Tela de papel, artigo de Daniel Clemente

 

máquina de escrever
Foto em Culturamix.com

 

[EcoDebate] As inovações tecnológicas avançam com uma velocidade muito superior a formulação dos questionamentos sobre os seus próprios benefícios em sua introdução no cotidiano, basta o simples fato de existir para que se torne necessário e indispensável, bloqueando possibilidades passadas e formulando realidades onipresentes. A grande estratégia da tecnologia não é a de suprir demandas da sociedade, mas sim cria-las.

Um olhar para o passado de uma pessoa que viveu o passado desperta conclusões nostálgicas, é sempre uma releitura com valores da atualidade agregado, como por exemplo, lembrar que “antigamente era possível encontrar com as pessoas e lugares apesar da não existência do GPS”, ou que “as amizades eram feitas sem ter que curtir suas fotos virtuais”. Muitos também podem lembrar-se do passado como algo doloroso frente a ociosidade que a tecnologia proporciona, relembrar que “antes para comprar um tênis era obrigatoriamente necessário se deslocar de sua comodidade até um estabelecimento que tivesse o produto a ser adquirido, e que hoje basta ter um celular e um cartão de crédito para que a compra chegue até você”.

O interessante mesmo é o olhar das crianças para o passado, pessoas do presente em que sua formação intelectual está toda baseada na atualidade, conseguem fazer análises e obter conclusões somente possíveis a elas. Minha filha Gabriela tem 08 anos de idade, e se arriscou na árdua tarefa de utilizar o meu antigo “produtor de letras”, uma máquina de escrever “Olivetti Baby”, e que nesta época já possuía um componente incrível, uma tampa que fechava e protegia toda a máquina, transformando-a em uma maleta portátil, percussora dos notebooks e laptops da atualidade. No transcorrer de sua viagem para o passado, exercendo força estarrecedora em seus pequenos dedos para “datilografar” pensamentos, a Gabi me trouxe em voz sua análise sobre essa descoberta de museu: “Papai, antigamente a tela era de papel”.

Sim, a tela era de papel, todas as suas ideias e conclusões ali apareciam sem a necessidade de serem “curtidas”, dados pessoais e burocráticos só eram “raqueados” somente caso estivesse utilizando uma folha de carbono, a autocorreção era o melhor exercício prático da língua portuguesa, e de tão pesada ficava impraticável transportá-la de maneira cômoda, te obrigando a deixa-la em casa, e no transcorrer do dia o convívio com outras pessoas tornava-se possível.

Os benefícios tecnológicos aplicados no mais corriqueiro dos atos transformaram a sociedade e sua percepção, a “tela de papel” foi sucumbida por telas portáteis muito mais atrativas e eficientes. A tecnologia é fundamental e adaptar-se a ela também; Datilografar com apenas um dedo era sintoma de falta de aprendizagem, hoje que usa mais de um dedo para enviar mensagem via celular dá sinais de velhice.

Aliás, quem leva o celular até o ouvido para se comunicar também já não é tão jovem assim, volta-se a escrever, uma nova linguagem, uma nova tela, semelhante a “tela de papel”, com uma única diferença, o papel viaja na velocidade do homem, a tela virtual percorre um pouco abaixo da velocidade da luz.

Daniel Clemente é Professor de História, Sociologia e Filosofia do Colégio Adventista de Santos

EcoDebate, 18/07/2014


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Um comentário em “Tela de papel, artigo de Daniel Clemente

  1. Antigamente a “Olivetti Baby” imprimia no momento que se digitava.

Comentários encerrados.

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