Abundância na sociedade do custo marginal zero de Jeremy Rifkin, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

 

“É triste pensar que a natureza fala e que a humanidade não a ouve” – Victor Hugo

 

The Zero Marginal Cost Society- The Internet Things, the Collaborative Commons, and the Eclipse of Capitalism

 

[EcoDebate] A frase síntese da utopia comunista elaborada por Karl Marx, em 1875, na Crítica ao Programa de Gotha é: “De cada um segundo suas capacidades, a cada um segundo suas necessidades”. O comunismo seria o auge da evolução humana (também o auge da evolução das espécies, pelo pressuposto marxista), época em que haveria abundância de bens e serviços e o desenvolvimento das forças produtivas seria capaz de prover o suficiente para satisfazer as necessidades gerais da população.

Porém, para se chegar a essa etapa cornucopiana do progresso humano seria necessário muita luta de classe para romper com as relações sociais de produção e estabelecer uma sociedade comunista (sociedade sem classes sociais e livre da dominação e da exploração do capital). Para os marxistas, só uma revolução violenta (“a violência é a parteira da história”) seria capaz de “expropriar os expropriadores”, acabar com o lucro – em todas as suas formas – e implementar uma distribuição justa da renda e da riqueza. Todavia, no século XX, diversas revoluções violentas foram feitas e muitas “ditaduras do proletariado” foram implementadas, sem que o “paraíso” comunista fosse alcançado.

Surpreendentemente, em pleno século XXI, um professor de administração e consultor de grandes empresas e governos descobriu a fórmula para a erradicação pacífica e gradual do capitalismo, sem recorrer à propriedade estatal dos meios de produção, sem revoluções políticas sangrentas, sem necessidade de partidos únicos e centralizados do tipo leninista, sem planejamento central, sem dor e sem sofrimento.

A descoberta, que equivale à resolução conjunta dos problemas da “quadratura do círculo” e do “moto-contínuo”, foi feita por Jeremy Rifkin no livro “The Zero Marginal Cost Society- The Internet Things, the Collaborative Commons, and the Eclipse of Capitalism”. O eclipse do capitalismo adviria do avanço simultâneo da “internet das coisas” e da economia colaborativa.

Segundo Abramovay (2014), um dos destacados admiradores de Rifkin no Brasil: “Não se trata de fé ingênua no poder da técnica: a ampliação das oportunidades de oferecer bens e serviços a partir da cooperação direta entre as pessoas (e cada vez menos, do mercado) depende do fortalecimento da sociedade civil e esbarra na gigantesca força dos interesses que procuram sempre limitar o alcance dos bens comuns (os “commons”, em inglês). Mas, diferentemente de qualquer época precedente, a produção e o uso de bens comuns conta agora com dispositivos cada vez mais poderosos. É nessa unidade entre a cooperação social e as mídias digitais que está a base para uma sociedade moderna, inovadora, colaborativa e descentralizada, funcionamento não se apoia nem nos mercados, nem na busca individual do lucro”.

Ainda segundo Abramovay: “A era digital está abrindo caminho a uma economia da abundância. Isso não quer dizer, claro, que produzir matérias-primas minerais e agrícolas não custe nada, que os serviços ecossistêmicos sejam ilimitados ou que se tenha abolido a lei da entropia. Mas é cada vez maior o leque de bens e serviços da economia da abundância” (…) “A grande novidade do século XXI é que essa revolução virtual já atinge a energia e o mundo material. Passou dos bits aos átomos. E aqui reside o extraordinário potencial transformador da internet das coisas. Ela é um tripé, formado pela unidade entre a internet das comunicações, a internet da energia e a internet da logística” (…) “Rifkin chega a dizer que a produção de massas dará lugar à produção pelas massas, numa espécie de recuperação dos ideais ghandianos de autoprodução e independência, mas sob condições técnicas que permitem competir com o que, até aqui, só era possível em virtude da grande indústria e da gigantesca concentração de poder que lhe é correlativa. Os prosumidores serão protagonistas decisivos não só na oferta de informação e de energia, mas também de bens materiais. É o que forma a infraestrutura de uma sociedade orientada pela produção e pelo uso de bens comuns”.

Seria fantástico se tudo isto fosse verdade e que o mundo de Pollyanna prevalecesse sobre o mundo da escassez e dos rendimentos decrescentes. A cornucópia sobrepujando Cassandra. Papai Noel distribuindo gratuitamente os presentes para 7,3 bilhões de habitantes do mundo. O trabalho voluntário superando a “escravidão assalariada”, produtora de mais-valia.

Mas a tal “sociedade do custo marginal zero” não passa de mais uma visão cornucopiana, como aquelas de Peter Diamandis e Steven Kotler (“Abundance – The Future Is Better Than You Think”) e Matt Ridley (“The Rational Optimist: How Prosperity Evolves”) que comentei no artigo “O mito da cornucópia e os cornucopianos modernos” (03/10/2012).

Michael and Joyce Huesemann, no livro: “Techno-Fix: Why Technology Won’t Save Us or the Environment” alertam que a nossa confiança na tecnologia e na crença de que ela vai nos salvar é “suicida” e que muitas das nossas invenções estão causando mais mal do que bem.

O diretor-executivo da Google, Eric Schmidt, tem falado que “a internet vai desaparecer”, ou seja, o conceito de internet não será mais interpretado como é atualmente, como algo dissociado do mundo off-line: o ambiente on-line estará tão integrado às nossas vidas, que fará pouco sentido pensar nele como algo separado. A Internet será parte da nossa presença em todos os momentos, pois você pode entrar em uma sala e interagir com tudo que acontece aí dentro. Segundo Schmidt, trata-se da “internet das coisas e computação vestível”. Mas ele não fala em sociedade do custo zero e nem Internet da energia.

Fazendo uma crítica forte ao livro “sociedade do custo marginal zero”, Eric Raymond comenta que: “Rifkin cites me in his book, but it is evident that he almost completely misunderstood my arguments in two different ways, both of which bear on the premises of his book. First, software has a marginal cost of production that is effectively zero, but that’s true of all software rather than just open source. What makes open source economically viable is the strength of secondary markets in support and related services. Most other kinds of information goods don’t have these. Thus, the economics favoring open source in software are not universal even in pure information goods. Second, even in software – with those strong secondary markets – open-source development relies on the capital goods of software production being cheap. When computers were expensive, the economics of mass industrialization and its centralized management structures ruled them. Rifkin acknowledges that this is true of a wide variety of goods, but never actually grapples with the question of how to pull capital costs of those other goods down to the point where they no longer dominate marginal costs. There are two other, much larger, holes below the waterline of Rifkin’s thesis. One is that atoms are heavy. The other is that human attention doesn’t get cheaper as you buy more of it. In fact, the opposite tends to be true – which is exactly why capitalists can make a lot of money by substituting capital goods for labor”.

Há muitos problemas no livro de Rifkin. Por exemplo, ele não explicou como produzir alimentos com custo marginal zero, como evitar a crise hídrica, nem como colocar comida e água na mesa com impressora 3D. Sem dúvida, a generalização da produção de energia renovável descentralizada seria um passo importante para combater o aquecimento global, porém artigo de Tverberg (2014) mostra que a mudança da matriz energética não é uma tarefa simples e relaciona dez problemas que dificultam a superação dos combustíveis fósseis e a mudança para fontes renováveis. Além disto, a produção de equipamentos para as indústrias solar e eólica estão concentradas nas mãos de grandes empresas americanas, alemãs e chinesas. O prosumidor está apenas em uma ponta da cadeia produtiva.

Sociedade da abundância é um mito antigo, que ressurge de tempos em tempos, podendo ser adaptado tanto pelos teóricos comunistas como pelos teóricos neoliberais. Mas um fato continua incontestável: “é impossível manter crescimento econômico infinito em um planeta finito”. Jeremy Rifkin fala em um mundo de abundância de bens e serviços para o ser humano, mas ignora o holocausto biológico que se abate sobre as demais espécies vivas da Terra. O “paradoxo de Jevons” mostra que desmaterializar a produção é um mito da ideologia da eficiência. Como mostrou Herman Daly, estamos caminhando para o “crescimento deseconômico” e não para a sociedade do custo marginal zero.

O livro de Ted Trainer “Renewable Energy Cannot Sustain a Consumer Society”, mostra que a literatura sobre as energias renováveis têm ignorado quase totalmente os limites da mudança da matriz energética. Existem forças ideológicas poderosas e ninguém quer pensar sobre a possibilidade de que essas fontes sejam incapazes de sustentar os crescentes níveis de consumo dos ricos e das novas classes médias emergentes. Segundo Trainer, é necessário dividir a discussão do potencial das energias renováveis em duas partes: uma relativa à produção de eletricidade e a outra relativa à substituição aos combustíveis líquidos. Nesta segunda parte está o maior problema.

O livro do professor da Universidade de Manitoba (Canadá), Vaclav Smil, “Making the Modern World: Materials and Dematerialization” mostra que a desmaterialização do sistema global de produção de bens e serviços e a possibilidade de construção de uma sociedade pós-materialista esbarra no Paradoxo de Jevons, que é uma expressão usada para descrever o fato de que o aperfeiçoamento tecnológico ao aumentar a eficiência com a qual se usa um recurso ou se produz um bem econômico, o mais provável é que aumente a demanda agregada desse recurso ou produto. O mito da eficiência é esclarecido no livro “The Jevons Paradox and the Myth of Resource Efficiency Improvements” dos autores John Polimeni, Kozo Mayumi, Mario Giampietro, & Blake Alcott (2007).

Para deixar claro, Vaclav Smil mostra que, em 1980, uma lata de alumínio pesava 19 gramas e a produção era de 41,6 bilhões de unidades. Em 2010, o peso caiu para 13 gramas, mas foram vendidas 97,3 bilhões de unidades. Um telefone celular, em 1990, quando 11 milhões de unidades foram comercializados, pesava 600 gramas. O peso caiu para 118 gramas em 2011, quando seis bilhões de assinantes usavam o aparelho. O aumento da eficiência dos motores dos carros não reduziu a demanda por materiais, mas permitiu que os veículos americanos ficassem cada vez mais pesados. Também é o caso também do tamanho dos domicílios nos Estados Unidos, cuja área média era de 100 metros quadrados em 1950 (com famílias de 3,7 membros) e passou a 220 metros quadrados em 2005 (com famílias de 2,6 membros). A área ocupada per capita triplicou no período (Abramovay, 4/11/2014).

Assim, para a maioria da população mundial, a escassez absoluta ou relativa continua sendo uma realidade insuperável e a demanda por recursos naturais só aumenta. Considerando a possibilidade de um colapso ambiental depois de 250 anos de capitalismo, o mais provável é que haja um crescimento dos custos de produção e um período de escassez para a base da pirâmide da desigualdade de renda e não uma sociedade livre dos problemas de custo.

A “Internet das coisas” parece muito mais uma utopia que obnubila os verdadeiros problemas. Em vez de uma sociedade cada vez mais colaborativa e mais rica, o mais provável de ocorrer nos próximos anos é um acirramento da luta de classes e um aumento das loucuras do fundamentalismo religioso (como o ataque ao jornal Charlie Hebdo em Paris), tudo isto, agravado pelas crescentes desigualdades e pelas consequências das diversas crises ecológicas e a depleção dos ecossistemas.

Referências:

ABRAMOVAY, Ricardo. Uma economia da abundância nasce da “internet das coisas”, Planeta Sustentável, São Paulo, 13/05/2014
http://planetasustentavel.abril.com.br/blog/muito-alem-da-economia-verde/uma-economia-da-abundancia-nasce-da-internet-das-coisas/

ABRAMOVAY, Ricardo. PIB pró-consumo é bom, menos nas consequências, Valor, 4/11/2014
http://www.mundosustentavel.com.br/2014/11/pib-pro-consumo-e-bom-menos-nas-consequencias/

ALVES, JED. O mito da cornucópia e os cornucopianos modernos. Ecodebate, RJ, 03/10/2012
http://www.ecodebate.com.br/2012/10/03/o-mito-da-cornucopia-e-os-cornucopianos-modernos-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

ALVES, JED. “TechNo Fix”: por que a teconologia (sozinha) não é capaz de salvar o meio ambiente? Ecodebate, RJ, 25/07/2014 http://www.ecodebate.com.br/2014/07/25/techno-fix-por-que-a-tecnologia-sozinha-nao-e-capaz-de-salvar-o-meio-ambiente-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

John Polimeni, Kozo Mayumi, Mario Giampietro, & Blake Alcott. The Jevons Paradox and the Myth of Resource Efficiency Improvements, Earthscan, 2007
http://sspp.proquest.com/static_content/vol5iss1/book.polimeni.pdf

RAYMOND, Eric. Zero Marginal Thinking Jeremy Rifkin gets it all wrong. 03/04/2014
http://esr.ibiblio.org/?p=5558

RIFKIN, Jeremy. The Zero Marginal Cost Society: The Internet of Things, the Collaborative Commons, and the Eclipse of Capitalism. Palgrave MacMillan, 2014
http://www.amazon.com/Zero-Marginal-Cost-Society-Collaborative/dp/1137278463

SMIL, Vaclav. “Making the Modern World: Materials and Dematerialization”, Wiley, 2013
http://www.wiley.com/WileyCDA/WileyTitle/productCd-1119942535.html

TRAINER, Ted. Renewable Energy Cannot Sustain a Consumer Society, Springer 2007

TVERBERG, Gail. Ten Reasons Intermittent Renewables (Wind and Solar PV) are a Problem, 21/01/2014. Disponível em: http://ourfiniteworld.com/2014/01/21/ten-reasons-intermittent-renewables-wind-and-solar-pv-are-a-problem/#more-38749

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

Publicado no Portal EcoDebate, 28/01/2015

Abundância na sociedade do custo marginal zero de Jeremy Rifkin, artigo de José Eustáquio Diniz Alves, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 28/01/2015, https://www.ecodebate.com.br/2015/01/28/abundancia-na-sociedade-do-custo-marginal-zero-de-jeremy-rifkin-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/.


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Um comentário em “Abundância na sociedade do custo marginal zero de Jeremy Rifkin, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

  1. Eu tenho problemas em acreditar que o ser humano consiga evoluir para uma sociedade sem classes sem ao menos mais uns 10.000 anos de seleção ferrenha para isso, pois a linha da antropologia evolucionista (em que várias das características humanas são explicadas devido à nossa evolução e similaridades entre as nossas sociedades e as de chimpanzés e bonobos são consideradas traços biológicos) me faz mais sentido do que o marxismo (utopia por utopia, prefiro a de Thomas Morus).

    A tendência à hierarquização social (que não precisa se tornar em classes, mas é difícil não se tornar quando o grupo é maior do que 150 pessoas) é uma das forças psicológicas que evoluímos em nossa história de bichos e seres vivos, e ela não evaporou de nossas mentes só porque parte das pessoas acha que não somos mais bichos.

    Mesmo sem considerar a idéia furada de uma sociedade cornucopiana (se conseguirmos segurar o rojão e não destruir o nosso ecossistema a ponto de não conseguirmos sobreviver nele E junto disso conseguirmos diminuir nossa taxa de natalidade a ponto de diminuirmos nossa população a um nível que esteja abaixo do nível de carreamento da Terra, acho que uma sociedade de abundância, não de crescimento constante, mas de recursos suficientes para todos, seria possível), a idéia de uma sociedade completamente sem classes não me parece possível para a nossa espécie.

    Poderíamos evoluir para algo assim, com tempo ou transgenia (transgenia implicaria descobrir todos os genes que influenciam nesse comportamento, que muito provavelmente não é de herança mendeliana simples), mas acho que já seríamos outra espécie, com uma mudança biológica tão profunda. Uia, aí a idéia do Marx que de isso seria o “ápice” da evolução das espécies funcionaria. Pena que o Gould já provou que evolução não tem setinha de sentido :P

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