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Artigo

Redução da fecundidade e qualidade de vida humana e ambiental, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

 

“Large and growing populations are good for one thing – war”. Andrew McKillop, 2013

 

projeção média e baixa fecundidade

 

[EcoDebate] A taxa de fecundidade da população mundial caiu de 5 filhos por mulher em 1950 para 2,5 filhos em 2010, segundo dados da Divisão de População das Nações Unidas. Mas o número de nascimento, que estava pouco abaixo de 100 milhões de crianças, subiu para algo em torno de 140 milhões de crianças, no mesmo período. Isto ocorreu porque aumentou o número de mulheres entre 15 e 49 anos (período reprodutivo), fazendo com que o volume de nascimentos aumentasse mesmo com a diminuição do número médio de filhos por mulher.

Na projeção média da fecundidade da ONU, que pressupõe uma taxa de fecundidade ao nível de reposição em 2100, o número anual de nascimento no mundo deve se manter mais ou menos estável em torno de 140 milhões de criancas. Isto quer dizer que, se a esperança de vida global chegar a 80 anos, a população mundial pode se estabilizar em 11,2 bilhões (140 milhões vezes 80) de habitantes no final do século XXI.

Porém, quanto maior a população maior tende a ser o impacto negativo das atividades antrópicas sobre o meio ambiente e maior tende a ser a taxa de exploração dos recursos naturais. A pegada ecológica já está acima da taxa de reposição da biocapacidade da Terra e a grande emissão de gases de efeito estufa tende a aumentar o aquecimento global e provocar mudanças climáticas indesejáveis. Uma redução mais rápida do número de nascimentos poderia contribuir para o encolhimento do impacto antrópico.

O mundo atingiu 7 bilhões de habitantes em 2011. No quinquênio 2010-15, o número de óbitos globais está em torno de 60 milhões e o número de nascimentos em torno de 140 milhões. Portanto, o crescimento vegetativo está na casa de 80 milhões de pessoas ao ano. Assim, a população mundial de 2014 é de 7,24 bilhões de habitantes, devendo atingir 8 bilhões em 2024 ou 2025. Devido à inércia demográfica e à estrutura etária relativamente jovem da população mundial, é praticamente impossível deter o crescimento demográfico no curto prazo.

Porém, a população mundial pode começar a cair no médio e longo prazo. No cenário de queda mais rápida da fecundidade, a população mundial atingiria a estabilidade em meados do atual século, com uma população de 8,3 bilhões de habitantes. Com o número de nascimentos continuando a cair até cerca de 60 milhões ao ano, em 2100, a população mundial ficaria com 6,7 bilhões de habitantes nesta mesma data.

Portanto, no curto prazo não é possível obter um decrescimento populacional com continuidade da redução das taxas de mortalidade. Mas no longo prazo isto é perfeitamente viável. Basta a taxa de fecundidade global ficar em torno de 1,8 filhos por mulher que o número de nascimentos declinaria continuamente, aliviando a pressão demográfica sobre o meio ambiente.

Se entre 2010 e 2050 o número de nascimentos cair aproximadamente em 1 milhão ao ano, o número de novos bebês diminuiria de 140 para 100 milhões no período. Portanto, a população mundial pode ter, neste caso, cerca de 1 bilhão de habitantes a menos do que aquela estimada na projeção média. Assim, na projeção baixa da Divisão de População das Nações Unidas a população mundial estaria abaixo de 7 bilhões de pessoas em 2100.

Ou seja, reduzir de imediato a população, mantendo os ganhos de esperança de vida, é impossível. Mas desde já (e no dia-a-dia) reduzir o ritmo de crescimento demográfico é perfeitamente possível. A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que existem mais de 200 milhões de mulheres em período reprodutivo sem acesso aos métodos de regulação da fecundidade. O número de gravidez indesejada é alto. Portanto, torna-se fundamental se atingir, em algum momento, a meta # 5B dos ODMs: “Alcançar, até 2015, o acesso universal à saúde reprodutiva”. Os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) também colocam como meta a universalização dos serviços de saúde sexual e reprodutiva.

Sem dúvida, as gerações presentes podem contribuir para a melhoria das gerações futuras e para a redução dos problemas ecológicos. Se o decrescimento populacional for acompanhado do decrescimento do consumo conspícuo haveria então a possibilidade de uma situação onde uma menor quantidade de pessoas, com diminuição do consumismo, permitiria uma melhor qualidade de vida humana e não humana no Planeta.

Referências:

STRIESSNIG, E.; LUTZ, W. How does education change the relationship between fertility and age-dependency under environmental constraints? A long-term simulation exercise. Demographic Research, v. 30, article 16, p. 465-492, February 20, 2014.

As the world’s population grows, are we borrowing from mankind’s future?, Boston Globe, 02/05/2014

John Englart, Tackling food security with a growing population, climate change and peak oil, 23/02/2014

Andrew McKillop. Falling World Population And The New Economic Prosperity, 02/05/2013

Glen Barry. On Overpopulation and Ecosystem Collapse, May 17, 2014

 

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

 

EcoDebate, 08/08/2014


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3 thoughts on “Redução da fecundidade e qualidade de vida humana e ambiental, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

  • Complementando com ações possíveis:

    Fora o básico, ou seja, por favor, usem camisinha. Ou equivalentes (que funcionem) e tentem ter menos que dois filhos, já nem todo mundo é feliz com zero.

    Para quem for feliz com zero, só mandem as enxeridas de plantão (“e o nenê, quando sai?” >_<) para aquele lugar mentalmente.

    E para quem quiser contribuir para melhorar a vida dessas milhões de mulheres que gostariam de usar anticoncepcionais mas não tem acesso a eles, há uma ONG internacional que trabalha com isso:
    http://www.popoffsets.com/

    Se alguém souber de uma ONG nacional que trabalhe com distribuição de anticoncepcionais e auxílio ao planejamento familiar, por favor, me avise.

    Eu preferiria ajudar ONGs nacionais mas todas as que já ouvi falar foram esmagadas pelo grande lobby político dos que acham que qualquer tentativa de se permitir às massas que tenham acesso ao que qualquer uma na elite tem é "eugenia".

  • Essas previsões que minimizam os males são, do meu ponto de vista, tão impossíveis de acontecerem antes que ocorra o colapso socioambiental da Terra, que considero desperdício perda de tempo ficar tratando delas.

  • Carlos Eduardo Sander

    Inverno de 1985, lembro que o tema natalidade foi pauta em um dos Encontros de Ambientalistas, no Rio Grande do Sul, pensando a construção e estrutura da plataforma de compromissos para a Constituinte de 1988. Proposto como um dos pontos a serem tratados, pouco foi valorizado, são 26 anos, temos mais elementos para aperfeiçoar a justificativa. Na oportunidade sustentamos uma afirmação, a Carta Legislativa tem que orientar o planejamento, estabelecendo na ordem a ligação direta, de manter uma atenção por maior harmônia possível nas relações da sociedade humana, também como natureza, com o meio ambiente, sabendo que precisamos de tudo, seja pela utilização como serviços naturais, na disponibilidade do Ar, da água, a biodiversidade, e demais insumos que são matéria prima, exploradas para transformar tanto em produtos como bens de consumo. Que também trazem um efeito na degradação da qualidade de vida.

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