Religião e Ciência, artigo de Efraim Rodrigues

 

opinião

 

[EcoDebate] Nesta semana meu amigo Antonio Nobre, do INPE publicou uma extensa revisão de centenas de trabalhos científicos sobre a influência da Floresta Amazônica sobre o clima da América do Sul. Veja o link em meu blog bit.ly/T4rXVg

Eu o conheci há mais de dez anos, visitando uma torre climatológica de muitas dezenas de metros (parecia ter centenas) e logo depois também descemos muitas dezenas de metros em um poço para estudar a liberação de carbono pelas raízes das árvores.

A grande conclusão do trabalho é que o sul e sudeste secarão sem a Amazônia. Os efeitos já são visíveis com os 20% de desmatamento.

Faz décadas que sabemos que grande parte da chuva do sul vem do norte, mas passar e repassar a limpo as idéias é o modo pelo qual a ciência separa aquilo que parece verdade do que é verdade. A coisa não para nunca, porque em havendo um motivo, tudo pode ser discutido.

Historicamente, a Igreja Católica impediu o avanço do conhecimento, recusando por séculos a aceitar que a Terra gira ao redor do sol, a evolução das espécies e o Big bang, mas eis que nesta semana parece que uma gigantesca pedra se moveu e a fala de ninguém menos que o Papa ecoou algo que já foi escrito nesta coluna.

“ O big bang e a evolução não só são compatíveis com a Bíblia, como são imprescindíveis para entender Deus”. E mais adiante: “É um pecado grave contra Deus o criador destruir o ambiente e os cientistas têm uma responsabilidade especial de proteger a obra do criador.”

Talvez por ter lido o Gênesis já como cientista, nunca vi a incompatibilidade entre religião e ciência. O Gênesis não diz que Deus criou a Terra. Está escrito “e Deus disse QUE SE FAÇA” isto e aquilo. O Papa não chegou a comentar este detalhe, mas é nele que reside a necessária convergência entre ciência e religião, que é a palavra de ordem para salvar cientistas do de sua torre de marfim, assim como os religiosos do fundamentalismo.

O divertido estudo de Antonio Nobre, tão cheio de idéias, assim como as palavras do Papa me deixam otimista acerca do fim do obscurantismo de corrente social que vivemos hoje e convergirmos para andar em uma mesma direção.

Efraim Rodrigues, Ph.D. (efraim@efraim.com.br), Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor pela Universidade de Harvard, Professor Associado de Recursos Naturais da Universidade Estadual de Londrina, consultor do programa FODEPAL da FAO-ONU, autor dos livros Biologia da Conservação e Histórias Impublicáveis sobre trabalhos acadêmicos e seus autores. Também ajuda escolas do Vale do Paraíba-SP, Brasília-DF, Curitiba e Londrina-PR a transformar lixo de cozinha em adubo orgânico e a coletar água da chuva. É professor visitante da UFPR, PUC-PR, UNEB – Paulo Afonso e Duke – EUA
http://ambienteporinteiro-efraim.blogspot.com/

 

Publicado no Portal EcoDebate, 03/11/2014


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2 comentários em “Religião e Ciência, artigo de Efraim Rodrigues

  1. A dominação religiosa como impedimento da libertação da humanidade.

    “ O big bang e a evolução não só são compatíveis com a Bíblia, como são imprescindíveis para entender Deus”. E mais adiante: “É um pecado grave contra Deus o criador destruir o ambiente e os cientistas têm uma responsabilidade especial de proteger a obra do criador.”
    [Palavras do Papa Francisco].

    As declarações acima, feitas pelo Papa Francisco, são uma tentativa fracassada da igreja católica de negar seu caráter conservador e afastado do desenvolvimento científico alcançado pela espécie humana.
    Somente o Papa Francisco é capaz de empreender tamanha tarefa, a qual, para ser exitosa, haveria de apagar, da História da humanidade, milhares de anos de perseguição ao desenvolvimento científico e cultural.
    Mas tudo bem, Francisco. Se a igreja católica, através de sua longa e nebulosa história representou grande impedimento ao desenvolvimento científico e cultural da humanidade, pregando o medo e a subserviência, e agora deseja jogar fora a máscara e mostrar a sua face à realidade, então faça isto sem subterfúgios, declarando o que a História já sabe:
    1. que todas as religiões e deuses que existiram ao longo da evolução humana, em locais e épocas diferentes, são criações de grupos humanas, motivadas pelo sentimento de fragilidade, pelas dificuldades de sobrevivência e pela consciência de que todos os seres vivos são mortais;
    2. que o judaísmo foi a primeira religião monoteísta criada, há cerca de quatro mil anos, e que, em seguida, outras foram criadas, entre as quais se encontra o catolicismo;
    3. e, finalmente, que todo trabalho desenvolvido pelas religiões, ao longo da História, teve como objetivo principal dominar e controlar a humanidade, através do medo, de promessas fantasiosas e da distorção da realidade.
    Faça isto, Papa Francisco, e, ao mesmo tempo em que estará decretando a falência das religiões, estará contribuindo para a libertação da grande maioria dos seres humanos da dominação política e econômica a que está subjugada desde a antiguidade.

  2. Prezado Valdeci:

    Talvez que faltassem o claro discernimento de que as instituições não necessariamente se confundem com as pessoas que as representam. A Igreja Católica possui uma doutrina que muitas vezes foi deturpada por interesses claros das pessoas que estavam no poder. Por isso, confundir a Igreja Católica como instituição e sua doutrina, com os homens, desejosos de poder e glória terrenas, é ignorar que os homens (papas, bispos, padres e outros tantos) usaram e abusaram do seu poder terreno de falar, decidir e condenar em nome da Igreja.
    Outra coisa é a questão da temporalidade: estamos em pleno século XXI, com os documentos e provas da História querer fazer um juízo de valor das pessoas que usaram o poder em nome da Igreja, há muitos séculos atrás.
    Quando um Papa, falando em nome da Igreja, tenta mostrar-nos a todos que o passado obtuso daqueles que usurparam o poder em nome da instituição, está demonstrando a humildade e a coerência de que a doutrina e a ciência não estão em situações opostas.
    Não podemos negar o legado da Igreja Católica através dos programas humanitários, das criações da universidades, colégios e entidades, do apoio aos mestres das artes ao longo dos tempos … É o outro lado da moeda
    Qual outra instituição sobreviveu vinte séculos sem se afastar de sua doutrina? O que se condena é a influência humana na sede do poder, do dinheiro.

Comentários encerrados.

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