A guerra dos memes, artigo de Montserrat Martins

 

opinião

 

[EcoDebate] Nunca antes na história deste país os memes foram tão usados numa eleição presidencial. Ainda não sabemos (quando foi escrita essa coluna) quem vencerá o pleito, mas podemos dizer com certeza que os memes foram os grandes vitoriosos dessa campanha. Vale a pena entender daquilo que se tornou de extrema importância na decisão dos rumos do nosso país. Ah, sim, o que são memes, exatamente?

É aquele tipo de ideia simples – independente de ser verdadeira ou falsa – que se reproduz com grande velocidade se difunde massivamente, os chamados “virais” da internet. Quem “descobriu”, batizou e conceitou os “memes” foi o neo-darwinista Richard Dawkins, no seu livro “O Gene Egoísta”, em 1976. A teoria de Darwin demonstrava como o gene é o menor fragmento biológico com tendência à autorreprodução, que é mais rápida quanto mais simples o organismo – como o vírus.

Por analogia com a tendência inata dos genes a se multiplicarem, Darwin chegou a iniciar algumas observações sobre se isso ocorreria não só na biologia mas também no terreno cultural. Dawkins aprofundou essa indagação de seu inspirador e percebeu que o equivalente ao menor fragmento biológico que se reproduz (o gene), há o menor fragmento de memória que também tende a se reproduzir – que chamou de “meme”, como um diminutivo de memória e por analogia com o gene.

Para se tornar “meme”, uma ideia deve ser absolutamente simples – quanto mais simples for, mais facilmente irá se reproduzir. Pode ser uma simples palavra, “bipolar” por exemplo está na moda e virou um apelido comum que as pessoas dão umas às outras, seja falando sério ou brincando. Frases que viram chavões, bordões, quanto mais simples e atrativa, mais poderosas são enquanto memes: “Pior do que tá não fica” gerou milhões de votos, a maioria como forma de brincadeira.

Sempre houve memes nas eleições e do dia a dia, tanto para fortalecer os próprios partidos, quanto para desmoralizar os adversários. Nos últimos 20 anos se desenvolveu a guerra de memes PT x PSDB que se acusam reciprocamente de “privataria tucana” e de “petralhas”. A imagem dos tucanos como Aécio foi associada a um playboy que privatizaria tudo e a da Dilma como uma terrorista cúmplice de uma quadrilha. A foto de óculos da Dilma guerrilheira circula há anos nas redes sociais com a pecha de assassina. O que os marqueteiros fazem com isso? O genial marqueteiro da Dilma a transformou em “coração valente” usando a mesma foto com a qual ela foi atacada durante anos, “viralizando” a imagem associada ao novo conceito (valente), como um Che Guevara tupiniquim. Aécio é vendido como “competente, capaz de atrair investimentos” como o bom de seu trânsito empresarial.

Marina que havia sido poupada em 2010 – porque não indo ao segundo turno era um apoio desejado – entrou dessa vez na guerra de memes tachada de “metamorfose ambulante” por troca de partido e de item do programa de governo. Para a criação de memes, pouco importa se realmente Malafaia teve algo a ver com a mudança ou se foi como ela explicou (que faltara a revisão e mediação em partes do programa, erro percebido no dia seguinte), o que importa é a ideia de mais fácil reprodução. Seria o equivalente a criar um meme associando Dilma a Edir Macedo. Também foi o que ocorreu nos ataques a Neca, por ser herdeira de banco, e poderia ter sido feito o mesmo associando Dilma a Eike, seu amigo bilionário. Memes não tem nada a ver nem com análises dos problemas nem com projetos para o país. São bordões fáceis apenas, usados nesta eleição como numa guerra.

Montserrat Martins, Colunista do Portal EcoDebate, é Psiquiatra.

 

Publicado no Portal EcoDebate, 03/10/2014


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