Entre 100 e 300 milhões: o Brasil de 2100, artigo de César Marques

 

artigo

 

[EcoDebate] O conhecimento do futuro sempre fascinou a humanidade. Nos tempos recentes, o Clube de Roma ficou conhecido durante a década de 1970 ao financiar o projeto do MIT que gerou o livro “Os limites do crescimento”. A obra trouxe as primeiras simulações de computador usando métodos de pesquisa operacional para estimar como seria o balanço entre crescimento econômico, populacional e ambiente até o século XXI, estabelecendo cenários sobre o futuro.

Na demografia, a atividade de projetar a população e assim imaginar seu futuro sempre a acompanhou, mas com altos níveis de incerteza. Cabe ao demógrafo de boa intenção obter o máximo conhecimento possível sobre a fecundidade, a mortalidade e as migrações, para então estabelecer os cenários de comportamento dessas variáveis. Mas, no limite, a opinião do pesquisador tinha um peso enorme nessa atividade. Recentemente, a divisão de população das Nações Unidas mudou sua metodologia para uma mais complexa, diminuindo e classificando a incerteza, usando modelos estatísticos probabilísticos. Na prática isso significa que foram geradas centenas de milhares de projeções, e calculados intervalos de predição a partir de valores medianos. Esses intervalos indicam que há 80% ou 95% de chances de que a população esteja dentro de certos intervalos no futuro.

Para o Brasil, isso resultou no seguinte: dependendo do número da fecundidade, em 2100 podemos ser menos que 100 milhões, com uma população bastante envelhecida, ou mais que 300 milhões. Estatisticamente, o valor da mediana (que divide as projeções: metade está com valores acima, e a outra metade, com valores abaixo), é de 194,5 milhões, quase 10 milhões a menos do que os 203 milhões atuais. O mais impressionante é que essa diferença enorme vai depender de uma diferença relativamente pequena da fecundidade. Para alcançarmos os 300 milhões, essa deverá inverter a tendência de queda e crescer até atingir um valor próximo a 2,3 filhos por mulher. E para a população diminuir a menos de 100 milhões (essa era a população do início da década de 1970) a fecundidade continua caindo até 2050, quando atinge a marca de 1,2 e volta a subir, chegando a 1,5 em 2100.

Esse é o cenário dos extremos e é óbvio que as diferenças entre as duas populações serão gritantes. Disso dependerá todo a economia, os sistemas previdenciários, educacionais, de serviços urbanos, o tamanho das cidades, o consumo de recursos naturais e uma série de outras questões. Para a habitação, por exemplo, com uma população de 100 milhões e os imóveis já construídos hoje mantidos em um bom estado de conservação, possivelmente poderíamos ter o déficit habitacional praticamente zerado em 2100, já que em o Censo Demográfico de 2010 contabilizou 31,6 milhões de domicílios com banheiro e esgotamento sanitário via rede geral de esgoto (o que talvez seja o mínimo…). Isso significa que bastaria adaptar o que temos, e ter muito menos construções.

Por outro lado, muitas cidades diminuiriam, ou desapareceriam, e os desafios trazidos pelo aumento do número de idosos também seria crucial. Haveria mais de um idoso para cada pessoa em idade ativa (15 e 64 anos), mas possivelmente nossa ideia sobre o que é idade ativa também mudaria. A diminuição do número absoluto de crianças (o que já ocorre em alguns locais) seria um fenômeno disperso, dando condições favoráveis à educação e ao cuidado com os mais jovens. Com uma população menor e com menos pessoas em idade ativa, a economia também diminuiria. O mercado de trabalho sofreria sucessivas retrações e o PIB resultados negativos seguidos de resultados negativos. Se as campanhas políticas seguirem pautadas pela ideia de crescimento econômico, nenhum candidato da situação se reelegerá. Se nossa ideia de desenvolvimento seguir pautada pelo crescimento econômico, provavelmente pararemos de nos desenvolver.

Se continuarmos crescendo, atingindo os 300 milhões em 2100, os desafios também seriam enormes. Esse crescimento provavelmente seria maior em cidades médias, que seriam cada vez mais numerosas, e talvez se tornassem cidades grandes. Toda a infraestrutura precisaria aumentar consideravelmente. Os sistemas de transportes, de saúde, educação, habitação e agricultura teriam que fornecer ao menos 50% a mais de oferta para atender a demanda. Nesse cenário o crescimento econômico seria facilitado. Haveria um acréscimo anual de aproximadamente 1 milhão de pessoas por ano ao mercado de trabalho. Isso significa que todos os dias até o final desse século deveriam ser gerados cerca de 2800 novos postos de trabalho para que o desemprego não aumentasse. As condições para o crescimento econômico seriam mais favoráveis, e possivelmente o PIB aumentaria. Talvez as reeleições fossem mais fáceis.

Dos que estão vivos hoje, provavelmente somente aqueles que ainda nem fazem ideia desses problemas viverão o início do século 22. No entanto, esse mundo não virá em um passe de mágica, instantaneamente. Ele será construído por aqueles vivos hoje, aos poucos. Suas realidades serão desenhadas ao longo do século, e as escolhas reprodutivas nossas terão um papel importante. Há grande chance de que até 2050 a população brasileira já tenha parado de crescer e passe a diminuir. E a década de 2050 será aquela em que a maior geração da história brasileira, nascida na década de 1980, tentará se aposentar.

A população brasileira cresceu aproximadamente 10 vezes no século XX (de 17 para 170 milhões). Possivelmente poucos considerariam que seria possível sobreviver a tamanha mudança. Embora os custos do crescimento sejam evidentes pela falta de planejamento nos serviços que consideramos essenciais, a reversão desse quadro é possível. O tamanho e a dinâmica da população são importantes, mas não definem o mundo. Os contextos em que tais transformações ocorrem são cruciais.

Provavelmente em 2100 não teremos nem 100 nem 300 milhões de habitantes, mas algo que fique no meio do caminho. Importa que cheguemos nesse número respeitando os direitos reprodutivos e sexuais dessas pessoas, ou seja, que essas tenham direito a escolha do momento e da quantidade de filhos que irão ter. E que as políticas sejam feitas para atender a população (nas suas diversas características, principalmente de tamanho e estrutura etária) de fato, e não aquela imaginada como ideal.

César Marques, Doutor em Demografia (NEPO/UNICAMP). Atualmente é Professor e Pesquisador da Escola Nacional de Ciências Estatísticas (ENCE/IBGE). Apresenta suas opiniões em caráter pessoal.

Publicado no Portal EcoDebate, 10/02/2015

Entre 100 e 300 milhões: o Brasil de 2100, artigo de César Marques, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 10/02/2015, https://www.ecodebate.com.br/2015/02/10/entre-100-e-300-milhoes-o-brasil-de-2100-artigo-de-cesar-marques/.


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Alexa

Um comentário em “Entre 100 e 300 milhões: o Brasil de 2100, artigo de César Marques

  1. Deve ser muito bom se iludir. Se não fosse, a grande maioria dos seres humanos não viveria mergulhada em mundos de ilusões, de diversas naturezas.

Comentários encerrados.

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