Quanto riso, ó quanta alegria…, artigo de Montserrat Martins

 

Milhões de foliões se divertem nas ruas do Rio e Recife. Foto: Divulgação/EBC

 

[EcoDebate] “…mais de mil palhaços no salão / o Alecrim está chorando pelo amor da Colombina / no meio da multidão…”. Máscara Negra, de Zé Keti, é a marchinha de Carnaval mais tocada em todos os tempos, provavelmente, antes da Era do Funk, que por sinal foi inaugurada com o “Bonde do Tigrão”, o primeiro funk a bombar no Carnaval, bota uns dez anos atrás nisso.

São marcos históricos de uma revolução cultural, anota aí, um dia ainda vai cair no Enem. Foi a queda de Constantinopla do carnaval “clássico”, das marchinhas de salão, para as letras abusadas, sem limites, que vieram dos morros cariocas, de onde antigamente brotava o samba melódico e passou a eclodir o funk, um estilo agressivo, pegador, explícito e carregado de um machismo que não está nem aí para o politicamente correto.

A queda de Constantinopla marcou o fim de uma Era, a Idade Média, começou ali na vitória dos turcos e do Oriente sobre o Ocidente a Idade Moderna. Gostar de funk é “moderno” e os mesmos programas de TV que fazem matérias e entrevistas contra o machismo e a violência de repente chamam uma atração musical, pra garantir o Ibope, e lá vem o funk com suas letras explícitas.

O sucesso na mídia fez surgir até um novo tipo de funk, mais pausterizado, “então segue o fluxo, várias novinha na minha cola, agora senta e chora, tou botando pra ferver / então segue o fluxo, eu vou curar essa ferida, com a ajuda de uma amiga mais gostosa que você”. Letra “light” em comparação com o funk original.

Se pra você isso nem é assunto, você tem menos de 30 anos de idade e seu carnaval já começou com as cachorras e as tchutchucas. Se você tem mais de 30 ainda deve se lembrar das marchinhas clássicas, “Bandeira branca amor, não posso mais, pela saudade que me invade eu peço paz…”.

Na trilha sonora de novela, o funk mais tocado do momento (“Hoje”, de Mc Ludimilla), a cantora do funk é que é a pegadora, portanto não se enquadra mais no machismo porque ela é quem está querendo “usar” o homem: “E hoje você não escapa, hoje vem que a nossa festa, hoje eu tô querendo te pegar de novo / Hoje ninguém dorme em casa, hoje vai ser meu brinquedo, hoje porque eu quero te pegar gostoso”.

A “revolução cultural” do funk no lugar das marchinhas de Carnaval é um fim da inocência perdida, de letras quase infantis, que todos cantavam sem saber porque e onde seria forçado achar algo implícito, “atravessando o deserto do Saara, o sol estava quente e queimou a nossa cara”. Inocentes ou até didáticas, “Se você acha que cachaça é água, cachaça não é água não”. É claro que eu tenho mais de 30, mas essas reflexões não são só nostalgia não. Ainda acho que vai cair no Enem, um dia.

Montserrat Martins, Colunista do Portal EcoDebate, é médico psiquiatra, bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais e presidente do IGS – Instituto Gaúcho da Sustentabilidade.

Publicado no Portal EcoDebate, 16/02/2015

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2 comentários em “Quanto riso, ó quanta alegria…, artigo de Montserrat Martins

  1. Perfeito, Alfredo Mittelstedt, é Arlequim mesmo. Desculpe o lapso, deve ser a “síndrome de Big Brother” que afeta a memória das letras na cabeça da gente, mesmo sem assistir o programa, só por passar na frente da TV…
    Grato pela correção, abraço.

Comentários encerrados.

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