Pensando em sustentabilidade II, artigo de Roberto Naime

 

artigo

 

[EcoDebate] No geral, com as experiências de implantação de sistemas de gestão ambiental, normatizados ou não, as empresas já descobriram que promover cuidados ambientais no rumo da sustentabilidade gera ganhos econômicos e agora também, com as exigências geradas pela conscientização pública, gera percepção de que se trata de empresa que produz bens ou serviços dentro de uma concepção e de uma prática de parâmetros de responsabilidade socioambiental. Visão que é cada vez mais importante dentro do “mix” de marketing que ainda está se transformando e se adequando para responder aos anseios do denominado “novo consumidor”. Cujo comportamento varia muito em função de renda, escolaridade, sexo, faixa etária e outras condicionantes.

Mas esta variável já representa um grau de liberdade relevante na decisão de compra. Ao menos nos variados extratos de classe média e até alta, as pessoas anseiam por participar, transformando sua decisão de compra no que consideram um gesto de engajamento capaz de se alinhar com o produtor e serviços que percebem como mais representativos de posturas mais coerentes de produção, com menores desperdícios de água ou energia, gestão ambiental implantada, certificada ou não e responsabilidade socioambiental expressiva.

Não deve ser esquecida a preocupação em buscar evitar ao máximo desperdício de matérias primas e de água e energia nos processos produtivos. Estes aparentemente pequenos cuidados tem cada vez mais importância e relevância, sendo percebidos como muito importantes pelos mercados ou pela comunidade mais próxima, onde o empreendimento empresarial ou organizacional está inserido.
A questão dos recursos hídricos já é bastante crítica em muitas regiões e situações no mundo, e mesmo no Brasil, detentor de mais de 12% da água potável do planeta a situação tem tido contornos dramáticos com a má distribuição de água atingindo não só ao nordeste, mas a algumas grandes concentrações populacionais da região sudeste. No caso se adiciona a má distribuição de chuvas, a completa ausência de planejamento e a dependência gerada por sistemas muito dependentes de poucas bacias hidrográficas.

Outra pendência ou controvérsia é a despoluição de águas em rios e bacias hidrográficas já comprometidas. Não existe um filtro, nem mecânico nem químico, para instalar num rio. A tarefa de despoluição é um trabalho permanente e trabalhoso de tratar todos os esgotos e efluentes industriais antes de serem descartados em cursos de água. Depois de realizada tal ação fica difícil falar ou imaginar mecanismos eficientes de despoluição de água, em processos que envolvem águas superficiais e subterrâneas. Quando ocorre uma enchente dos rios, águas superficiais tendem a sofrer infiltrações e abastecer os mananciais subterrâneos. Em períodos de seca tende a ocorrer o contrário. Águas subterrâneas tendem a abastecer cursos de água superficiais. Isto significa que ocorre uma grande inter-relação entre ambas as águas e se houver poluição em um tipo de aquífero, tende a haver poluição do outro também.

São grandes e intangíveis os benefícios da adoção sistêmica de atitudes, gestos, posturas e ações de gestão ambiental dentro de programas de sustentabilidade. Como bem registrou Gros Harlem Brundtland temos que utilizar os recursos naturais de maneira responsável, para que não haja qualquer problema com as gerações futuras. Todos dependem de um planeta em boas condições e em situação de boa homeostase para o desenvolvimento e a manutenção da vida em equilíbrio, objetivo e desejo de todos os seres humanos.

A conexão entre vida instantânea, felicidade efervescente e aquisição de felicidade com a compra de bens ou serviços se conecta através da análise sistêmica. Se o mundo está se deslocando em direção da sustentabilidade e não mais em função do consumismo desvairado, então o sistema determinará a lenta e inexorável criação de nova autopoiese, de novo mecanismo regulatório que funciona automaticamente. É certo que o mundo ainda depende muito do círculo virtuoso gerado pelo consumo ainda que não desvairado: crescimento das empresas, geração de novos empregos, aumento de arrecadação e investimentos públicos, de forma que esta nova autopoiese certamente vai equilibrar o consumismo compulsivo com o consumo necessário para manter a roda da economia em equilíbrio fazendo valer a participação de todos através da transformação de gestos de consumo em atitudes de engajamento com produtor ou serviços percebidos como resultantes de organizações com mais evidentes e importantes políticas de gestão ambiental e programas de sustentabilidade coerentes e relevantes.

Não serão mudanças individuais de comportamento, ainda que muito importantes, ou só elogiáveis iniciativas de grupos ou pessoas os responsáveis pelas mudanças, mas o equilíbrio cinético e homeostático a ser determinada por nova situação autopoiética, representativa não somente de novo equilíbrio entre agentes econômicos, mas sim de novas demandas sistêmicas a serem contempladas por todo o sistema e seus subsistemas ativos.

Não são apenas ferramentas de comunicação dentro de estratégias ou programas de marketing inspirados por responsabilidade socioambiental ou mesmo por escamoteações do tipo “greenwashing” que determinam as profundas alterações que decorrem da determinante alteração para eixos de sustentabilidade que determinam novas formas de gravitação para o mundo e a civilização. São conjuntos sistêmicos que se moldam e são determinantes de situações sobre as quais, pessoas isoladas ou indivíduos tem pequena capacidade de influenciação. Quem age e determina a resultante é o conjunto de indivíduos e não as concepções individualizadas de poucas pessoas.

Compreender o fenômeno da autopoiese dentro da evolução sistêmica não é um procedimento simples ou corriqueiro na sociedade. Existe pouca consciência do fenômeno e de suas consequências, tanto por isto que os programas policiais em profusão em mídias como rádio e televisão ainda teimam em buscar individualizar condutas numa situação que cada vez é menos possível. Vive-se numa sociedade complexa e bastante interativa e os princípios históricos do direito de normatização e sancionamento de condutas individuais quando as mesmas são incompatíveis com a vida social são instrumentos cada vez mais difíceis de aplicar em condições de busca e realização de plena justiça.

Não é por acaso que tem havido tantas evoluções doutrinárias envolvendo direitos de gerações cada vez mais avançadas, desde direitos de segunda geração, e sequências posteriores envolvendo direitos difusos, como os ambientais, e direitos denominados de quinta ou sexta geração, como direitos cibernéticos, nanotecnológicos, resultantes de clonagem ou outros mecanismos da crescente evolução da pesquisa e aplicações genéticas.

É certo que este mundo instantâneo e quase virtual e estes comportamentos de consumo compulsivos não são cenários possíveis de compatibilizar com esta nova realidade que exige supremacia dos mecanismos que privilegiem e evidenciem relações sociais de natureza generalizada em direção a um mundo completamente sustentável e na direção de plena sustentabilidade e todas as suas dimensões.

Não são apenas por boas ou más intenções, ou por maior ou menor nível educacional e consciência individual ou apenas em função de necessidades econômicas que o mundo evolui. Mas também e principalmente para responder a necessidades crescentes, de forma sistêmica e através de transformações permanentes utilizando os mecanismos autopoéticos de busca e manutenção de situações de equilíbrio que busquem permanentemente círculos de virtuosidade social necessários para a evolução civilizatória.

Tudo isto tem sido matéria de reflexões diante de uma realidade inexorável. Se a instantaneidade ou o consumismo ou outras características são passageiras, a complexidade de relações de toda e qualquer natureza não é passageira. Inevitavelmente o mundo e a civilização se tornam cada vez mais complexos e isto mais do que qualquer outra coisa exige uma abordagem sistêmica sobre todas as realidades.

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Nota: leiam, ainda, a primeira parte deste artigo – Pensando em sustentabilidade I

Publicado no Portal EcoDebate, 17/02/2015

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