvalho Diniz

 


Foto de Beatriz Carvalho Diniz

 

[EcoDebate] A China quer construir uma estrada de ferro através da floresta amazônica. O percurso proposto é de 5.300 quilômetros no Brasil e Peru, começando perto do Porto do Açu, no estado do Rio de Janeiro, passando por Goiás, Mato Grosso, Rondônia e Acre. A ferrovia cortaria florestas de maior biodiversidade no mundo, ligando a costa atlântica brasileira com a costa peruana do Pacífico, para reduzir custos de transporte de petróleo, minério de ferro, soja e outras commodities que a China importa. É de chorar de joelhos só de pensar no insustentável modo chinês de obrar seus megaempreendimentos para viabilizar o estúpido crescimento econômico custe o que custar.

Os prováveis impactos sobre o meio ambiente, populações tradicionais e indígenas são fortemente preocupantes. Não podemos ser pegos de surpresa já com a decisão tomada pelas ôtoridades, em nome de todos os brasileiros, de fechar esse negócio da China. A natureza não tem fronteiras, um grande estrago feito aqui tem consequências mundo afora, e estamos no momento mais grave que a humanidade já enfrentou exatamente porque extrapolamos limites. Todos precisamos de florestas em pé, para captura de carbono, para manter fontes de água doce, para regular o clima globalmente.

A informação que o ministério das Relações Exteriores divulgou é que a China fará no Brasil investimentos de aproximadamente 50 bilhões de dólares. Parece ótimo, né? Só que não necessariamente. Tanto pelos problemas ambientais e sociais que a construção e a operação da ferrovia devem gerar, quanto pela governança frouxa que marca as construções gigantescas por aqui [licenciamentos contestados, condicionantes não cumpridas], causa insegurança jurídica [suspensão de licenças, paralisação de obras] e faz de obras atrasadas oportunidade de “tirar vantagem”[aditamentos de contratos, aumento de preços].

Precisamos saber mais. O primeiro ministro chinês Li Keqiang, em turnê por países da América Latina, incluindo Brasil [18 e 19/05], traz para a região um plano com vários projetos pesados de infraestrutura. Um canal na Nicarágua, uma estrada de ferro na Colômbia, essa monstruosa ligação Brasil/Peru. De acordo com o jornal inglês The Guardian, o investimento chinês na América Latina deve sair do Banco de Desenvolvimento da China. As obras seriam executadas por empresas locais e chinesas. E o interesse da China é também criar negócios para suas empresas siderúrgicas e de engenharia atingidas pela desaceleração da economia por lá.

Os chineses são colecionadores de degradações do meio ambiente, poluidores número 1 no planeta. Muito espertos, querem garantir o crescimento econômico lá às custas do meio ambiente e da qualidade de vida aqui. Os desafios logísticos dão a dimensão da grandeza dos impactos, como construir por entre florestas densas, pântanos, deserto, montanhas e áreas em que há conflitos, traficantes de drogas, madeireiros, mineradores. É a velha “estratégia” de europeus e norte-americanos lidarem com países “pobres” na versão BRICS.

O presidente da Câmara de Comércio Brasil-China, Charles Tang, nem disfarça: “O quintal dos Estados Unidos está se transformando no da China. E não só o Brasil, mas toda a América Latina”. Ui, é de doer… Ainda mais doído é o modo distorcido de exaltar a presença chinesa no Brasil. O ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Armando Monteiro, espera que nosso país possa se tornar uma plataforma de produção local de bens industriais chineses. Que futuro próspero, hein, produzir bugigangas e vender aqui mesmo para os chineses faturarem.

Grande demais para passar despercebido, o projeto de construção da estrada de ferro Brasil/Peru é avaliado como tremendamente controverso pela diretora da Iniciativa para o Investimento Sustentável América China-América Latina, Paulina Garzón. Ela alerta para os erros do passado, de desconsiderar estudos de impacto ambiental e consultas à população local, e sugere que seria inteligente estabelecer um processo robusto de diálogo com stakeholders desde o início, pois é possível que a ferrovia seja o centro das atenções das organizações da sociedade civil da América Latina.

O título da matéria do The Guardian diz tudo: China’s Amazonian railway ‘threatens uncontacted tribes’ and the rainforest ou em tradução livre Ferrovia amazônica da China ameaça tribos isoladas e a floresta tropical. Aliás, nela foram citadas as obras da Transamazônica, de Belo Monte e de Carajás como exemplos da pouca preocupação com os impactos sobre o meio ambiente e as pessoas em empreendimentos brasileiros de infraestrutura. E do jeitinho como é “vantajoso” obrar por aqui, capaz do BNDES financiar o aparentemente lindo investimento chinês com todo apoio dos governos federal e estaduais e do congresso. Vamos mesmo chancelar mais esse “negócio da China” no Brasil?

Leia a matéria do The Guardian China’s Amazonian railway ‘threatens uncontacted tribes’ and the rainforest http://www.theguardian.com/world/2015/may/16/amazon-china-railway-plan?utm_medium=twitter&utm_source=dlvr.it

Veja o pouco que nos informa o Subsecretário-geral de Política do ministério das Relações Exteriores embaixador José Graça Lima, encarregado do Itamaraty sobre as relações com a Ásia e a Oceania, no G1 { http://g1.globo.com/economia/negocios/noticia/2015/05/china-investira-us-50-bilhoes-no-brasil-diz-itamaraty.html

Saiba mais sobre a “promessa” da China que o governo brasileiro acha que é milagrosa { https://br.noticias.yahoo.com/primeiro-ministro-chin%C3%AAs-chega-ao-brasil-pacote-investimentos-195033074–business.html

E, mais recente, leiam, ainda, a matéria 1Brasil e China vão construir ferrovia do Atlântico ao Pacífico1
http://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2015-05/brasil-e-china-vao-construir-ferrovia-que-ligara-brasil-ao-pacifico

Beatriz Carvalho Diniz é Consultora de Comunicação e Sustentabilidade. Criativa de Eco Lógico Sustentabilidade, conteúdo produzido com amor, sem fins lucrativos, desde 2009.

Publicado no Portal EcoDebate, 20/05/2015

Negócio da China de ‘obrar’ aqui é um risco desgraçado, artigo de Beatriz Carvalho Diniz, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 20/05/2015, https://www.ecodebate.com.br/2015/05/20/negocio-da-china-de-obrar-aqui-e-um-risco-desgracado-artigo-de-beatriz-carvalho-diniz/.


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3 comentários em “Negócio da China de ‘obrar’ aqui é um risco desgraçado, artigo de Beatriz Carvalho Diniz

  1. Se esse negócio da china avançar, tomando como exemplo as megas construções executadas por chineses em terras angolanas, este Brasil vai ficar cada vez mais em dívida externa em relação ao Banco de Desenvolvimento da China, e como consequência, impossível de se livrar de um jugo comercial e industrial chinês.
    E nada de esquecer de criar uma base de dados ADN de todos os imigrantes chineses, para que se possam identificar todos os pais e/ou pagadores de pensões alimentícias.

  2. Papai Noel só existe para crianças. China quer trazer trem da alegria para nosso país. Que bonzinhos santos.
    Os chineses são hoje os maiores poluidores do mundo e, já não se pode andar por lá sem máscaras devido à quantidade de veneno que eles próprios espelem. No Brasil já se devastou milhares de hectares para se plantar soja e outras destinadas a serem trocadas por bugigangas chinesas e outrosprodutos que podem ser produzidos por aqui. Aqui não há govêrno e continuará sem existí-lo até que a população passe a governar. E, não será com nenhum “Leviano Neves” que os rumos vão mudar. Trocar zero por nada resultará em nada. Somar zeros com zeros, resulta em zeros. Organizar mudanças significativas exige ética, ciência e desejo, muito desejo, muita ética, muita ciência. Complexa alteração quando teremos que retirar das mãos dos politicos brasilienses as rédeas desta nação, antro de politicus safadus. Será que os chineses não querem, de graça, a Ferrovia Madeira-Mamoré…

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