Identidade na diversidade, artigo de Montserrat Martins

 

Brasil

 

[EcoDebate] Não sabemos disso, pois não está clara nossa identidade nacional, tão diversas são as regiões do país. Mas o Brasil pode ser reconhecido tanto no interior do Acre quanto do Rio Grande do Sul, o que fica mais evidente se você atravessar a fronteira para a Bolívia ou para o Uruguai. Vendo as diferenças para os outros é que reconhecemos as nossas semelhanças, com nossas virtudes e defeitos. O fato é que há um padrão de construções, de vias, de arquitetura, de praças, de comércio, de pavimentações, de paisagem física e humana, que perpassa todo o território nacional e que nos caracteriza, sem que tenhamos consciência disso.

Um país continente manter semelhanças do Oiapoque ao Chuí não pode ser obra do acaso, mas sim do tipo de povoamento histórico e da própria administração do país. Desde os tempos da colonização – e no período republicano desde os anos 30 do século passado – temos governos federais mais fortes que os poderes locais, influenciando nossa formação de padrões nacionais de povoamentos, de construções até mesmo de padrões estéticos e comportamentais.

No Brasil do século XIX, é atribuída à capacidade estratégica e de articulação política de José Bonifácio a manutenção de um território nacional unificado, em contraste com as sucessivas secessões da América espanhola. Os anos 1800, mais que os da Independência nacional, foram os de revoltas regionais, onde os poderes locais ao se rebelar se afirmavam diante do Império central, espírito que persistiu mesmo nos primeiros anos de República. Do século XX até o XXI, tivemos décadas de getulismo, depois de governos militares e agora de lulismo, todos fortemente centralizadores.

Podemos dizer que nosso “padrão” de governo é nacionalista e com uma presença forte do Estado na sociedade. A ironia do capitalismo brasileiro é que até hoje ele mantém laços de dependência do Estado (como “indutor do desenvolvimento”), tal como nos tempos da Colônia e do Império. Mas além dos fatores políticos e sócio-econômicos, há ainda fatores culturais. O povo português é tido como um dos que mais aprecia a miscigenação, em contraste com os outros povos europeus. E o Brasil sempre foi um país aberto a receber imigrantes, tal como os alemães e italianos de presença marcante no Rio Grande do Sul.

Os fluxos internos também tem um papel preponderante nessa identidade nacional. A maioria dos estados tem gaúchos, paulistas, baianos, cearenses, que se fixaram em outras regiões. Se em Brasília isso parece natural, pode parecer surpreendente que mesmo no Acre você encontre cidades com influência de paranaenses, capixabas, cearenses, paulistas e gaúchos. Nosso povo é mesmo “tudo junto e misturado” e isso é uma virtude, um ecletismo, no sentido de que aumenta nossa tolerância com a diversidade, que podemos reconhecer como um gosto nacional. Sim, há os intolerantes e preconceituosos mas eles são uma minoria, por mais incômoda que ela seja, em nossa cultura miscigenada.

Existem os padrões regionais mas existe sim uma cultura nacional, rica em diversidade e em origens. Claro que temos graves mazelas a resolver, além da educação, na área cultural, como a preservação do que resta da cultura indígena, hoje reduzida quase que só aos nomes das localidades do nosso país.

Montserrat Martins, Colunista do Portal EcoDebate, é Psiquiatra.

 

Publicado no Portal EcoDebate, 01/12/2014


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2 comentários em “Identidade na diversidade, artigo de Montserrat Martins

  1. Palavras de um sonhador.

    Cada país é constituído por um território e por um grupo de seres humanos que ocupa esse território e segue – ao menos em teoria – as Leis em vigor e os costumes e tradições existentes, que variam no tempo no espaço.

    A importância da identidade nacional é questionável, pois conduz ao sentimento patriótico, que, através da História da espécie humana, mesmo antes de países serem constituídos – quando havia grupos humanos, chamados de povos – alimentou conflitos políticos e guerras, e ainda continua a alimentar, e continuará, até quando a identidade nacional e o patriotismo forem exaltados.

    Importante mesmo é que se constitua a identidade da espécie humana, em seu sentido mais profundo e mais intenso, sem, contudo, deixar de valorizar as demais espécies vivas, sejam animais ou vegetais.

    A divisão do globo terrestre em Estados e a propaganda que se faz, em todos os países, do sentimento patriótica, gera na maioria dos seres humanos sentimentos de inferioridade, superioridade, desprezo e até de repulsa por outros seres humanos, por viverem em países diferentes e terem diferentes costumes e tradições. As religiões contribuem, imensamente, com a formação desses sentimentos adversos, mesmo entre seres de mesma nacionalidade – esse é um termo muito pesado.

    A Educação, em todos os países, deve se ater a essa questão, com a máxima atenção possível, pois esse é um caminho promissor para transformar o comportamento social da espécie humana, produto de uma “evolução” histórica deturpada por medos e ambições.

  2. Provavelmente caminhamos para um governo global, se não destruirmos primeiro a civilização. Enquanto isso não acontece, as nações contiuam se organizando em torno de etnias, idiomas, interesses econômicos e políticos, nem sempre os mais nobres.

    Apesar do “jeitinho” e do oportunismo, alardeados aos quatro ventos, talvez herança da colonização, colhemos os frutos da miscigenação, nem tão perniciosos como alguns chegaram a sugerir.

    Um efeito benfazejo é a tolerância, talvez simultaneamente causa e consequência. Alguns ainda chegam a concluir, por exemplo, que o racismo no Brasil (dissimulado) seria pior que o mais explícito, já visto no “apartheid”. Justificam pela suposta condição insidiosa da discriminação, similar a um tumor maligno oculto.

    É uma teoria interessante, mas não encontra amparo nos fatos. Em primeiro lugar a miscigenação é livre e espontânea, em geral, embora nos primórdios não fosse bem assim. Essa espontaneidade é visível, cotidiana e insofismável. É contra-intuitivo imaginar discriminação racial dentro de uma mesma família.

    A dissimulação certamente existe, pois há de tudo em toda parte. Mas é muito difícil acreditar que seja preponderante nestas terras. Contra fatos são frágeis os argumentos.

Comentários encerrados.

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