Bola, paixão mundial, artigo de Montserrat Martins

 

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[EcoDebate] O fascínio da bola decorre da sua simplicidade, é algo ao alcance de todos: até uma bola de meia num corredor serve para brincar de futebol. O esporte mais popular do mundo é o mais simples de todos. Já joguei na praia em times feitos na hora onde estavam empresários, advogados, engraxates, guris de rua, todos juntos – sendo que ali quem tinha mais valor era quem jogava mais, não quem ganhava mais. Todo mundo queria no seu time quem corria mais, quem driblava melhor, não quem era mais “importante”. O futebol tem uma lógica própria, ali as diferenças são outras, entre quem sabe jogar e quem não sabe.

Só o futebol iguala pessoas muito diferentes, porque naquele momento nada mais importa, só viver o momento mesmo, se entregar ao jogo. Depois vai cada um para o seu lugar, o empresário volta ao seu status e o engraxate à sua falta de status, mas durante o jogo na praia eles não são nada disso, são ataque ou defesa, lateral ou meia, goleiro ou centroavante. O advogado não vai ser chamado de “doutor” mas sim de algo mais primitivo, por seu tipo físico, vai ouvir coisas como “cruza pro magrão que ele ta na área”, ou “lança pro coroa que ele tá livre”.

Por coisas assim é que alguns dos maiores autores brasileiros já escreveram sobre futebol, Mário de Andrade, Nelson Rodrigues e Luís Fernando Veríssimo já se renderam a essa paixão. Não tem como não gostar de futebol porque nada é tão popular quanto esse esporte, nada é tão povo, nada é tão a cara do Brasil, no seu melhor sentido.

Aí vem a Fifa com suas regras e nossos estádios se elitizam. Ficam mais lindos, é claro, belas obras arquitetônicas (menos o Itaquerão, não sei porque), mas o povo não cabe mais dentro dele. Uma Copa com lugares vazios nas arquibancadas na primeira fase, porque o valor do ingresso é proibido para os de menor status. O povo vai ver a Copa na TV, é claro. E na maioria dos lugares onde os estádios foram construídos, nem depois da Copa o povão vai conseguir entrar, pois os ingressos encareceram muito com as Arenas.

Haverá coisas boas a comemorar, é claro, sempre há. Tivemos na abertura dessa Copa o seu mais belo momento: um paraplégico se levanta da cadeira de rodas e caminha até o centro do campo para dar o pontapé inicial na partida inaugural. Uma conquista da ciência com esforços que incluem os do neurologista brasileiro Miguel Nicolelis, que idealizou o equipamento capaz de desenvolver movimentos de membros paralisados, através de um “exoesqueleto” mecânico, a partir da leitura de sinais cerebrais.

O equipamento é sofisticado a ponto de enviar sinais de volta ao usuário, que quando chuta a bola sente um estímulo tátil. Nicolelis faz uma bela comparação com a chegada do homem à Lua, parafraseando que esse feito “é um grande passo para a humanidade”.

Momentos como este são capazes de dar sentido a uma Copa do Mundo, a aproximam de seu melhor espírito, do congraçamento e promoção de bons valores universais. O esporte já foi capaz de afrontar o nazismo, quando o favorito de Hitler foi derrotado em Olimpíadas. O futebol já parou guerras por alguns dias, como numa famosa história que aconteceu na África durante uma excursão do Santos de Pelé.

Não faz sentido falar em “Copa das Copas” quando vários operários morreram em obras de construções de última hora de estádios, o título é mera propaganda oficial como “Copa das Mortes” é sua contra-propaganda. Mas o futebol tem sua magia e ele é maior que uma FIFA, é maior que um governo, que suas administrações transitórias.

O futebol continuará para além de seus gestores atuais, mais popular, espera-se, livrando-se das amarras comerciais e elitistas de agora, sendo devolvido ao povo como uma de suas conquistas, tanto quanto as que precisamos ter na saúde, na educação e em todas áreas da sociedade.

Montserrat Martins, Colunista do Portal EcoDebate, é Psiquiatra.

 

EcoDebate, 17/06/2014


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Alexa

Um comentário em “Bola, paixão mundial, artigo de Montserrat Martins

  1. Belo e gostoso texto Montesserrat Martins. Leve como uma boa pelada. sinto profunda saudades de minha infância quando vivíamos (e só de vez em quando algum carro passava para paralisar por segundos nossa pelada) ‘jogando bola’ no meio da rua (aqui no interior do Estado de São Paulo), fazendo ‘melée’ (nem sei se é assim que se escreve), batendo uma boa, antes e depois das aulas.
    Ele – o jogo de futebol, e acho que qualquer outro esporte de equipe – é fundamental para desenvolver o espírito de trabalho coletivo, de colaboração, de paixão, de projeção pessoal e reconheimento do valor do outro.

    Um gde e ftn abç

Comentários encerrados.

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