Pesquisa de 35 anos mostra como floresta se recompõe

 

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O que acontece com uma área de floresta 35 anos após a primeira colheita das árvores comerciais? Essa resposta, ainda inédita no Brasil, começa a ser dada pela Embrapa Amazônia Oriental após o início do segundo ciclo de corte em uma área de pesquisa na Floresta Nacional do Tapajós, no oeste do Pará. Os dados são animadores, pois apontam para a regeneração da floresta em volume, mas atentam à necessidade de planos de manejo que visem à manutenção das populações de todas as espécies arbóreas, garantindo maior diversidade e rentabilidade.

O pesquisador Lucas Mazzei, da Embrapa Amazônia Oriental, e um dos coordenadores da pesquisa, relatou que a estrutura da floresta foi restabelecida, porém com outra composição florística. “As espécies que estão participando e a distribuição desses indivíduos é diferente, pois a floresta responde de maneira diferenciada para a exploração, mas essa resposta é positiva em relação à produção de volume, que é suficiente para permitir um segundo corte”, explica o pesquisador.

Na análise do pesquisador, em 1979, quando houve o primeiro corte na área, as arbóreas majestosas, e logo, de maior valor comercial, foram, em sua maioria, retiradas. Dessa forma, no segundo ciclo, os espécimes centenários, como jatobá, jarana, maçaranduba e quarubarana, entre outras, não ocorreram na mesma frequência, resultando em queda no valor da floresta.

O aprendizado a partir do monitoramento e o desafio dos engenheiros florestais ao se elaborar um plano de manejo é atentar para a forma de colher, e assim tentar recuperar essa estrutura, com um mosaico de habitats diferentes, garantindo maior diversidade e com isso, mantendo a floresta no auge de produtividade comercial. “O grande desafio não é selecionar a espécie, mas a árvore a ser colhida e com isso manter as populações de todas as espécies, garantindo a rentabilidade e a conservação para todos os ciclos”, reitera o pesquisador.

A pesquisa vai gerar como resultado uma metodologia de apoio por meio da indicação de um sistema de manejo que parte da seleção dos indivíduos e espécies a serem exploradas comercialmente. Esse novo modelo está em elaboração e o pesquisador acredita publicá-lo ainda no primeiro semestre de 2015.

O trabalho é inédito no Brasil para florestas tropicais, o que é confirmado pelo pesquisador Plínio Sist, do Centro de Cooperação Internacional em Pesquisa Agronômica para o Desenvolvimento (CIRAD – França). Ele explicou que nos moldes da legislação vigente é o primeiro acompanhamento de segundo corte no País e ainda o primeiro exemplo do Observatório Internacional de Florestas Tropicais Manejadas (Rede TmFO), entidade internacional que desde 2012 monitora e compara os impactos da exploração de florestas tropicais na Bacia Amazônica, Bacia do Congo e sudeste asiático. “Esta segunda exploração vai gerar dados fundamentais para poder identificar quais são os fatores mais importantes na reconstituição da floresta e como eles atuam nos processos da dinâmica florestal. Hoje em dia é primordial avaliar não somente o potencial madeireiro das florestas chamadas de produção, mas também saber o impacto da exploração sobre os serviços ambientais das florestas, como o estoque de carbono e a biodiversidade”, enfatiza.

Diferenças entre o primeiro e o segundo ciclo de corte

O pesquisador Lucas Mazzei conta que a primeira colheita ocorreu em 1979, e desde então inventários contínuos foram realizados para avaliar os impactos da exploração, bem como acompanhar a evolução da recuperação da floresta e da dinâmica da composição florística.

Ele afirma que os resultados validam a experiência e o esforço pioneiro ocorrido no sítio há 35 anos, quando parte da área foi explorada. Na ocasião foi retirada no local uma média de 72 m³/ha, mais do que o dobro do que hoje é permitido pela Instrução Normativa nº 5, de 11 de dezembro de 2006, do Ministério do Meio Ambiente (MMA), que define os “Procedimentos técnicos para elaboração, apresentação, execução e avaliação técnica de Planos de Manejo Florestal Sustentável (PMFSs) nas florestas primitivas e suas formas de sucessão na Amazônia Legal”. De acordo com o documento, as intensidades máximas de corte a serem autorizadas pelo órgão ambiental competente são de 30 m³/ha para o PMFS, em um ciclo de corte de 35 anos. Ainda assim, a pesquisa revelou a recuperação da área.

O segundo ciclo de corte ocorreu em uma área de 70,5 ha e extraiu apenas 25,6 m3/ha, mas Mazzei salienta que esse volume poderia facilmente ter chegado ao limite máximo da legislação, pois havia cobertura vegetal suficiente. “A extração foi, por opção, conservadora, mas a média de diâmetro das árvores, de 70 cm, foi similar a um primeiro corte”, reitera.

A retirada das árvores ocorreu em dezembro de 2014 em um sítio experimental no interior da Floresta Nacional do Tapajós (Flona Tapajós), unidade de conservação federal localizada no oeste paraense e que abriga o maior número de pesquisas científicas no País, segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). O sítio é conhecido como Km 67, possui 124 ha e é considerado de grande importância para os estudos de manejo e silvicultura nos trópicos, devido ao seu histórico de monitoramento que data de meados da década de 1970. O produto florestal foi beneficiado nos primeiros meses de 2015 e em março segue para os mercados nacional e internacional.

Madeira de boa qualidade também no segundo ciclo

Ganho para pesquisa, para o meio ambiente e de renda, para quem pratica o manejo florestal. Essa é a opinião do empresário Gilson Leal Savarato, responsável pelo beneficiamento e comercialização da madeira extraída na Flona Tapajós. O empresário vê com muito otimismo os resultados observados pela Embrapa e afirma que essas experiências revelam que é muito mais vantajoso economicamente o manejo, se avaliado com o reflorestamento em áreas comerciais.

Com mais de 40 anos de experiência no setor, ele comenta que além do ganho ambiental incomparável, por meio do manejo é possível colher um segundo ciclo de muito mais qualidade comercial num período de 25 ou 30 anos, enquanto no reflorestamento, são necessários no mínimo 50 anos e com árvores ainda sem diâmetro viável para o mercado consumidor.

O segundo ciclo de corte na área experimental da Embrapa gerou 1.080 m³ de madeira, e mesmo com um número menor de madeiras resultantes de espécies majestosas, o diâmetro médio observado foi de 70 cm, ou seja, produto florestal considerado de ótima qualidade e muito apreciado pelo mercado, segundo o empresário.

Gilson Savarato atua na intermediação entre Cooperativa Mista da Floresta Nacional do Tapajós (Coomflona), que detém os direitos sobre o manejo na Flona, e o mercado consumidor. A cooperativa foi criada em 2005 e, desde então é parceira na gestão da Flona e do Plano de Manejo Florestal Sustentável (PMFS) junto ao ICMBio.

Manejo Florestal garante renda e preservação ambiental

A renda obtida a partir da comercialização da madeira extraída durante a pesquisa, pela Embrapa, foi direcionada para a Coomflona. A cooperativa é executora do Manejo Florestal Comunitário, realizado pelas populações tradicionais da Flona Tapajós, atualmente uma importante referência de uso sustentável da floresta. Em 2014, a atividade gerou mais de R$ 10 milhões em recursos e 200 empregos diretos, ao manejar 0,3 % da unidade, segundo dados do ICMBio. A renda gerada com o manejo florestal é utilizada ainda no bem-estar das comunidades, na construção e reforma de estradas, fortalecimento de organizações sociais, capacitações de moradores, e melhoria dos índices de proteção da UC.

O presidente da Coomflona, Jean Feitosa, comentou que a cooperativa atua na unidade de conservação há 10 anos e tem sido fundamental na melhoria da qualidade de vida das populações que vivem na Flona. “A renda vai para os cooperados e projetos de infraestrutura, organização e ainda de geração de renda, como a aproveitamento de produtos madeireiros e não madeiros, o turismo de base comunitária, entre outros”, diz o presidente da cooperativa.

O manejo é referência de sucesso no Brasil e na América Latina, movimentando quase R$ 4 milhões por ano.

Flona Tapajós

A Floresta Nacional do Tapajós é uma Unidade de Conservação Federal criada pelo Decreto n° 73.684/1974, na região oeste do Pará. A unidade é referência, no Brasil e na América Latina, em gestão socioambiental, uso sustentável e pesquisa científica.

Possui aproximadamente 527 mil hectares, com uma rica diversidade de mais de 160 quilômetros de praias, rios, lagos, alagados, terra firme, morros, planaltos, floresta, campos e açaizais. De acordo com o ICMBio, é a unidade de conservação federal na categoria de floresta nacional que mais abriga pesquisa científica no País.

Além das qualidades ambientais, a Floresta Nacional do Tapajós também apresenta expressiva riqueza sociocultural, representada por aproximadamente 500 indígenas da Etnia Munduruku, divididos em três aldeias – Bragança, Marituba e Takuara.

Essa riqueza cultural também é representada pelos mais de cinco mil moradores tradicionais, extrativistas, agricultores familiares e populações ribeirinhas com hábitos culturais próprios e que vivem em 25 comunidades na região.

Por Kelem Cabral ( MTb 1981/PA)
Embrapa Amazônia Oriental

Publicado no Portal EcoDebate, 27/03/2015


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Alexa

Um comentário em “Pesquisa de 35 anos mostra como floresta se recompõe

  1. Por favor, quando este estudo for publicado, coloquem um lembrete aqui no Ecodebate.

    Obrigada,
    Mariana

Comentários encerrados.

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